PicPay, Agibank e Abra querem IPO nos EUA. Por que Wall Street está mais atraente para abrir capital do que o mercado brasileiro?
Uma fila parece ter começado a se formar em direção ao mercado norte-americano. PicPay, Agibank e Abra sinalizaram planos para ofertas de ações por lá, enquanto a B3 segue em jejum de IPOs há quatro anos

Com os juros ainda elevados no Brasil, a vitrine da bolsa doméstica parece ter perdido brilho. A tradicional janela de aberturas de capital segue fechada no mercado brasileiro — e, para muitas empresas, sem prazo claro para reabrir. Mas, enquanto a B3 vive um período de ressaca, o mercado norte-americano voltou a parecer um terreno fértil para companhias brasileiras em busca de capital.
Nas últimas semanas, uma fila parece ter começado a se formar em direção a Wall Street. PicPay, Agibank e Abra — controladora da Gol — sinalizaram planos para realizar ofertas iniciais de ações (IPO) nos Estados Unidos.
A leitura de mercado é que captar lá fora ficou mais viável do que tentar emplacar uma estreia no Brasil neste momento do ciclo econômico.
O caso mais recente é o do PicPay. A fintech pode levantar até US$ 500 milhões em sua oferta e, segundo informações do Valor Econômico, já há demanda pelo papel.
Agibank e Abra também estão em estágio avançado de preparação, com bancos e assessores trabalhando nos detalhes da operação.
Segundo o Broadcast, o Agibank pretende levantar US$ 1 bilhão em um IPO nos EUA. Para isso, o banco já teria dado início a uma rodada de encontros com investidores estrangeiros e protocolado uma autorização confidencial para a oferta na SEC, a CVM norte-americana.
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Por sua vez, o Grupo Abra teria apresentado confidencialmente o registro preliminar no Formulário F-1 à SEC em novembro, ainda de acordo com o jornal.
A lista não para por aí. A CloudWalk, dona da InfinitePay, e a Wellhub (antigo Gympass) também estão cotadas para uma listagem fora do país.
Por que Wall Street ficou mais atraente para IPO que a B3
Para agentes de mercado ouvidos pelo Seu Dinheiro, hoje, o mercado norte-americano está mais atraente para empresas de maior porte — algo que o Brasil tem dificuldade em oferecer.
Um executivo diz que companhias menores ainda podem encontrar espaço para um IPO local, mas, para as grandes, o mercado brasileiro se tornou pequeno demais.
Ao estrear no exterior, as empresas acessam bolsos que normalmente não existem no Brasil. Para os especialistas, a base de investidores institucionais por aqui é limitada e, com a taxa de juros ainda elevada, o apetite por ofertas volumosas fica comprometido.
Um bom exemplo disso foi a decisão da JBS de também listar ações no exterior. Outro movimento relevante foi o do BR Partners, que adotou uma estratégia de dupla listagem, passando a negociar papéis na Nasdaq além da B3, onde havia feito seu IPO em 2021.
Por trás do apetite por Wall Street
Henrique Lara, gestor de renda variável da Reach Capital, avalia que o apetite das brasileiras por listagens no exterior está diretamente ligado à percepção de que podem obter um valuation mais alto lá fora.
“Nos mercados internacionais, há uma quantidade e qualidade de investidores muito maior e mais diversificada”, disse.
Mas o gestor acredita que há casos em que empresas listam fora e não alcançam o engajamento esperado com a base de acionistas internacional — e, como resultado, o valuation acaba sendo igual ou inferior ao que obteriam se tivessem listado no Brasil.
“Isso ocorre porque os compradores acabam sendo os próprios brasileiros que investem no exterior, mas a empresa passa a arcar com custos regulatórios muito mais elevados devido à listagem estrangeira”, acrescentou.
Já Marcelo Inoue, sócio da Perfin Equities, avalia que o Brasil deve seguir fechado, já que, por enquanto, apenas poucas empresas que apresentam planos de investimento claros e estruturais conseguirão acessar o mercado com ofertas. Já o mercado nos EUA segue pujante, e “ofertas continuarão acontecendo”.
“O mercado nos EUA é muito grande, possui muita liquidez, e não compete com juros local, como é o caso do mercado de ações brasileiro. Mas tem sido opção apenas para empresas ligadas à tecnologia ou com operações globais, como foi o caso da JBS”, disse Inoue.
Quem já cruzou a fronteira do IPO nos EUA
A última grande estreia brasileira em Wall Street foi a do Nubank, em dezembro de 2021, quando a fintech levantou cerca de US$ 2,8 bilhões.
O Banco Inter também desembarcou nos Estados Unidos em 2022, mas por meio de uma migração das ações, e não via IPO tradicional.
