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Tratado, que abrange bens, serviços, investimentos e compras governamentais, vinha sendo discutido há duas décadas pelos representantes dos dois blocos
Demorou (e muito), mas saiu! O Mercosul e a União Europeia finalizaram nesta sexta-feira, 28, as negociações para o acordo entre os dois blocos. O anúncio oficial foi dado pelo Ministério da Economia, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Agricultura em nota conjunta divulgada à imprensa.
Segundo estimativas do Ministério da Economia, o acordo representará um incremento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de US$ 87,5 bilhões em 15 anos, podendo chegar a US$ 125 bilhões se consideradas a redução das barreiras não-tarifárias e o incremento esperado na produtividade total dos dos fatores de produção.
O tratado, que abrange bens, serviços, investimentos e compras governamentais, vinha sendo discutido há duas décadas por europeus e sul-americanos. A rodada final de negociações foi iniciada por técnicos na semana passada. Diante do avanço nas tratativas, os ministros do Mercosul e da União Europeia foram convocados e, desde a quinta-feira, 27, estão fechados em reuniões na Bruxelas.
O acordo entre Mercosul e União Europeia representa um marco. É o maior tratado assinado pelos europeus e o mais ambicioso já acertado pelo Mercosul, que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A nota conjunta dos ministérios aponta que o acordo constituirá "uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo".
O presidente Jair Bolsonaro chamou o acordo de "histórico" na sua conta do "Twitter", afirmando que esse é um dos acordos mais importantes de todos os tempos.
Histórico! Nossa equipe, liderada pelo Embaixador Ernesto Araújo, acaba de fechar o Acordo Mercosul-UE, que vinha sendo negociado sem sucesso desde 1999. Esse será um dos acordos comerciais mais importantes de todos os tempos e trará benefícios enormes para nossa economia.
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— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) June 28, 2019
O tratado permitirá que a maior parte dos produtos seja comercializada entre os blocos com tarifa zero. Haverá um calendário para que isso ocorra. O acordo reconhecerá como distintivos do Brasil vários produtos, como cachaças, queijos, vinhos, suco de laranja e cafés.
Os europeus eliminarão mais rapidamente as tarifas, mas vão manter cotas de importação em alguns produtos agrícolas. Para o Mercosul, pode levar uma década para que boa parte das alíquotas seja zerada.
A nota dos Ministérios também destaca que a redução de barreiras e a maior segurança jurídica e transparência de regras irão facilitar a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, com geração de mais investimentos, emprego e renda. Os consumidores também serão beneficiados pelo acordo, com acesso a maior variedade de produtos a preços competitivos.
Segundo o Ministério da Economia, o aumento de investimentos no Brasil, também em período de 15 anos, será da ordem de US$ 113 bilhões. Com relação ao comércio bilateral, as exportações brasileiras para a UE apresentarão quase US$ 100 bilhões de ganhos até 2035.
A União Europeia é o segundo parceiro comercial do Mercosul e o primeiro em matéria de investimentos. Já o Mercosul é o oitavo principal parceiro comercial extrarregional da UE. A corrente de comércio entre as regiões foi de mais de US$ 90 bilhões em 2018.
Em 2017, o estoque de investimentos da UE no bloco sul-americano somava cerca de US$ 433 bilhões. O Brasil registrou, em 2018, comércio de US$ 76 bilhões com a UE e superávit de US$ 7 bilhões, além de exportar mais de US$ 42 bilhões, aproximadamente 18% do total exportado pelo país.
A economia brasileira destaca-se, ainda, como o maior destino do investimento externo direto (IED) dos países da UE na América Latina, com quase metade do estoque de investimentos na região. O Brasil é o quarto maior destino de IED da UE, que se distribui em setores de alto valor estratégico.
As conversas para o acordo foram lançadas em junho de 1999. Uma troca de ofertas chegou a ser feita em 2004, mas decepcionou os dois lados e as discussões foram logo interrompidas. Em 2010, as negociações foram relançadas.
Desde então, houve idas e vindas com momentos de resistências tanto do lado do Mercosul quanto do lado da União Europeia. Em 2016, os dois blocos voltaram a trocar propostas e, neste ano, havia a percepção de que faltava muito pouco para um acerto.
Para a rodada final, o governo brasileiro enviou a Bruxelas o chanceler Ernesto Araújo, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o secretário especial de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.
