Menu
2019-05-21T23:03:22+00:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Entrevista Exclusiva

Marcos Mollica, do Opportunity: Não dá para abraçar uma posição gigante e ficar esperando o cenário positivo se materializar

Gestor está otimista com Brasil, mas como trajetória não será linear, aproveita os momentos de pânico e euforia para montar e desmontar posições em bolsa e câmbio

22 de maio de 2019
5:13 - atualizado às 23:03
Marcos Mollica
Marcos Mollica, gestor do Opportunity Total Master - Imagem: Reprodução/YouTube

O gestor Marcos Mollica e sua equipe estão há cerca de um ano no comando de alguns dos primeiros fundos multimercados criados no país pelo Opportunity, o Total FIC e o Market. Em seu perfil no “Twitter”, exibe uma foto ao lado do lendário Milton Friedman, algo que remete à sua formação. É economista com PhD por Chicago e tem usado essa base em economia e outras habilidades obtidas quando foi tesoureiro do BTG para fazer seu modelo de gestão.

Conversei com Mollica na tarde de terça-feira, e ele me contou que seu cenário é otimista com Brasil, mas que mantém uma postura cautelosa já que estamos tendo uma série de dificuldades no lado político.

“Semana passada foi uma das piores semanas do governo, mas estamos com um cenário de que a reforma da Previdência vai avançar, apesar da falta de coordenação do governo”, disse.

Antes de discutirmos sobre política e economia, vamos falar mais um pouco do pânico da semana passada e de como o Mollica e sua equipe aproveitaram o movimento dos mercados para ampliar posição comprada em Bolsa e vendida em dólar, mas nada em volumes muito expressivos.

Segundo Mollica, como a visão da casa era mais pessimista, as posições estavam bem baixas. Então, o fundo aproveitou essa correção um pouco mais forte para se reposicionar. “Mas também não vamos ficar abraçados às posições se vermos o lado político piorando”, ponderou.

“Tínhamos entrado o mês com posições bastante leves e, na semana passada, que foi uma semana bastante difícil nos mercados, aproveitamos para comprar um pouco mais de bolsa e vender dólar. Nos aproveitamos da turbulência e, por enquanto, foi bom.”

Como o preço ajudou na semana passada, o fundo está mais um pouco mais “long Brasil”, mas como o mercado já andou bastante nos últimos dois dias, Mollica avalia que não teria mais tanta assimetria assim.

Estratégia em meio ao caos

Essa movimentação das últimas semanas mostra um pouco da estratégia que o fundo tem adotado. Segundo Mollica, a ideia não é ser reativo, mas sim ter espaço para tomar decisões com folga.

“O processo é turbulento. O cenário é de melhora, mas não é um processo linear. Será cheio de idas e vindas. Não dá para abraçar uma posição gigante e ficar esperando o cenário positivo se materializar. Tem que ser um pouco mais dinâmico e isso tem gerado bons retornos para nosso fundo”, afirmou.

Em 12 meses até abril, o Opportunity Total FIC FIM mostrava retorno de 8,92% ou 140,6% do CDI, o fundo foi criado em 2003. Como os últimos dias foram bons, o resultado em base mais recente deve ser mais elevado. O Market é praticamente o mesmo fundo, mas com 40% do risco, e está no mercado desde 1996.

Segundo Mollica, o que ele e sua equipe conseguiram fazer bem neste ano foi defender o forte resultado de janeiro, quando o ganho ficou na casa dos 4%.

“Quando o mercado embarcou no ultra otimismo de Ibovespa a 100 mil pontos, a gente baixou bem a bola e adotou essa postura mais cautelosa, mais dinâmica, diminuindo as posições no excesso de otimismo e procurando oportunidades para aumentar. Temos feito isso desde fevereiro e março e conseguirmos defender o resultado de janeiro, enquanto boa parte da indústria entregou, praticamente, todo o resultado do começo do ano”, explicou.

