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As incertezas no front da guerra comercial levaram o dólar a subir mais de 1% no meio da tarde. Mas uma operação do Banco Central trouxe alívio à moeda americana
As moedas emergentes vêm sendo cozinhadas em fogo baixo nas últimas semanas. Com o acirramento da guerra comercial, os mercados mostram-se cada vez mais receosos quanto aos possíveis impactos das disputas entre EUA e China para a economia mundial — e, em meio às preocupações, a ordem é correr para a segurança do dólar.
Afinal, os agentes financeiros não gostam de trabalhar com um cenário incerto no curto prazo: sem saber exatamente o que poderá ocorrer entre americanos e chineses, é melhor reduzir a exposição ao risco. E, no mercado de câmbio, essa lógica implica na diminuição das posições em ativos mais arriscados, como as divisas emergentes.
Nesse contexto, moedas como o peso mexicano, o rublo russo, o rand sul-africano e o real têm perdido força em bloco. Nas últimas semanas, o mercado têm optado por fugir dessas moedas com um perfil mais arriscado, preferindo opções mais estáveis, como o dólar e o iene.
E, nesta terça-feira (26), esse processo teve continuidade: desde o início do dia, as moedas emergentes se desvalorizavam em relação ao dólar — e o real fazia parte desse movimento. Só que, por aqui, o cozimento ocorreu num ritmo mais rápido.
Além do fogo das questões externas, o mercado de câmbio local também teve que lidar com os focos de preocupação gerados pelo noticiário local. Foi como se a receita brasileira estivesse sendo preparada numa panela de pressão — e a válvula da tampa estava entupida.
Quem tem o mínimo de familiaridade com a cozinha sabe que essa é uma situação perigosa: a escalada rápida na pressão dentro da panela pode causar acidentes graves. E, ciente disso, o Banco Central (BC) resolveu agir.
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Ao ver o dólar chegar a subir 1,32% na máxima, aos R$ 4,1943, a autoridade monetária promoveu um leilão surpresa no mercado à vista. A iniciativa surtiu efeito imediato: a panela despressurizou e o dólar voltou à estabilidade quase que instantaneamente.
Ao fim do dia, a moeda americana acabou fechando em alta de 0,43%, aos R$ 4,1575 — o maior nível de encerramento desde 14 de setembro do ano passado (R$ 4,1649). Ainda assim, perto da forte pressão vista mais cedo, o prato final do câmbio não ficou de todo ruim.
Em linhas gerais, os mercados continuaram cautelosos em relação às disputas comerciais entre EUA e China. Por mais que a relação entre as potências não tenha piorado desde o fim de semana — o presidente americano, Donald Trump, assumiu um tom mais moderado —, a situação ainda inspira cuidado por parte dos agentes financeiros.
E, por mais que o noticiário local também traga preocupação aos mercados domésticos, a nebulosidade no front global foi apontada por analistas e operadores como o principal fator de influência para as negociações nesta terça-feira — especialmente para o câmbio.
Durante a manhã, o dólar à vista era amplamente pressionado pelo contexto externo: sem ter certeza quanto ao que poderá ocorrer no front da guerra comercial — e os possíveis impactos das disputas entre americanos e chineses —, o mercado optou por assumir uma postura defensiva.
"Por mais que o Trump tenha tentado colocar panos quentes na guerra comercial, os indicadores econômicos mostram que estamos nos aproximando de uma recessão global", diz Jefferson Luiz Rugik, diretor de câmbio da Correparti. "O mercado acabou correndo para a proteção".
Rugik ainda destaca que, mais cedo, ocorreu novamente a inversão da curva de juros nos Estados Unidos — os títulos de dois anos voltaram a apresentar rendimentos maiores que os de 10 anos, fenômeno que é apontado como um indício de que o mercado prevê uma recessão econômica no curto prazo.
