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Para Artur Wichmann, avanços tecnológicos marcam um novo paradigma, capaz de postergar pressões inflacionárias e mudar o seu jeito de investir
Ele é os olhos para fora do Verde, o mais famoso multimercados brasileiro. E está na contramão das preocupações com o fim de um ciclo positivo para a economia americana. Para Artur Wichmann, uma expansão não morre de velha: são necessários problemas, como excesso de alavancagem, de forma geral ausentes hoje no país.
Alheio às quedas recentes e apegado aos fundamentos, Wichmann mantém uma seleção de ações listadas na bolsa americana no portfólio, de olho no longo prazo: "A gente não acredita que vai haver uma queda muito clara de geração de caixa das empresas norte-americanas", disse para mim em uma conversa exclusiva no escritório da Verde em São Paulo.
Enquanto o mercado chora as pitangas sobre o fim da mamata de uma bolsa que por um longo período só subia, a equipe da Verde tem aumentado sua exposição ao mercado acionário americano. Foi o que reportou na carta recém-divulgada, em que admite legitimidade de algumas preocupações com crescimento, com destaque para China, porém considera que os preços de ações, especialmente nos Estados Unidos, estão baratos: "aumentar exposição após correções como a que vimos no último trimestre do ano, historicamente, tem excelente relação de retorno para o risco".
Confira os principais pontos desse bate-papo com o economista, que além da Verde e da CSHG, construiu carreira no Banco Icatu, no Pactual e no UBS, passando por Rio de Janeiro, Zurique e Toronto.
O conceito de ciclo é algo que as pessoas aplicam muito aos Estados Unidos, porque eles seguiram padrões históricos ao longo do tempo e foram um dos poucos capazes de fazer isso. A economia europeia, por exemplo, passou por vários ciclos, mas com duas guerras mundiais no meio. Então qual é o tamanho de um ciclo? As pessoas costumam dizer que o ciclo médio de expansão econômico norte-americano dura entre 10 e 11 anos, a depender de como são feitas as medições.
Isso. As pessoas comentam que a expansão mais longa americana foi de 10 ou 11 anos e que esta já virou a mais longa da história. Em que ponto a gente não concorda com esse argumento?
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Não existe nada em uma expansão econômica que a date. Uma expansão econômica não deveria ter uma idade.
Como normalmente acontece uma expansão? À medida que você vai crescendo, reforça o animal spirits [espírito empreendedor]. Em algum momento isso vira uma euforia, que vira excesso de investimento, excesso de alavancagem... Esse desequilíbrio se transforma em uma pressão inflacionária, que tem que ser combatida pelos bancos centrais. Ou esse desequilíbrio encontra algum choque externo e aí você cai em uma recessão.
Ou seja, duas coisas causam normalmente uma contração: um choque externo grande, como a crise na Ásia, na Rússia... ou um processo de alta de juros. O importante não é a duração do ciclo, é o tamanho do desequilíbrio que foi gerado. Pensa em 2008: você tinha uma bolha no mercado imobiliário. Esse era o desequilíbrio, não era o fato de a economia norte-americana já estar crescendo há X anos.
Exatamente. Sim, a gente já está crescendo há algum tempo, mas essa foi uma das recuperações mais lentas da história também. E os desequilíbrios que estavam presentes em 2008 não estão presentes agora.
(Na crise de 2008) O consumidor estava com dívida até o pescoço para comprar um ativo cujo preço estava errado, que era a casa. Isso não existe agora. O primeiro elo a arrebentar da corrente de 2008 não está presente. Qual foi a continuação desse processo? O consumidor não pagou seus empréstimos; o sistema bancário, que estava super-alavancado, começou a ter problemas de solvência... Hoje, na média, os grandes bancos nos EUA têm um terço da alavancagem que eles tinham em 2008. Então toda aquela série de eventos que gerou um efeito em cadeia não está presente.
Sim, você tem o Fed subindo juros. Mas dessa vez você tem um processo mais normal: taxa de desemprego baixa, e pelo menos por enquanto, pouca pressão inflacionária. Quando você olha os números de inflação americana, não tem uma pressão premente. Tanto que o banco central norte americano está sendo super gradual no seu processo de aumento de juros. Se te dissessem em 2008 que em uma década a taxa de desemprego norte-americana estaria abaixo de 4%, depois de a economia crescer por dez anos e perguntassem qual seria a inflação, jamais você chutaria uma inflação próxima a 2%.