Antes disso, o Patria Investments abriu capital em Nova York no início de 2021, com uma oferta de US$ 625 milhões.
Em 2020, foi a vez da Vitru, do setor educacional, que tomou um caminho curioso: quatro anos depois, decidiu migrar de volta para a B3, em 2024.
Em 2019, a corretora XP Investimentos e o grupo brasileiro de educação Afya Educacional estrearam na Nasdaq. Elas levantaram US$ 2,25 bilhões e US$ 300 milhões, respectivamente.
Um ano antes, a empresa de maquininhas PagSeguro abriu capital na bolsa de valores de Nova York (Nyse), com uma oferta de US$ 2,61 bilhões em janeiro. Enquanto isso, a rival Stone captou US$ 1,5 bilhão na Nasdaq em outubro.
A longa ressaca dos IPOs no Brasil
Enquanto isso, o mercado brasileiro atravessa um jejum histórico. A B3 completa quatro anos sem novas aberturas de capital.
“Embora tenha uma quantidade grande de empresas em discussões com assessores financeiros, bancos e escritórios, a verdade é que o cenário de juros altos não ajuda a operação de renda variável. O dinheiro tende a fluir para a renda fixa, o que torna as operações de equity [ações] mais difíceis de acontecer”, disse Daniel Laudisio, sócio de TozziniFreire na área de mercado de capitais.
A expectativa de participantes do mercado é de que essa janela só volte a se abrir de forma consistente a partir de 2027, passadas as eleições e o ciclo de corte de juros.
Mas já há sinais tímidos no horizonte. A Aegea já protocolou pedido para migrar da categoria B para a categoria A, um passo necessário para viabilizar uma futura oferta de ações.
A BRK Ambiental também entrou com pedido na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para realizar um IPO.
Se avançarem, essas operações seriam as primeiras na bolsa brasileira desde setembro de 2021, quando a Vittia chegou ao pregão.
O que falta para a retomada de IPO no Brasil
Desde então, diversas empresas sondaram o mercado, mas esbarraram no mesmo obstáculo: juros altos demais para justificar uma abertura de capital.
"No Brasil, embora não ocorra um IPO relevante há algum tempo, um desfecho eleitoral considerado positivo pelo mercado pode servir como gatilho para que as diversas operações engatilhadas comecem a avançar”, avalia Henrique Lara, da Reach Capital.
Para Inoue, sócio da Perfin, ainda há espaço para a bolsa brasileira recuperar atratividade. Segundo Inoue, a queda sequencial da Selic ao longo do ano deve ajudar. Porém, a principal alavanca seria mudança de perspectiva fiscal do Brasil e a queda da curva de juros longa.
“Dependendo do resultado eleitoral e como o déficit público será endereçado, existe chance de o juro longo cair e voltar a aumentar atratividade de investimentos em ações no Brasil”, disse.
Já Laudisio, do TozziniFreire, afirma que se houver alguma oferta de ações em 2026, deve acontecer no primeiro trimestre — e até seria possível contar nos dedos se acontecesse. “Não é impossível, mas é improvável ainda neste ano.”
"O problema do IPO é que, nesse cenário, você aplica uma taxa de desconto enorme e deixa muito dinheiro na mesa. Você corre o risco de um pênalti, de vender uma fatia da companhia e nem o controlador está disposto a isso em um valuation desagradável”, disse.
“Teria que ser uma situação absolutamente excepcional, ou uma situação em que a empresa precisa de equity, está com uma alavancagem muito alta e aí pode aceitar um equity com desconto maior do que aceitar em condições normais”, acrescentou.
Outras rotas para captar recursos no Brasil
A falta de IPOs não significa ausência total de alternativas de captação. As companhias já listadas na B3 voltaram a recorrer a ofertas subsequentes (follow-ons). Em 2025, foram cerca de R$ 5 bilhões captados dessa forma. Isto é, abaixo dos R$ 25 bilhões de 2024 e dos R$ 57 bilhões registrados em 2023.
Outra saída tem sido o uso de IPOs reversos. Foi assim com a Oranje BTC, que assumiu o lugar do Cursinho Intergraus na bolsa. Antes, a Fictor Alimentos substituiu a Atom Participações, enquanto a Reag Investimentos entrou no lugar da GetNinjas.
Além disso, as empresas continuam a captar dinheiro por meio do mercado de dívidas, com robustas emissões de debêntures no Brasil.
Mas, enquanto a Selic não cede o suficiente para reabrir a porta de IPOs da B3, o recado das empresas é claro: o capital ainda existe — só parece estar, cada vez mais, do outro lado da fronteira.
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