Para Mollica, um diferencial do fundo é essa postura mais dinâmica, de não estar “sentado nas posições, esperando as coisas se materializarem lá na frente, enquanto tem um monte de coisa acontecendo no curto prazo que estão tornando o cenário mais difícil”.

No entanto, Mollica gosta de deixar claro que “não somos curto prazistas”. Há um cenário estrutural forte, desenhado por ele e outros cinco economistas que fazem parte da equipe. A esse lado estrutural se soma um gerenciamento das posições de forma mais dinâmica.

“Apesar do cenário base ser um só, as coisas flutuam, o humor do mercado flutua, o cenário político complica. Temos de ser capazes de reagir às novas informações. Tem um blend interessante nesses fundos. Tem esse lado de economista muito forte, que vem da minha formação, mas tem essa parte de mercado, que conseguimos implementar e acompanhar com muita agilidade.”

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter

Vamos ao cenário

Para Mollica, aparentemente, grande parte da classe política tem a percepção de que o país precisa sair do atoleiro e essa "afundada da economia", ao longo do primeiro trimestre, parece contribuir para criar um clima de urgência com relação às reformas.

Para o economista, as manifestações que aconteceram e que estão “ameaçando acontecer” também são elementos que colocam certa pressão na classe política.

“Acreditamos que isso vai acabar fazendo as coisas andarem. A reforma deve avançar mais rapidamente na Comissão Especial, criando a percepção de um período mais positivo. Mas vemos com certo ceticismo, ainda, a capacidade desse arranjo de conseguir os votos no plenário”, disse.

Por isso, há essa visão mais cautelosa para frente, pois se o governo não se engajar nessa batalha para aprovar a Previdência, a avaliação é de que o Congresso, sozinho, não tem os instrumentos para conseguir a aprovação.

“Lá no plenário, se o Executivo não estiver disposto a negociar, a coisa vai complicar novamente. Lá o jogo é mais difícil. Imagino que o Executivo participe mais do processo nesse ponto e de maneira legítima, sem nenhuma volta do toma lá, dá cá, mas com um processo de negociação legítima. Por isso que estamos observando como evolui esse jogo.”

Essa movimentação do Congresso, de levar adiante as reformas de maneira independente é encarada de forma positiva. Mas a situação ainda é “extremamente delicada”, pois a relação do Executivo com o Congresso ainda está sendo um pouco turbulenta e pode gerar muito ruído no mercado.

Segundo Mollica, uma coisa positiva que tem acontecido é que quando o ambiente escala para um nível perigoso, como vimos na semana passada e em março, geralmente temos uma reação positiva depois. Nesse último episódio, o Congresso tomou a inciativa com relação às reformas.

Para gestor, temos de ter em mente que temos um governo “que ainda está aprendendo” e que o contexto é diferente.

“As regras do jogo mudaram. O governo está deixando claro que foi eleito para mudar o padrão de negociação com o Congresso. Isso não vai se alterar. A questão é que ao acabar com esse caminho, não se propôs nada novo. E aí fica essa turbulência, cheio de idas e vindas. Estamos aprendendo como será o novo padrão. O potencial de ruído é bastante grande”, explicou.

Atividade, inflação e juros

Do lado econômico, Mollica avalia que talvez não tenhamos tanta novidade agora. O gestor disse que já tinha antecipado o risco de decepção com a atividade e, agora, já é meio consenso que o Produto Interno Bruto (PIB), muito provavelmente, vai crescer abaixo de 1% neste ano. “Sem mudança na confiança, acho difícil a economia retomar.”

No lado da inflação, a avaliação é de “cenário benigno”, apesar de choques temporários que possam ocorrer, como alimentos. “Com a atividade do jeito que está, acho muito difícil qualquer tipo de pressão.”

Com atividade fraca e inflação tranquila, Mollica acredita que ainda há espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) tirar a Selic dos atuais 6,5% ao ano.

“Temos algumas posições aplicadas em juro. Essa combinação de inflação baixa, atividade fraca e perspectiva de aprovar a Previdência cria um ambiente bastante propício para possíveis novos cortes da Selic. Como o mercado não tem nada precificado nisso, achamos que tem alguma assimetria aí.”

