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2019-04-04T13:46:52-03:00
Olivia Bulla
Olivia Bulla
Olívia Bulla é jornalista, formada pela PUC Minas, e especialista em mercado financeiro e Economia, com mais de 10 anos de experiência e longa passagem pela Agência Estado/Broadcast. É mestre em Comunicação pela ECA-USP e tem conhecimento avançado em mandarim (chinês simplificado).
A Bula do Mercado

Mercado tenta acalmar os nervos

7 de janeiro de 2019
5:37 - atualizado às 13:46
mercadoacalmar
Fala do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e estímulo monetário na China animam os mercados -

A primeira semana cheia de 2019 começa com muitas expectativas no mercado financeiro, que ainda não sabe exatamente o que esperar para o ano novo, mas tenta acalmar os nervos, buscando se amparar no noticiário recente. Os dados fortes sobre o emprego nos Estados Unidos (payroll) ao final de 2018 mostram que, talvez, sejam necessários ajustes na taxa de juros norte-americana, o que tende a reduzir ainda mais a liquidez global.

Mas o tom suave (“dovish”) na fala do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, mantém dúvidas em relação a novas altas neste ano. Se por um lado o Fed tem destacado o mercado de trabalho saudável nos EUA como uma razão para continuar apertando a política monetária; por outro, o Banco Central norte-americano ressalta que não irá hesitar em mudar a estratégia, ouvindo atentamente” ao mercado financeiro.

Seja como for, os dados do payroll parecem zombar do recente temor dos investidores quanto à possibilidade de uma recessão nos EUA à frente. A criação de mais de 100 mil vagas acima do esperado em dezembro e o aumento da taxa de desemprego porque mais pessoas estão procurando trabalho indicam que economia norte-americana segue robusta.

Com isso, a desaceleração da atividade global parece ser ex-EUA, com sinais mais firmes de perda de tração na China e na zona do euro. Até por isso, trouxe certo alento a decisão do BC chinês (PBoC) ao final da semana passada de reduzir o compulsório bancário. Porém, ninguém se iludiu, pois a medida visa mais suavizar o aperto de liquidez às vésperas do Ano Novo Lunar do que estimular a economia.

Ainda assim, o mercado internacional iniciou a segunda-feira no positivo, ainda ecoando o tom suave na fala de Powell e os estímulos monetários na China. Juntos, esses fatores renovam o apetite por ativos de risco. Com isso, houve ganhos na sessão asiática - onde Tóquio liderou a alta (+2,4%), mas Xangai e Hong Kong subiram ao redor de 0,7%, cada. Os índices futuros das bolsas de Nova York também estão no positivo, sinalizando que o rali da última sexta-feira pode se estender para hoje, o que embala a abertura do pregão europeu nesta manhã.

Nos demais mercados, o dólar perde terreno para as moedas rivais e de países emergentes, após a fala de Powell minar a demanda pela moeda norte-americana. Esse comportamento do dólar favorece uma recuperação das commodities, com o petróleo tipo WTI se aproximando da faixa de US$ 50, em alta de mais de 1%. Já o juro projetado pelo título norte-americano de 10 anos (T-note) está estável em 2,67%, com os investidores monitorando as negociações entre EUA e China sobre o comércio.

É a política!

Diante de tantas dúvidas, é o noticiário político que tende a definir o rumo dos ativos, com os investidores tentando encontrar uma saída da forte volatilidade recente, cientes de que o movimento no curto prazo pode ser apenas uma oportunidade para comprar “pechinchas”. Por isso, os o mercado financeiro internacional acompanha atentamente a visita da delegação dos EUA a Pequim, hoje e amanhã, para tratar da questão comercial.

A expectativa é por sinais de desfecho da disputa, após a trégua de 90 dias assinada entre os líderes dos dois países, durante o encontro do G-20, ao final de novembro. Se houver o fim da sobretaxa de produtos chineses importados aos EUA, com interrupção das retaliações por parte da China, os investidores podem respirar mais aliviados sobre o ritmo da economia global.

No entanto, o embate ganha cada vez mais contornos de que o objetivo final de Washington é impedir o progresso chinês rumo a uma superpotência global, desafiando o atual status da Casa Branca. Já Pequim invocou o mantra maoísta de “autossuficiência” para mostrar que está preparado para um conflito mais longo.

Dessa forma, por mais que hajam avanços nas conversações entre os dois países, capazes de aliviar parte da tensão no mercado financeiro, os efeitos nos resultados das empresas, no desempenho da atividade e nos preços aos consumidores são imediatos. Tudo isso, tende a manter os negócios voláteis.

Ainda mais diante do combate político entre a Casa Branca e a Câmara dos Representantes, agora sob o controle dos democratas. O presidente Donald Trump diz que não vai assinar um projeto de lei para interromper a paralisação do governo (shutdown), enquanto não tiver a verba para a construção de um muro na fronteira com o México.

