IPO da Uber: vale a pena entrar ou é melhor cancelar a corrida?
Preço da ação ficou em US$ 45. A expectativa da empresa é que a oferta seja encerrada no dia 14 de maio

Com a abertura de capital da Uber (código UBER) na bolsa de Nova York nesta sexta-feira (10), a expectativa do mercado é grande com a companhia, mas os desafios que ela vai enfrentar são igualmente gigantes. Lembro da minha primeira viagem com a companhia assim que eles começaram a operar em Brasília.
A primeira experiência foi um pouco complicada. O motorista não conseguia se achar em meio a numeração diferente das quadras na capital federal, mas eu não desisti. Chamei mais vezes e virei uma fã assumida.
Porém, com a popularização de outras empresas de aplicativos de mobilidade urbana, a Uber teve que rebolar para manter o seu posto. E com a abertura de capital não será diferente. Em troca dos bilhões que vai captar dos investidores ela assume o compromisso público de entregar uma empresa mais valiosa e que traga uma rentabilidade para esses investimentos.
Mas a empresa está apostando alto. Segundo o que foi divulgado, o preço da ação ficou em US$ 45. Com isso, a gigante da mobilidade urbana pretende arrecadar entre US$ 7,9 bilhões e US$ 10 bilhões com a sua abertura de capital. A expectativa da empresa é que a oferta seja encerrada no dia 14 de maio.
Raio-x da companhia
E agora? É hora de entrar ou não? Antes de fazer uma aposta em qualquer empresa, o melhor é que o investidor faça uma espécie de análise de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças da companhia, a famosa análise SWOT, um clássico no mundo dos negócios. De acordo com a companhia, o seu valor de mercado está na faixa entre US$ 80 bilhões e US$ 90 bilhões e a pretensão dela é avançar em um mercado de US$ 12 trilhões, o que seria equivalente a 15% do PIB mundial.
Os maiores acionistas da Uber são Softbank (16%), Benchmark Capital (11%), o fundador Travis Kalanick (8%) e até a Alphabet (Google) com 5%.
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Uber está presente em 63 países e fez mais de 5 bilhões de corridas no ano passado.
Entre os analistas, há opiniões divididas. A casa de investimentos e serviços financeiros, Wedbush Securities, dá uma recomendação de compra da ação e um preço-alvo de US$ 65. Outra casa de análise, a D.A Davidson, coloca a empresa com recomendação "neutra" e vê um potencial de alta um pouco menor, para US$ 53 por ação.
Em 2017, por exemplo, o Uber teve faturamento de US$ 831 milhões, um salto de 250% sobre a receita de US$ 236 milhões registrada em 2016. Já no passado, o faturamento da empresa somou US$ 11,2 bilhões, o que representa um crescimento de 42% na base anual.
Quais são as oportunidades
A empresa poderá entrar na lista de ações de tecnologia mais valiosas da bolsa americana, um grupo que ficou conhecido como FAANGs, sigla que reúne as iniciais de Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google.
Segundo a equipe de análise da casa de investimentos e serviços financeiros, Wedbush Securities, nos últimos cinco anos, a Uber se estabeleceu como a número um do seu setor. E não se contentou com isso. Para eles, a companhia está construindo um caminho de sucesso semelhante ao que fez a Amazon ao transformar o varejo e o comércio eletrônico, e assim como fez o Facebook ao remodelar as mídias sociais.
Os especialistas destacaram que a estratégia principal de investimento na companhia está focada na habilidade que a empresa possui em transformar a sua plataforma de mobilidade urbana em uma plataforma de consumo com produtos e serviços como o Uber Eats, Uber Freight (serviço de transporte de carga por aplicativo) e com iniciativas autônomas. Para eles, há um grande potencial de monetizar todo o seu aplicativo por meio dessas várias funcionalidades.
