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O Ibovespa até terminou a sessão desta segunda-feira em leve baixa, sem conseguir defender os 105 mil pontos. Mas, no saldo do mês, o índice conseguiu ganhar terreno
Seria razoável pressupor que o mês de setembro seria negativo para o Ibovespa. Afinal, o noticiário externo esteve longe de ser favorável para os mercados globais: a guerra comercial se aprofundou, o petróleo enfrentou uma crise e o presidente dos EUA, Donald Trump, teve que lidar com a abertura de um pedido de impeachment.
No entanto, o principal índice da bolsa brasileira não se deixou abalar por todos esses focos de tensão. Nesta segunda-feira (30), o Ibovespa até fechou em leve baixa de 0,32%, aos 104.745,32 pontos, mas, no mês, acumulou ganho de 3,57% — e, ao longo do terceiro trimestre de 2019, a alta chegou a 3,74%.
Assim, o mercado doméstico teve um desempenho superior aos índices americanos: o Dow Jones subiu 0,36% hoje, aos 26.916,83 pontos, acumulando ganho de 1,94% no mês; o S&P 500 avançou 0,50% nesta segunda-feira, aos 2.976,73 pontos (+1,72% em setembro); o Nasdaq teve ganho de 0,75% hoje, aos 7.999,34 pontos (+0,45% no mês).
Para entender essa diferença entre o Ibovespa e as bolsas de Nova York, é preciso olhar para o cenário doméstico. Por aqui, a taxa Selic foi cortada em mais 0,5 ponto, renovando o piso histórico, a 5,5% ao ano. Além disso, os dados referentes à economia brasileira mostraram uma ligeira recuperação na atividade local, alimentando o otimismo dos agentes financeiros.
Por fim, o cenário em Brasília até trouxe alguma turbulência ao Ibovespa — a tramitação da reforma da Previdência no Senado, etapa que era vista como protocolar, tem se mostrado mais difícil que o imaginado —, mas, em linhas gerais, não gerou impactos mais fortes ao índice.
E não é que os fatores de instabilidade vistos no exterior não foram sentidos por aqui. Altas na aversão ao risco no exterior fizeram os agentes financeiros locais adotarem uma postura mais cautelosa em diversos pontos do mês, mas os fatores mais positivos vistos aqui dentro se sobrepuseram à tensão lá fora.
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O mês começou bastante tenso para os mercados globais: logo no primeiro dia, o governo americano colocou em prática novas sobretaxas sobre importações de produtos vindos da China — uma medida semelhante também foi adotada pelo governo chinês.
Parte do mercado apostava que tanto Washington quanto Pequim recuariam no fim de agosto, postergando ou cancelando essa nova rodada de elevações tarifárias. No entanto, não houve suavização do discurso — e a efetivação de mais medidas protecionistas trouxe preocupação aos agentes financeiros.
Com o acirramento da disputa, também cresceu o temor de que a economia global passasse a sofrer com uma desaceleração ainda mais intensa. Dados econômicos da Europa já mostravam que a atividade no velho continente estava estagnada; na China, diversos números sugeriam uma perda de tração.
No entanto, após uma piora mais significativa no início do mês, a guerra comercial atravessou uma onda de alívio. Ao longo de setembro, autoridades dos Estados Unidos e da China deram sinais de que estariam dispostos a negociar e interromper a espiral ascendente de tensões.
Assim, pequenas concessões de ambos os lados — uma isenção, por parte dos EUA, de determinados items chineses da lista de incidência de sobretaxas, e um acerto, por parte da China, para compra de produtos agrícolas americanos —, somados à retomada dos diálogos trouxeram algum alívio aos mercados.
E o mês terminou com uma nota positiva no front da guerra comercial: autoridades de primeiro escalão dos dois países irão se encontrar em Washington a partir de 10 de outubro, numa nova rodada formal de negociações. E embora não haja a expectativa de fechamento de um acerto definitivo, a aproximação entre as potências é bem vista.
Outro foco de tensão veio do Oriente Médio, mais especificamente da Arábia Saudita: rebeldes do Iêmen promoveram uma taque com drones às refinarias da Saudi Aramco, causando danos extensos às instalações da empresa e comprometendo a produção de petróleo do país.
Esse acontecimento provocou enorme reação dos mercados sob dois aspectos: em primeiro lugar, os preços da commodity dispararam, uma vez que a Arábia Saudita é o principal produtor global de petróleo. Em segundo, possíveis instabilidades geopolíticas no Oriente Médio aumentaram a cautela dos investidores.