Mas a presidente da Casa, Nancy Pelosi, está confiante de que os democratas não podem perder essa batalha. Mas o republicano tampouco está disposto a recuar, prolongando o shutdown por tempo indeterminado. Trump sabe que, se ceder agora, será o fim do seu mandato, cerca de dois anos antes do prazo.

Aliás, o que está mesmo em jogo é as eleições nos EUA, em 2020. Até lá, pode crescer a pressão que Trump já enfrenta nas investigações da campanha de 2016, envolvendo seus negócios e sua família. Isso pode levar republicanos a se distanciarem do presidente, diminuindo o tamanho da base política. Ao mesmo tempo, devem surgir nomes de democratas para disputar a presidência no ano que vem.

Enquanto isso, por aqui...

No Brasil, depois do ruído na primeira entrevista do novo presidente, Jair Bolsonaro, sobre a reforma da Previdência e medidas tributárias, o mercado brasileiro ainda dá o benefício da dúvida ao governo recém-empossado e ignora os mal-entendidos. Por ora, avalia-se, é natural que haja uma “curva de aprendizado”.

Mais que isso, os negócios locais mantém o voto de confiança na equipe econômica e acompanham esclarecimentos sobre os temas. Por mais que haja a percepção de que Bolsonaro está “batendo cabeça” com o ministro da Economia, Paulo Guedes, o entendimento é de que é importante dar mais de tempo para que o “time dos sonhos” comece a trabalhar - e ver quais decisões, polêmicas ou não, devem ser tomadas.

O mercado financeiro avalia que é preciso verificar se a fala de Bolsonaro está alinhada às propostas da equipe econômica e parece ser mais crível do ponto de vista político, visando a aprovação das medidas. Afinal, questões como idade mínima menor para aposentadoria e mudanças em tributos (IRPF e IOF) podem ter sido colocadas em pauta e o presidente aproveitou a ocasião para externar essas possibilidades. Porém, se saiu “do nada”, a sinalização pode ser bem negativa.

Aos olhos dos investidores, o apoio do PSL à reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara reforça as chances de aprovação da agenda liberal-reformista. Ainda mais após o afago aos deputados, antecipando a verba para o auxílio-mudança. Mas os protagonistas dessa pauta só entram em cena em fevereiro...

Semana de agenda cheia

Já no front econômico, a agenda de indicadores desta semana traz como destaque dados de atividade e inflação no Brasil. Os números da produção industrial em novembro serão conhecidos amanhã e devem seguir fracos, com o setor limitando o crescimento da economia no último trimestre de 2018.

No mesmo dia, sai o resultado do IGP-DI em dezembro e no acumulado no ano passado, além do desempenho do setor automotivo (Anfavea) no mesmo período. Na quinta-feira, é a vez dos dados atualizados sobre a safra nacional de grãos. No dia seguinte, merece atenção o resultado oficial da inflação ao consumidor.

A previsão é de que o IPCA fica ao redor da estabilidade, encerrando 2018 abaixo de 4%, distante do alvo perseguido pelo Banco Central, de 4,5%. Os números tendem a reforçar que o cenário benigno dos preços não será um problema para o governo Bolsonaro, com a taxa de juros podendo ser mantida no piso histórico por mais tempo.

Aliás, o relatório Focus do BC será divulgado logo cedo (8h25) e pode trazer novas revisões, para baixo, nas expectativas do mercado financeiro para a inflação e a Selic neste ano. No front político, o presidente Bolsonaro dá posse hoje a presidentes de bancos públicos. Entre eles, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy assume o comando do BNDES. A intenção do governo é de que essas instituições ajudem a reforçar os cofres da União, vendendo empresas controladas.

Já no exterior, merece atenção hoje o índice ISM de atividade no setor de serviços dos EUA (13h) em dezembro. Mas o destaque do calendário norte-americano é a divulgação da inflação ao consumidor em dezembro (CPI), também na sexta-feira. Antes, na quarta-feira, o Fed divulga a ata da reunião de dezembro, quando frustrou a expectativa do mercado financeiro e manteve a previsão de mais dois aumentos na taxa de juros neste ano.

No dia seguinte, o presidente do Fed volta a discursar, durante um evento em Washington. Números de inflação ao consumidor e ao produtor também serão conhecidos na China, na quarta-feira. Ainda sem previsão de data, devem ser anunciados os dados de crédito e da balança comercial chinesa ao longo da semana.

Na Europa, merece atenção a retomada da discussão do chamado Brexit pelo Parlamento britânico, a partir de quarta-feira. O prazo final para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) está previsto para 29 de março, mas se a primeira-ministra, Theresa May, ganhar apoio político, ela poderá pedir mais tempo. Nesse caso, o Reino Unido pode até convocar um segundo referendo, cancelando o Brexit. Para May, se isso acontecer, o Reino Unido entrará em um “território desconhecido” e é fundamental conquistar o apoio da maioria parlamentar para a votação que acontece na terceira semana deste mês.

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