Itaú Asset cria “incubadora” de fundos para competir com gestoras independentes
Com R$ 750 bilhões em patrimônio, gestora do Itaú entra como sócia de profissionais com planos de criar suas próprias assets e lança família de fundos que adota as estratégias

Se não pode vencê-los, melhor trazê-los para dentro de casa. Para lidar com a inédita concorrência desde que o Itaú Unibanco passou a oferecer fundos de terceiros aos clientes, a gestora do banco decidiu ela própria incorporar o DNA de asset independente.
A missão de reinventar a gestora que possui R$ 750 bilhões em patrimônio cabe a Rubens Henriques. Antes de assumir o comando da gestora, em maio deste ano, ele era justamente o responsável por fazer a seleção dos fundos de fora que entravam na prateleira do banco.
No admirável mundo novo de juros nas mínimas históricas e da abertura do mercado, a concorrência pelo dinheiro dos clientes deixou de ser uma briga apenas entre os bancões.
Em pouco menos de dois anos, o Itaú já se aproxima dos R$ 200 bilhões distribuídos em produtos que não são de sua gestora.
“Fica muito mais difícil atrair e reter as melhores pessoas se você não tiver um modelo para competir com as assets independentes”, me disse Henriques, em uma entrevista na sede da gestora na Avenida Faria Lima, “coração” do mercado financeiro em São Paulo.
O plano para fazer frente à concorrência crescente no próprio quintal é fazer da Itaú Asset uma espécie de “incubadora”, entrando como sócia de profissionais com planos de criar suas as gestoras.
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Trata-se de uma espécie de “terceira via”, ao oferecer um modelo de incentivos parecido com o que o gestor teria se criasse a própria asset, mas com a estrutura do banco por trás. Até agora 11 profissionais de nível sênior com passagens por gestoras consolidadas como SPX, Gávea, JGP e Verde foram atraídos pela proposta.
“Ele montam a mesa de gestão e eu dou todo o resto: área de operação, risco, equipe econômica e análise de dados.”
Primeiros frutos
O primeiro fruto desse novo modelo surgiu com a família de multimercados Itaú Global Dinâmico, o carro-chefe do projeto. Com R$ 14 bilhões em patrimônio, os fundos adotam estratégias de sete diferentes equipes de assets “incubadas”, num total de 30 profissionais.
Cada um dos times recebe um pedaço desse capital e faz a gestão de forma independente dos outros. Para Henriques, o formato reduz a dependência do fundo de uma única estratégia, algo que deve se tornar mais relevante a partir do ano que vem, com o fim do ciclo de queda da taxa básica de juros (Selic).
E como essa filosofia se traduz em rentabilidade? O principal produto da família, o Global Dinâmico Plus, acumula rentabilidade de 160% do CDI no acumulado do ano até novembro. O fundo cobra a clássica taxa de administração de 2% mais 20% de performance sobre o CDI e tem 20 dias de carência para o resgate.
Conforme os fundos crescerem, a asset pode agregar novas equipes e estratégias. Está nos planos inclusive ter uma equipe no escritório da Itaú Asset em Nova York para ampliar a exposição direta a ativos internacionais.
Esse formato permite ainda que os fundos permaneçam abertos para captação sem comprometer a capacidade de manter os bons retornos, segundo Henriques. Para ele, esse é justamente um dos problemas que os fundos multimercados enfrentam como efeito colateral do forte crescimento dos últimos anos.
“Muitos gestores que são muito bons ficaram com um tamanho tão grande que tiveram de abrir mão de algumas fontes de retorno.”
Manter a família de fundos disponível na prateleira do banco ajuda na concorrência com as gestoras independentes. “Hoje os melhores produtos da indústria estão fechados. Então a ideia de ter um fundo que atenda a essa demanda do canal de vendas traz uma experiência muito melhor.”
Alfa e beta
Sofisticar a grade de produtos também faz parte do projeto da Itaú Asset de sustentar as receitas no atual cenário de juros baixos. Do total de recursos na gestora, 90% ainda estão nos produtos de renda fixa tradicionais.
Com a queda da Selic, a tendência é que os investidores saquem os recursos dos produtos com taxas de administração mais altas e que não entreguem retornos compatíveis.
A nova família de fundos multimercados e de ações da gestora integra a chamada estratégia de "alfa", ou seja, de produtos que têm uma gestão ativa e buscam superar um determinado índice de referência. Em troca, cobram uma taxa de administração e de performance do investidor.
Na outra ponta, aparece o chamado mundo "beta", de produtos mais baratos e com escala. Nesse segmento, a gestora aposta nos fundos de índices (ETFs, na sigla em inglês). A Itaú Asset conta hoje com 11 ETFs, sendo oito de bolsa e três de renda fixa.
Em breve na XP?
Assim como o Itaú abriu a prateleira do banco para vender fundos de terceiros, faz parte da estratégia da asset ampliar a distribuição de seus produtos em outras plataformas.
“O apetite dos nossos canais internos pelos nossos produtos é grande e vai continuar preponderante, mas faz parte desse mundo novo [captar fora do banco] e a gente não vai fugir dele”, disse Henriques.
Os fundos do banco já estão disponíveis para clientes milionários (private banking) em algumas instituições e também em plataformas como o BTG Pactual Digital e Guide.
Curiosamente, os fundos do Itaú ainda não podem ser encontrados na grade da XP Investimentos, mas isso deve mudar. “Já existe a demanda e é um movimento natural que a gente esteja lá em algum momento”, afirmou Stefano Catinella, responsável pela área de distribuição da Itaú Asset.
Otimista, mas de olho na bola
Eu não poderia sair da conversa sem perguntar o que os executivos da segunda maior gestora de fundos do país esperam para a economia e os principais ativos financeiros em 2020. A expectativa do CEO da Itaú Asset é que a renda variável seja mais uma vez o destaque. "Estamos otimistas com bolsa, mas de olho na bola", disse Henriques.
A gestora para tem uma visão mais otimista que a média do mercado para o desempenho da economia, com uma projeção de crescimento para o PIB de 2,7% no ano que vem.
A atividade deve ser puxada por três principais efeitos: o dinheiro da liberação dos recursos do FGTS e do leilão da cessão onerosa, as eleições nos Estados e municípios e o estímulo da queda da taxa de juros.
Nas estimativas da Itaú Asset, o Banco Central deve interromper o ciclo de cortes dos juros nos atuais 4,5% ao ano e manter a taxa nesse patamar ao longo de todo o ano que vem.
Não que haja algum risco inflacionário à vista. Apesar de uma pressão de curto prazo provocada tanto pela aumento no preço da carne como do câmbio, o IPCA deve ficar em 3,7% em 2020, segundo Henriques.
As principais fontes de risco para esse cenário favorável vêm de fora. E são várias fontes de incerteza, que vão desde a guerra comercial – apesar do alívio de curto prazo com a primeira fase do acordo entre Estados Unidos e China – até eleições norte-americanas e as tensões geopolíticas com a onda de protestos em vários países.
E o que fazer nesse contexto? O CEO da gestora do Itaú sugere a exposição em fundos que ofereçam liberdade para o gestor, o que inclui fundos de ações que não tenham a obrigação de seguir o Ibovespa e multimercados. Outra classe que Henriques acredita é a de fundos de crédito privado, que passaram por uma forte turbulência recente.
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