Internamente, a crise na Amazônia e os atritos entre o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e da França, Emmanuel Macron, também trazem desconforto aos agentes financeiros. "Ele [Bolsonaro] não precisava falar da forma como falou. Isso só traz preocupação ao investidor e afasta recursos do país", disse um operador.
Por fim, o fato de a Polícia Federal ter atribuído ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, os crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa dois em investigações da Operação Lava Jato que envolvem a Odebrecht também é apontado como fator extra de preocupação.
"O Maia é a pessoa que esteve à frente da reforma da Previdência e que estará no comando das demais reformas que o país necessita. Esse noticiário também aumenta a preocupação do mercado", diz o operador, sem ser identificado.
Considerando todos esses pontos de pressão, o dólar à vista chegou a tocar o nível de R$ 4,19 no início da tarde. E foi nesse momento que o BC resolveu entrar em cena — e usou um dispositivo que não era colocado em ação desde fevereiro de 2009.
A autoridade monetária fez uma atuação surpresa no mercado à vista de dólar, vendendo moeda a R$ 4,1250. Até então, o BC vinha fazendo apenas operações programadas, trocando vencimento de swaps cambiais por dólar à vista, em transações previamente comunicadas e com volume máximo de US$ 550 milhões.
O leilão surpresa foi feito às 13h20 — o volume total deve ser conhecido apenas em uma semana. E se a intenção do BC era trazer alívio ao dólar à vista, ele foi bem sucedido. Logo após a atuação, o dólar devolveu os ganhos acumulados ao longo do dia e chegou a mergulhar momentaneamente ao campo negativo.
"É uma estratégia que acalmou o mercado, e vale lembrar que o BC pode voltar a fazer operações assim a qualquer momento, sem aviso prévio", destaca Rugik, ponderando que, por mais que o volume total não seja imediatamente conhecido, o fato de o BC ter atuado é suficiente para trazer tranquilidade aos agentes financeiros.
Apesar de o dólar à vista ter se afastado das máximas, a moeda ainda terminou a sessão no campo positivo. E isso porque, após a redução da pressão na panela pelo BC, o real voltou ao ritmo de cozimento das demais emergentes — e, em meio à cautela no exterior, essas divisas perderam força ante o dólar.
No mercado acionário, o Ibovespa começou o dia em alta firme, dando sinais de que conseguiria recuperar boa parte das perdas vistas recentemente. O principal índice da bolsa brasileira chegou a subir 1,58% mais cedo, batendo os 97.950,98 pontos na máxima.
Esse movimento de recuperação visto nas primeiras horas de pregão era sustentado pelo humor mais ameno exterior: lá fora, as bolsas americanas abriram em alta, sem sofrer impactos mais expressivos das preocupações em relação à guerra comercial.
Só que, conforme a manhã foi avançando, a onda de cautela que já dominava o câmbio também começou a se alastrar para as bolsas. Os índices americanos perderam força e viraram para o campo negativo, enquanto o Ibovespa reduziu os ganhos e se aproximou da estabilidade.
No início da tarde, o principal índice da bolsa brasileira chegou a cair 0,60%, aos 95.855,98 pontos. Mas, com os ânimos mais calmos no dólar após a atuação do BC, o Ibovespa conseguiu voltar ao terreno positivo, fechando em alta de 0,88%, aos 97.276,19 pontos.
Já as bolsas americanas continuaram em queda: o Dow Jones terminou em baixa de 0,47%, o S&P 500 recuou 0,32% e o Nasdaq caiu 0,34%.
As curvas de juros repetem o movimento da sessão passada e fecharam em alta. Os DIs, no entanto, se afastaram das máximas, acompanhando o alívio visto no dólar à vista após a atuação do BC.
Na ponta curta, as curvas com vencimento em janeiro de 2021 subiram de 5,50% para 5,58%; na longa, os DIs para janeiro de 2023 avançaram de 6,59% para 6,66%, e os com vencimento em janeiro de 2025 fecharam em alta de 7,06% para 7,14%.
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