Câmbio

O fundo está bastante ativo no mercado de câmbio e, segundo Mollica, montou uma pequena posição vendida em dólar na semana passada. “Com o pânico da semana passada, achamos que deu uma certa distorcida.”

Segundo Mollica, as posições em taxa de câmbio têm sido as mais ágeis do fundo, sendo usadas até para defender outras posições mais otimistas com Brasil.

Cena externa

O ponto complicado lá fora é a guerra comercial entre Estados Unidos e China, que atingiu um nível que chegou a "surpreender" na semana passada. Para Mollica, no estágio atual, deve ser difícil de vermos uma retomada nas negociações, o que vai gerar mais ruídos.

Mas para o gestor, o vetor que domina é a economia americana e ele não vê risco de desaceleração muito forte da atividade por lá. A economia deve recuar de forma controlada para um ritmo de crescimento de 2%, algo saudável para os EUA, com desemprego beirando mínimas históricas e num quadro sem inflação (que deixa todos intrigados).

Assim, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, deve ficar com o juro parado no patamar atual de 2,25% a 2,5% “até onde a vista alcança”, o que permite essa avaliação mais construtiva com a economia dos EUA e a manutenção de uma pequena posição comprada nas bolsas de lá.

“Os choques da guerra comercial preocupam, mas não vemos risco disso levar os EUA para uma recessão”, concluiu.

Comentários
Leia também
DINHEIRO QUE PINGA NA SUA CONTA

Uma renda fixa pra chamar de sua

Dá para ter acesso a produtos melhores do que encontro no meu banco? (Spoiler: sim).

Objetivo muito distante

Maia diz ser ‘temerário’ falar em privatização da Petrobras até 2022

Presidente da Câmara ressaltou que, por ser a Petrobras uma empresa de capital aberto, o assunto da venda fica mais delicado

Mas e o prazo?

Jereissati diz que relatório da reforma da Previdência não será mais entregue nesta sexta-feira

Pelo cronograma inicial, o relatório seria lido na comissão na próxima quarta-feira, 28

Seu Dinheiro na sua noite

Quem manda é o lucro

Vermelho ou verde? Para facilitar a vida de míope mal curado, deixo sempre as duas cores bem berrantes na tela de cotações que fica a meu lado para saber rapidamente quando a bolsa e as principais ações do Ibovespa estão em alta ou em queda. Hoje foi o típico dia em que um único ponto […]

Ninguém segura!

Azul fecha acordo com aérea regional Asta e amplia operações em Mato Grosso

Focada em viagens ligadas ao agronegócio, a ASTA existe desde 1995 e, atualmente, opera onze voos diários no Mato Grosso

Falta gás

Apesar de espera positiva por FGTS, mercado de trabalho ainda trava ímpeto de compra

Analistas da FGV afirmam que o saldo positivo do Índice de Confiança do Consumidor em agosto deve ser encarado com certa cautela

Ninguém mexe!

Governo não cogita alterar meta fiscal, diz Ministério da Economia

Meta limita o déficit primário do governo para este ano a R$ 139 bilhões

Se deu bem

Conselho da Anatel aprova termo que troca multas contra a TIM por iniciativas de melhora de atendimento

Acordo prevê a troca de R$ 627 milhões em sanções por uma série de iniciativas que a companhia deverá assumir e colocar em prática

Em debate no Congresso

Campos Neto diz estar seguro que PL da autonomia do BC blindará a instituição e a UIF, ex-Coaf

Declarações foram feitas nesta manhã durante a posse do novo presidente da UIF, Ricardo Liáo

Tá difícil de acreditar

Confiança de micro e pequeno empresário cai 7,6% nos primeiros sete meses do ano

Para 53% dos pessimistas com a economia, são as incertezas políticas que justificam sentimento negativo

No meio do caminho tinha uma pedra

Relator da Previdência no Senado diz que indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada atrapalha tramitação da reforma

Indicação ainda não foi oficializada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, pai do deputado

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements