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Decisão de Trump de elevar tarifa de importação sobre produtos chineses reacende a tensão comercial e provoca aversão ao risco no mercado financeiro
A semana chega ao fim com as atenções do mercado financeiro voltadas para os dados de emprego nos Estados Unidos (payroll) em julho, às 9h30, passados os eventos envolvendo os bancos centrais. Mas o foco dos investidores está na guerra comercial que Donald Trump trava contra a China e que tem levado a economia global a uma forte desaceleração, resgatando a aversão ao risco nos negócios.
As principais bolsas asiáticas afundaram na sessão desta sexta-feira, diante da escalada da tensão comercial entre as duas maiores economias do mundo. Hong Kong liderou as perdas, com -2,5%, seguido de perto por Tóquio (-2,1%). Xangai ficou um pouco atrás, com -1,4%. Já o petróleo se recuperou durante a madrugada, enquanto o dólar perde força.
Na Europa, as bolsas abriram com fortes perdas, refletindo a decisão do presidente norte-americano, de elevar para 10% a tarifa sobre US$ 300 bilhões em importações chinesas a partir de setembro, na maior ameaça até agora de Trump, que também pode atacar o Velho Continente. Em Nova York, os índices futuros amanheceram no vermelho e esse desempenho negativo lá fora pode contaminar a sessão local.
Afinal, Wall Street está preocupado com o impacto econômico da mais recente rodada de tarifas sobre bens chineses importados aos EUA, já que, desta vez, deve atingir mais diretamente o consumidor norte-americano. Afinal, a longa lista inclui produtos como smartphones, laptops e roupas infantis, sendo que o novo imposto pode ir “além” de 25%, segundo Trump.
O fato é que não foi mera coincidência o anúncio de Trump ter sido feito menos de 24 horas após a polêmica decisão do Federal Reserve sobre os juros. Muitos perceberam que, já que o Fed atrelou o corte nos Fed Funds à guerra comercial, faz sentido os EUA elevarem a tensão na disputa com a China, de modo a obter novas quedas na taxa norte-americana.
Fica, portanto, a dúvida se Trump teria feito tal anúncio de taxação extra sobre os produtos chineses que ainda não estavam sujeitos a impostos, caso o presidente do Fed, Jerome Powell, tivesse conduzido a entrevista coletiva de modo diferente. O chefe da Casa Branca mostrou-se decepcionado com a autoridade monetária e gostaria de ver o início de um ciclo de cortes nos juros dos EUA e não um “ajuste de meio de ciclo”.
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Ao mesmo tempo, Trump escancara sua estratégia de governo e mostra que a condução mais frouxa (“dovish”) da política monetária por parte do Fed é condição sine qua non para o enfrentamento dos EUA contra a China na questão do comércio, de modo a amortizar os potenciais riscos à economia norte-americana que o conflito prolongado pode causar. Assim, se o Fed afrouxar a postura, a retórica protecionista fica endossada.
Em meio a esse dilema, Trump tenta se manter no páreo, com vistas às eleições presidenciais em 2020, atuando em duas frentes. De um lado, pressiona o Fed para amenizar o estrago da guerra comercial na atividade doméstica. De outro, dificulta a tentativa da China de desbancar a economia dos EUA em 2049, quando a Revolução Comunista completa 100 anos.
Seja como for, a nova rodada de tarifas adicionais não tende a aproximar os dois países de um acordo - ainda mais nos moldes que Washington deseja. Ao contrário, a sobretaxa em todas as exportações chinesas aos EUA tendem a tornar um pacto mais distante, levando Pequim a se concentrar mais no enfrentamento de uma prolongada guerra comercial do que na tentativa de suavização da escala do conflito. Assim, cresce a chance de retaliação.
Mas essa pressão política da Casa Branca no Federal Reserve, arranhando a credibilidade e independência do mais importante Banco Central do mundo, não parece ser exclusividade. Também soou estranho o pedido do diretor de política econômica do BC brasileiro, Carlos Viana, de deixar o cargo, por motivos pessoais, um dia após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de renovar o piso histórico da Selic.
No lugar de Viana, foi indicado Fábio Kanczuk, ex-secretário de política econômica entre 2016 e 2018 e Ph.D. em Economia pela Universidade da Califórnia, onde o presidente do BC, Roberto Campos Neto, estudou. A apresentação do Relatório de Inflação referente ao terceiro trimestre, no fim de setembro, será o último compromisso de Viana à frente da autoridade monetária.
Há quem diga que houve interferência externa na decisão do Copom ontem, quando encerrou um longo período de 16 meses de estabilidade do juro básico e sinalizou um novo ciclo de quedas, iniciando o processo com uma dose maior, de 0,50 ponto. A pressão teria vindo do ministro Paulo Guedes (Economia), diante dos sinais cada vez mais firmes de que a economia brasileira voltará a entrar em recessão técnica na primeira metade deste ano.
Além disso, também deve ter havido uma pressão adicional por parte dos grandes bancos, que vêm perdendo margem, em meio ao surgimento de vários produtos financeiros lançados por empresas que entraram de vez nas plataformas digitais e ao apoio do BC às fintechs, que oferecem crédito mais barato. Agora, com uma Selic menor, as instituições tradicionais se financiam a custo mais baixo e emprestam a taxas ainda elevadas.
Em meio a tantas polêmicas envolvendo os BCs, os investidores tentam ajustar o foco na agenda econômica do dia. O destaque fica com o payroll, que deve mostrar a criação de 170 mil vagas em julho, com a taxa de desemprego caindo a 3,6%. Em junho, foram abertos 224 mil postos de trabalho nos EUA.
Já os ganhos por hora devem manter o ritmo de alta, nas duas bases de comparação, ainda sem apontar perda de força nos rendimentos. É bom lembrar que um dado fraco sobre a geração de emprego nos EUA, acompanhando da ausência de pressão inflacionária vinda do reajuste dos salários, tende a elevar a pressão no Fed por mais cortes nos juros.
No mesmo horário do payroll (9h30), sai o resultado da balança comercial norte-americana em junho, que tende a elevar a discussão sobre a guerra comercial com a China. Depois, às 11h, é a vez das encomendas às fábricas nos EUA em junho e da leitura final de julho da confiança do consumidor no país.
Na Europa, logo cedo, serão conhecidos os dados de junho sobre as vendas no varejo e sobre a inflação no atacado (IPP). No Brasil, nenhum indicador está previsto, o que deixa o mercado doméstico mais refém do ambiente internacional, em meio à ausência de notícias no front político.
Os investidores também devem repercutir o balanço recorde da Petrobras, que registrou lucro líquido de R$ 18,9 bilhões no segundo trimestre. O resultado reflete, em grande parte, a conclusão da venda da subsidiária TAG, que opera gasodutos do Norte e Nordeste. Excluídos fatores extraordinários, o lucro contábil da petrolífera foi de R$ 5,2 bilhões.
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