Eles enxergam um potencial para a companhia alcançar a cifra de US$ 5,7 trilhões com as oportunidades globais de transporte oferecidas hoje. E até de ir além e atingir o montante de US$ 7 a US$ 8 trilhões, se forem incluídos as opções de produtos e serviços que possui no setor de alimentos (Uber Eats) e de logística (Uber Freight).
Para a Avenue Securities, um dos pontos positivos é a governança corporativa definida na operação. "Aa empresa vai abrir capital com todas as ações em direito a voto. 1 ação = 1 voto, o que não costuma ser comum", destacou a corretora, em relatório.
Quais são os pontos de atenção
Há dúvidas sobre o fôlego da empresa para elevar sua receita e do impacto da concorrência nos negócios. Os analistas da D.A Davidson apontam que há alguns pontos problemáticos na companhia e que podem ser um risco para a operação. Para os analistas de lá, as maiores ameaças são o crescimento lento da receita, a incerteza sobre a rentabilidade da empresa nos próximos anos e a recente tendência de deterioração das margens. Há também os riscos relacionados à regulação da atividade no mundo.
Na opinião dos especialistas, o fato de o crescimento de receita da parte de mobilidade urbana (carros) e do Uber Eats ter desacelerado de forma drástica acendeu um alerta ao mercado.
Outro ponto de atenção é que os números relacionados a receita não levam em consideração as promoções feitas pelo aplicativo (tanto para motoristas quanto para passageiros), o que pode fazer com as perdas sejam ainda maiores, segundo o estrategista-chefe da Avenue Securities, William Alves.
Para os analistas da Wedbush Securities, as regulações da indústria de compartilhamento de carros ficou mais restrita e fez com que o percentual que a Uber recebesse sob o valor total das corridas ficasse menor, o que pode ser prejudicial para a companhia.
No caso do Brasil, por exemplo, a Uber paga tributos tanto federais como PIS, Cofins e Imposto de Renda, quanto municipais, como o ISS e outros tipos de contribuições.
A concorrência também pode atrapalhar. Para os analistas, a Lyft (principal rival da Uber nos Estados Unidos) seria capaz de atrair mais motoristas e passageiros porque possui uma capacidade maior de reter uma parte do montante obtido com transações realizadas pelo app (take rate).
E quanto maior for essa taxa, maior é o valor que as empresas vão acrescentar aos seus cofres, o que também é positivo para os investidores. O problema é que, no caso da Uber, essa taxa foi de 22,6% em 2018 e deve continuar caindo.
25% da receita em 5 cidades
Em sua análise, Alves também diz que um quarto da receita da Uber está concentrada em cinco cidades: São Paulo, Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Londres, apesar de ela operar em 63 países.
"O Brasil é o maior mercado do aplicativo fora dos Estados Unidos e São Paulo é a cidade com maior demanda mundial, porém quem puxa o crescimento no país são as cidades menores e áreas metropolitanas", afirma o estrategista-chefe.
Logo, para ele, ainda que a indústria de compartilhamento de "viagens" esteja crescendo e seja bastante competitiva, isso pode não se traduzir necessariamente em lucro para os acionistas, a exemplo do que ocorreu com o setor de aviação.
Afinal, agora é a hora?
Mesmo após tal análise, é difícil cravar a entrada ou não no IPO da Uber. Assim como ocorreu depois da abertura de capital da rival Lyft, a ação deve passar por períodos de grande volatilidade. Por exemplo, desde a abertura de capital em março até o fechamento de ontem (9), os papéis da concorrente da Uber nos Estados Unidos tiveram desvalorização de 18,18%. E, especialmente no primeiro dia, a cotação do papel pode variar bastante, já que há grande expectativa do mercado com relação à empresa.
Quando se compra uma empresa de tecnologia e que ainda não tem números positivos o investidor faz uma aposta de longo prazo. Não é, portanto, um investimento recomendável para quem tem pressa para ver o dinheiro de volta, mas sim para aqueles que realmente acreditam no potencial dos negócios da Uber.
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