O clima era de otimismo e o Brasil se preparava para anunciar um desfecho favorável já na noite de quinta-feira. Mas muitos detalhes referentes ao setor agrícola ainda não tinham sido resolvidos, segundo uma fonte próxima às conversas que correm na Bélgica.
O clima pesou em diversos momentos e houve tensão entre os negociadores, conta essa fonte. Ao longo desta sexta, porém, foi possível alcançar um consenso.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) comemorou a conclusão do acordo entre Mercosul e União Europeia. Para a entidade, trata-se do mais importante acordo de livre comércio já firmado pelo Brasil.
Em nota, o presidente da CNI, Robson Andrade, afirmou que o acordo pode representar o "passaporte para o Brasil entrar na liga das grandes economias do comércio internacional".
"Cria novas oportunidades de exportação devido à redução de tarifas europeias, ao mesmo tempo em que abre o mercado brasileiro para produtos e serviços europeus, o que exigirá do Brasil aprofundamento das reformas domésticas. O importante é que essa mudança será gradual, mesmo assim as empresas devem começar a se adaptar à nova realidade", disse Andrade.
De acordo com a nota, o acordo reduz, por exemplo, de 17% para zero as tarifas de importação de produtos brasileiros como calçados e aumenta a competitividade de bens industriais em setores como têxtil, químicos, autopeças, madeireiro e aeronáutico.
Estudo feito pela CNI indicou que, dos 1.101 produtos que o Brasil tem condições de exportar para a União Europeia, 68% enfrentam hoje tarifas de importação ou cotas.
A CNI pontuou que, assim que for ratificado, os produtos nacionais passarão a ter acesso preferencial a 25% do comércio do mundo com isenção ou redução do imposto de importação. Um importante passo para a abertura comercial do País. Atualmente, eles só entram, nessas condições, em 8% dos mercados internacionais.
O ministro da Fazenda da Argentina, Nicolás Dujovne, também comemorou a celebração do acordo comercial. Em sua conta no Twitter, a autoridade do governo do presidente Mauricio Macri destacou o potencial econômico que a iniciativa pode trazer ao país.
https://twitter.com/NicoDujovne/status/1144657293558079488
"A assinatura do acordo Mercosul-UE é um fato histórico", escreveu Dujovne. "O acordo tem um potencial enorme para aumentar os investimentos, fundamental para conseguir um crescimento sustentado, a geração de emprego e a redução da pobreza no nosso país", afirmou ele.
Do outro lado do Atlântico, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, chamou o desfecho bem-sucedido de "momento histórico" e afirmou que, "no meio de tensões comerciais internacionais", os dois blocos estão emitindo "um forte sinal" em favor do "comércio baseado em regras".
Já a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmström, apontou que o tratado "economizará 4 bilhões de euros" em cobranças aduaneiras a empresas europeias, "quatro vezes mais" que o acordo do bloco com o Japão.
"(O acordo) também estabelece elevados padrões e um forte quadro para lidarmos conjuntamente com questões como o meio ambiente e direitos trabalhistas, bem como reforçarmos compromissos de desenvolvimento sustentável que já fizemos, por exemplo sob o Acordo de Paris."
No mesmo comunicado, Bruxelas destaca que o acordo comercial birregional cobrirá uma população de 780 milhões de habitantes e "ancorará importantes reformas econômicas e a modernização em curso nos países do Mercosul".
As negociações acabaram, mas para que as barreiras comerciais de fato caiam os blocos vão precisar de um bom tempo.
Após o anúncio político, é feita uma revisão técnica e jurídica do acordo. Quando o texto do acordo estiver devidamente revisado e traduzido, ele estará pronto para assinatura. A Comissão Europeia encaminha o acordo ao Conselho da UE, que decide sobre a assinatura formal. É definida, então, uma data com o Mercosul para a assinatura do acordo.
Após essa assinatura, a Presidência da República encaminha o acordo para o Congresso Nacional, para apreciação pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Se aprovado, o Senado autoriza o Poder Executivo a ratificar o acordo. No que se refere à UE, o acordo é encaminhado para votação no Parlamento Europeu.
A parte econômica do acordo poderá, no entanto, entrar em vigor provisoriamente após a aprovação pelo Parlamento Europeu e a ratificação pelos países do Mercosul. A parte política dependerá, ainda, da ratificação do texto por cada membro da UE.
*Com Estadão Conteúdo.
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