Por mais que os rebeldes do Iêmen tenham assumido a autoria, a Arábia Saudita e os Estados Unidos acusaram o Irã de estar por trás das ações. Assim, nos dias seguintes aos ataques, duas dúvidas permaneceram no ar: quando os sauditas conseguiriam retomar a produção e como o cenário geopolítico se desenrolaria.
O primeiro questionamento foi respondido rapidamente: o governo saudita conseguiu restabelecer o fornecimento da commodity em pouco tempo, o que contribuiu para acalmar o mercado do petróleo. O segundo segue no ar: Irã e Estados Unidos continuam trocando farpas, embora não tenham entrado em conflito.
Por fim, um terceiro eixo de preocupação externa veio dos Estados Unidos: na semana passada, a presidente da Câmara do país, Nancy Pelosi, deu abertura a um pedido de impeachment contra Trump, baseada em supostas pressões exercidas pelo chefe da Casa Branca contra o presidente da Ucrânia.
A trama é bastante complexa. Em resumo: Trump teria pedido para o líder ucraniano investigar as atividades do filho do senador democrata Joe Biden no país, de modo a supostamente gerar um noticiário negativo a respeito do ex-vice-presidente — um potencial concorrente do republicano nas eleições de 2020.
Por mais que seja improvável que esse pedido consiga progredir no Congresso americano — o partido republicano tem maioria no Senado —, a notícia traz enorme instabilidade ao cenário político dos Estados Unidos. Trump se defendeu das acusações e divulgou a transcrição do telefonema com o presidente da Ucrânia, afirmando que o contato não teve nada demais.
De qualquer maneira, o risco político americano entrou de vez no radar dos mercados em setembro — mais um, num cenário já bastante tumultuado lá fora.
Dito tudo isso, um fator doméstico e externo trouxe proteção às bolsas globais em setembro: os cortes de juros e outros alívios de política monetária pelos principais bancos centrais do mundo.
No Brasil, o BC cortou a Selic em 0,5 ponto e deu a entender que novos ajustes negativos serão colocados em prática até o fim do ano; na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou o início de um programa de recompra de ativos, de modo a estimular a atividade na região.
E, nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) reduziu a taxa de juros em 0,25 ponto. O BC americano, contudo, não se comprometeu com novos cortes no futuro, o que trouxe alguma frustração aos agentes financeiros globais. De qualquer maneira, o Fed acompanhou a tendência global e tratou de estimular a economia americana.
Essa 'ação coordenada' dos BCs tem um objetivo claro: evitar que a economia global perca ainda mais força — e se antecipar aos potenciais impactos negativos gerados pela guerra comercial entre EUA e China. Assim, o cumprimento das expectativas do mercado serviu para dar ânimo às bolsas em setmebro, inclusive o Ibovespa.
Por aqui, o índice também foi protegido pela calmaria no front doméstico: os mais recentes dados econômicos mostraram que a atividade local começa a ganhar tração, e o noticiário político não trouxe maiores preocupações ao longo do mês.
No entanto, o cenário em Brasília estará no centro das atenções neste início de outubro: caso a tramitação da reforma da Previdência pelo Senado sofra com novos atrasos, os mercados tendem a reagir de maneira bastante negativa, temendo que as recentes tensões entre governo e Congresso coloquem em risco a aprovação das novas regras da aposentadoria.
Mas, caso o texto consiga avançar, é de se esperar que o mercado mostre ânimo, o que poderia levar o Ibovespa às máximas — vale lembrar que o índice está perto do topo histórico, marcado em 10 de julho, aos 105.817,06 pontos.
O mercado de câmbio também teve um mês relativamente tranquilo: o dólar à vista ficou estável nesta sexta-feira, aos R$ 4,1552, o que implica num ligeiro ganho de 0,31% em setembro. No trimestre, contudo, a moeda americana disparou — nos últimos três meses, a alta acumulada foi de 7,33%.
Como pano de fundo para esse movimento do dólar em relação ao real, aparece a questão do diferencial de juros. Como o BC cortou a Selic em 0,50 ponto e o Fed promoveu um ajuste de apenas 0,25 ponto, a distância entre as taxas diminuiu — e, em julho, um movimento igual já havia acontecido.
Assim, os investidores estrangeiros que alocavam recursos no Brasil, de olho no rendimento atrativo da alta taxa de juros local, agora têm menos estímulo para fazer essa operação. Nesse cenário, há um fluxo menor de dólares para o país — e, assim, a moeda americana ganha força.
Considerando tudo isso, não é de se espantar que o dólar à vista esteja acima dos R$ 4,00 desde 16 de agosto. Para muitos especialistas, esse nível já aparece como um novo piso para a moeda americana.
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