Mercado com os nervos à flor da pele
Investidores alternam altas e baixas nos negócios, sem saber se a economia global está em apuros ou se turbulência neste mês é passageira

A semana chega ao fim com o mercado financeiro trocando a recente volatilidade por uma dose extra de cautela. Os investidores ainda avaliam o que mais é necessário para aferir se a economia global está realmente em apuros ou se a turbulência nesta primeira metade de agosto vai ser passageira.
Por ora, a tempestade perfeita ainda não chegou, apesar de nuvens carregadas no horizonte. Os dados sobre atividade e emprego nos Estados Unidos ontem dissiparam o temor de recessão no país, mostrando que o consumo segue forte e o mercado de trabalho, aquecido, o que pode impedir que a fraqueza do setor industrial atrapalhe a economia.
Mas os sinais de recessão emitidos pela curva de juros norte-americana devem ser levados a sério. Tanto que bastou o rendimento (yield) do título de dez anos (T-note) cair abaixo de 1,50%, pela primeira vez desde 2016, e o juro projetado pelo papel de 30 anos (T-bond) renovar a mínima histórica, a 1,93%, ontem, para assustar novamente Wall Street.
Nesta manhã, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em alta, embalando a abertura do pregão europeu - apesar de certo atraso no início da sessão em Londres. Na Ásia, o sinal positivo prevaleceu, com os ganhos liderados por Hong Kong (+1,00%), conseguindo se recuperar das perdas no começo dos negócios.
O Banco Central chinês (PBoC) fixou a taxa de referência do yuan acima de 7 por dólar pela sétima sessão seguida. O dólar, porém, mede forças em relação às moedas rivais, atento ao comportamento da T-note, que projeta juro mais alto nesta manhã, em 1,56%. Na commodities, o petróleo sobe mais de 1%, tentando se recuperar das perdas recentes.
O misto de sentimentos nos negócios reflete, principalmente, a troca de farpas entre Estados Unidos e China em torno da guerra comercial. O lado chinês pede que Washington remova todas as tarifa adicionais - e não simplesmente atrase algumas. Já Donald Trump afirmou que tem um telefonema agendado com o presidente chinês, Xi Jinping, em breve.
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Sem saber quanto tempo irá durar mais a disputa, os investidores refazem as contas e avaliam os impactos na economia e nos lucros das empresas, sobretudo se a batalha for prolongada. Há quem diga que o mercado pode forçar Trump a fechar um acordo com Pequim, mas o presidente parece mais determinado em pressionar o Federal Reserve a seguir adiante com os cortes de juros, protegendo os EUA da desaceleração mundial.
Várias variáveis
O mercado financeiro não sabe se o nivelamento (flattening) da curva de juros ainda reflete os vários programas de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) lançados pelo Federal Reserve após a crise de 2008 ou se os yields dos títulos não estão mais sendo sustentados artificialmente, apontando mesmo para uma recessão nos EUA em 2020.
Há também a hipótese de que a curva de juros dos EUA sinaliza apenas um aumento expressivo na demanda por Treasuries, em meio à busca por segurança. Ou seja, diante de tantos eventos inesperados e do acúmulo de preocupações com o cenário econômico, qualquer movimento expressivo de alguns ativos gera perdas em larga escala em outros.
Assim, os dados fracos de atividade na China e na Europa, as incertezas na economia global causadas pela guerra comercial e a perspectiva de um Brexit sem acordo entre Reino Unido e União Europeia (UE) tendem a manter a volatilidade dos mercados elevada. Além desses fatores externos, a crise na vizinha Argentina é um fator de pressão local importante.
Apesar dos avanços na agenda econômica endereçada pelo Congresso reduzirem a vulnerabilidade dos ativos locais, a turbulência internacional deve continuar provocando solavancos no mercado doméstico. Com isso, os investidores tendem a manter elevados prêmios de risco, principalmente na Bolsa brasileira, que perdeu ontem a faixa dos 100 mil pontos pela primeira vez em dois meses, e no dólar, que voltou a perder a marca de R$ 4,00, respeitando a atuação do Banco Central.
O problema é que o rali do mercado doméstico visto desde o fim do ano passado parece ter “esticado a corda” por demais, deixando os ativos locais agirem agora como uma gangorra. Esse vaivém adiciona um pouco mais de volatilidade ao cenário já volúvel vindo do exterior, exacerbando os movimentos por aqui.
Agenda dos EUA em destaque
A agenda econômica desta sexta-feira segue fraca no Brasil, o que desloca as atenções para o calendário norte-americano. Pela manhã, saem dados sobre a construção de moradias em julho (9h30) e a leitura preliminar deste mês do índice de confiança do consumidor norte-americano (11h). Logo cedo, merecem atenção os dados da balança comercial na zona do euro em junho.
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