O Fed seguiu o roteiro e manteve os juros nos EUA. Para onde olhar agora para proteger seus investimentos?
A decisão de política monetária desta quarta-feira (28) está longe de ser o clímax da temporada, que tem pela frente a substituição de Powell no comando do BC norte-americano

Se os holofotes de Hollywood estão em Wagner Moura e no Agente Secreto — indicados ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Filme —, em Washington o roteiro é muito menos dramático, mas igualmente tenso. Diferente do thriller político que conquistou a Academia, o Federal Reserve (Fed) manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
Mas não se engane: se havia spoiler para a decisão desta quarta-feira (28), o clímax da temporada está justamente no que vem a seguir. São os próximos passos do banco central norte-americano que realmente importam para os investidores.
“A decisão desta quarta já estava precificada pelo mercado. Os próximos movimentos é que serão realmente importantes. O investidor, a partir de agora, tem que olhar para as chances de haver ou não a politização do Fed”, disse Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
O plot twist que o mercado espera
Se na ficção o personagem de Wagner Moura lida com sombras e disfarces, Jerome Powell lida com dados claros, mas de interpretação difícil — são os sinais do Fed sobre o que pode acontecer daqui para frente que dão o tom da trama.
O primeiro deles veio da própria decisão, que não foi unânime. Stephen Miran e Christopher Waller defenderam um novo corte de 25 pontos-base (pb) nesta quarta-feira (28).
Para a Capital Economics, a decisão de Waller de votar por uma redução da taxa agora alimenta especulações sobre uma possível tentativa de se credenciar para a presidência do Fed. Powell deixa o comando do BC dos EUA em maio.
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A consultoria britânica destaca ainda que Miran, indicado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, que anteriormente defendia um corte maior, desta vez apoiou uma redução mais moderada, o que pode sinalizar uma tentativa de se alinhar ao restante do comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês).
Mas o plot twist que o mercado espera não veio agora.
De acordo com a consultoria britânica, as mudanças no comunicado do Fomc após a manutenção dos juros reforçam a avaliação de que o Fed “provavelmente não voltará a cortar as taxas por pelo menos mais algumas reuniões”.
Durante a coletiva desta quarta-feira (28), Powell disse o que pode levar o BC norte-americano a voltar a cortar os juros no curto prazo: a queda dos preços nos EUA.
Ele espera ver “os efeitos das tarifas sobre os preços das mercadorias atingirem o pico e, em seguida, começarem a cair, assumindo que não haja novos aumentos tarifários significativos”.
“É isso que esperamos ver ao longo deste ano. Se isso acontecer, será um sinal de que podemos afrouxar a política monetária”, afirmou Powell.
Por que isso importa para o seu bolso?
Para o investidor brasileiro, o Oscar da política monetária dita o ritmo do câmbio, da atratividade da renda fixa e também da bolsa brasileira.
Enquanto os juros lá fora permanecerem em nível elevado, o dólar tende a manter sua força global, pressionando os ativos emergentes. Na contramão, o afrouxamento nos EUA enfraquece a moeda norte-americana e aumenta o apetite do gringo por ativos de países como o Brasil.
Mas, nessa conta, entra um novo elemento: a pressão que Trump tem feito pela substituição de Powell no comando do Fed.
“A polarização política do Fed é muito prejudicial aos EUA. Como efeito colateral da interferência de Trump no banco central norte-americano temos a desvalorização do dólar, que beneficia ativos globais de maneira mais geral”, afirma Spiess.
Felipe Guerra, fundador e CIO da Legacy, acredita que toda essa pressão de Trump sobre o Fed não passa de ruído.
“Há um board, então a decisão de juros nos EUA não depende de uma só pessoa. Dificilmente o Fed sairá do prumo com a mudança de um membro. Para isso, seria necessário algo mais radical, como uma mudança total do board, o que não é o cenário base”, disse ele durante evento do UBS nesta quarta-feira (28).
Como proteger seus investimentos
Powell deixará a presidência do Fed em maio deste ano, mas antes mesmo da janela para a troca do comando do Fed, Trump já vinha intimidando o chefe do BC dos EUA a cortar os juros — e essa pressão pode ser favorável aos seus investimentos.
Entre os favoritos a ocupar a vaga de Powell estão Rick Rieder, diretor de investimentos da BlackRock, e Kevin Warsh, ex-diretor do Fed.
Na Polymarket, uma plataforma de apostas, Rieder aparece em primeiro lugar com 41%, seguido de Wash, com 27%.
Ambos são nomes bem-vistos por Trump. Mas a interferência política no Fed é considerada perigosa porque mina a credibilidade do banco central, o que pode levar a decisões focadas no curto prazo eleitoral em detrimento da estabilidade econômica de longo prazo.
Além disso, a independência do Fed é crucial para controlar a inflação e o emprego via taxas de juros com base em dados técnicos, e não em pressões políticas.
“O que está acontecendo com os EUA, Fed e Trump é muito similar com os regimes populistas na América Latina, ou com o que aconteceu na Turquia, onde [Recep Tayyip] Erdogan acabou se tornando, na prática, o presidente do banco central”, afirma Spiess, da Empiricus.
Neste cenário turbulento, o analista da Empiricus recomenda que os investidores busquem proteção no ouro — o metal vem renovando recordes em meio às tensões geopolíticas, ao maior apetite dos bancos centrais ao redor do mundo, que buscam alternativas ao dólar, e às incertezas ligadas ao Fed.
“Recomendamos uma exposição de 2,5% a 5%, sendo 2,5% para os investidores mais arrojados e 5% para os mais conservadores, isso considerando exposição também às mineradoras”, diz Spiess, acrescentando que o ouro, embora seja uma reserva de valor, é muito volátil.
O Seu Dinheiro fez uma matéria especial sobre os investimentos em ouro, prata e outros metais que têm subido desde o fim do ano passado e você pode conferir aqui os detalhes.
Spiess também reforça a necessidade de diversificação geográfica dos investimentos em um momento de indecisão sobre o comando do maior banco central do mundo.
“Vale a pena ter dinheiro no Brasil, mas recomendo internacionalizar uma parte da carteira com Europa e até mesmo com China”, afirma o analista da Empiricus.
Ulrike Hoffmann, head global de equities e CIO para as Américas no UBS Global Wealth Management, também vê a China como uma boa opção de diversificação para o investidor brasileiro.
“Vemos a China como uma forma de diversificar qualquer risco, e o investidor se beneficia ainda mais se surgir um algoritmo de IA [inteligência artificial] mais eficiente, que pode vir da China e não dos EUA”, disse.
Rodrigo Azevedo, fundador da Ibiuna Investimentos, lembra, no entanto, que isso não significa acabar com a exposição ao mercado norte-americano.
“Um dos pontos mais importantes de se investir nos EUA é a previsibilidade. Quando as políticas de Trump começam a quebrar essa previsibilidade, essa regra é testada”, afirmou.
“A ideia de interferência no Fed, que pode gerar inflação, tem feito com que o dólar perca o status de reserva de valor absoluta, e isso faz com que as pessoas reduzam o tamanho de sua alocação nos EUA. Mas esse movimento não significa que os EUA não são bons, e sim que é preciso sair de uma posição overweight [de sobrealocação]”, acrescenta Azevedo.
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