Isso. Tem várias coisas que estão mudando a cara da inflação. Isso não significa que um mercado de trabalho apertado não vai gerar inflação, mas significa que tem outras coisas que compensam um pouco isso, como o avanço tecnológico.
Isso já faz com que esse ciclo seja um dos mais longos, já está presente agora. E por isso que o mercado se preocupa tanto com a perspectiva de uma guerra comercial. Porque uma parte desse ganho de produtividade vem da globalização das cadeias de produção: produzir bens e serviços onde eles podem ser produzidos de forma mais barata. Quando você reverte via barreiras, tarifárias ou não, você se pergunta: eu tenho que pensar na reversão do processo de globalização?
Por simetria, se acreditei que globalização foi um dos fatores que ajudou a inflação especialmente de bens negociáveis – de iPhones, tênis Nike e por aí vai – tenho que acreditar que a reversão do processo de globalização pode significar um choque negativo de oferta, que significa preço para cima.
Olha, não dá para dizer que teria impacto zero, certo? Acho pouco razoável... Até agora o governo norte-americano tem sido cauteloso. O grande problema é que, na guerra comercial, ninguém ganha, os dois perdem: tem quem perde mais e quem perde menos.
Tem dois livros interessantes que ajudam a entender o que pode estar acontecendo. Um é "A Arte da Negociação", escrita pelo presidente Donald Trump, que trata do processo de negociação: aquela história de que ele pede 100, mas na verdade quer 10; ele pede a lua, mas na verdade espera alcançar algo no meio do caminho.
O outro, que é muito interessante, é o "Destined for War: Can America and China Escape Thucydide’s Trap?", de um professor de Harvard, Graham Alisson. Ele faz uma análise de processos em que você tem um líder e uma potência que está tentando subir, contestando essa liderança. É uma visão de que os EUA estão vendo a China surgir como ameaça à sua hegemonia global e ele tem que combater essa ameaça. Essa segunda interpretação gera uma visão mais preocupante de mundo. Por quê? Porque aí não tem acordo. Essa visão significa chegar para os chineses e dizer que eles não vão poder se desenvolver mais. E isso não é aceitável para a China.
Exatamente. Se for isso, o jogo é: mesmo que isso seja prejudicial para a economia americana, desde que eu atrase o crescimento do meu maior rival, esse é um custo econômico necessário para eu manter minha hegemonia geopolítica. Eu particularmente acho que o Trump está mais na arte da negociação.
Quando você olha para o atual estágio da economia norte-americana, tem alguma luz vermelha acesa? Não. Você tem alavancagem em alguns lugares: em uma parte das empresas, tem um probleminha ali no crédito educacional... Mas está claro pra mim que estamos diante de uma recessão? Não.
Acho que algumas coisas. As pessoas estão se questionando se estamos ou não perto da recessão. O mercado diz: Ok, quanto tempo mais a gente tem de crescimento? Apesar de eu discordar dessa visão do tamanho do ciclo, tem pessoas que eu respeito que acham que ele está perto do fim: tem a subida dos juros, a perspectiva de guerra comercial, o problema perpétuo estrutural da zona do euro de política monetária comum e políticas fiscais díspares...
A gente, na Verde, acredita que ao longo do tempo o mercado vai seguir a capacidade das empresas de gerar caixa. Existem descolamentos temporais? Existem. Mas na média as empresas geram caixa e são remuneradas por isso. Se você acredita que a geração de caixa das empresas americanas não será a que você esperava há algum tempo, aí você tem que ficar preocupado.
Acho que não. A gente não acredita que vai haver uma queda muito clara de geração de caixa das empresas norte-americanas. E o que as empresas disseram na última temporada de balanços é que os lucros estavam em linha ou um pouco melhor do que esperados. Mas uma parte das empresas veio com o famoso guidance: está tudo bem, mas estou vendo uma pressãozinha de custos aqui, mercado de trabalho apertado. Vários disseram que não estavam vendo nenhum efeito, mas se tivesse guerra comercial não seria bom.
Exatamente. Esse "e se acontecer alguma coisa?" tem assustado as pessoas. E também não quero minimizar. A questão de alguma pressão de custo existe em alguns setores e tem sido mencionada por algumas empresas.
Bolsa só funciona no longo prazo. Se você entra na bolsa porque precisa ganhar X% nos próximos X meses, essa não é uma cabeça da qual a gente partilha. Se você acredita ser um investidor nas empresas que são vencedoras do capitalismo global, então invista. Para a gente, existe sempre a possibilidade de selecionar empresas ganhadoras e comprá-las a um preço ou valuation razoável.
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