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Certificação avalia práticas ESG completas, ajudando pequenas e médias empresas a estruturar gestão sustentável e melhorar impacto social e ambiental

A adoção de práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) deixou de ser uma agenda restrita às grandes companhias e passou a fazer parte das estratégias de empresas de diferentes portes.
Nesse movimento, o Selo B ganhou espaço como uma das formas de reconhecer organizações que incorporam impactos positivos à própria gestão e ao modelo de negócios.
Concedida pelo B Lab, organização internacional representada no Brasil pelo Sistema B, a certificação avalia a atuação da empresa de maneira ampla.
O processo considera não apenas iniciativas ambientais ou sociais, mas também aspectos relacionados à governança, aos trabalhadores, à comunidade, aos clientes e à relação com fornecedores.
Segundo Maria Cecília Andrade, vice-presidente de Desenvolvimento Sustentável e Práticas ESG da Comissão de Infraestrutura, Logística e Desenvolvimento Sustentável da OAB/SP, esse é justamente um dos principais diferenciais da certificação em relação a iniciativas ESG isoladas.
“Enquanto muitas iniciativas focam apenas na agenda ambiental ou em ações sociais, a Certificação B avalia como a empresa conduz seus negócios como um todo.”
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A certificação pode ser buscada por empresas de diferentes setores e tamanhos. O que muda, segundo advogada, é a capacidade de cada organização de demonstrar que suas práticas estão incorporadas à gestão e não representam apenas ações pontuais.
Para pequenas e médias empresas, porém, a decisão de buscar o selo envolve uma questão adicional. É preciso avaliar se a certificação é o melhor primeiro passo ou se os recursos disponíveis poderiam ser direcionados inicialmente para estruturar práticas internas de sustentabilidade, governança e gestão de impactos.
Não é necessário ter uma área específica de sustentabilidade para começar, explica Lúcia Helena Carvalho, professora do MBA em ESG do Ibmec. A própria plataforma B Impact permite realizar uma autoavaliação gratuita e identificar as lacunas que precisam ser trabalhadas.
De acordo com as especialistas consultadas pelo Seu Dinheiro, muitas pequenas e médias empresas já adotam práticas relacionadas à sustentabilidade sem classificá-las formalmente como ESG. São iniciativas como cuidado com funcionários, contratação de fornecedores locais, apoio a projetos sociais ou redução de desperdícios.
O problema aparece quando essas práticas não estão organizadas.
“É comum encontrar pequenas e médias empresas que cuidam dos colaboradores, compram de fornecedores locais, apoiam projetos sociais ou adotam medidas para reduzir desperdícios, mas nunca transformaram essas iniciativas em políticas, indicadores ou processos”, afirma Maria Cecília.
Para companhias pequenas ou médias que ainda estão construindo sua estrutura, pode fazer mais sentido investir primeiro em processos internos do que assumir imediatamente os custos e a complexidade de uma certificação.
Gleriani Torres, PhD em Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo e professora da FIA Business School, defende que os recursos eventualmente destinados ao selo podem, em determinados casos, ser direcionados para a própria estruturação da empresa.
“Um dinheiro que eventualmente iria para um selo, eu diria para investir internamente: pegar esse recurso e trabalhar na construção de uma mentalidade, de um mindset de processos mais amigáveis do ponto de vista ambiental e social.”
Ela diz que o ponto de partida deve ser a realidade de cada negócio, e não necessariamente uma certificação.
“Mais importante do que ter um selo, seja o selo B ou qualquer outro, é a empresa efetivamente desenvolver atividades relacionadas com o cuidado com o meio ambiente, com as pessoas e uma boa gestão de governança”, afirma.
Torres comenta que as medidas precisam estar relacionadas às características de cada negócio.
Uma companhia com alto consumo de água, por exemplo, deve priorizar a gestão e preservação dos recursos hídricos, enquanto uma empresa intensiva em carbono deve concentrar esforços na redução das emissões de gases de efeito estufa.
A partir daí, a empresa pode criar políticas, indicadores, código de ética, política ambiental, mecanismos de gestão de pessoas, inventários de emissões e formas transparentes de comunicação dessas iniciativas.
Maria Cecília afirma que essas medidas podem ser mais acessíveis e, em determinadas situações, produzir efeitos semelhantes na percepção de clientes, bancos, investidores e grandes empresas contratantes.
“Hoje existem caminhos mais acessíveis e que geram resultados muito concretos: implementar boas práticas de governança, estruturar indicadores, criar um código de ética, desenvolver uma política ambiental, medir emissões, fortalecer a gestão de pessoas e comunicar essas iniciativas de forma transparente.”
Por outro lado, a certificação pode ganhar importância quando a companhia já possui maior maturidade em sustentabilidade, busca investidores, participa de cadeias internacionais ou pretende se posicionar como uma empresa de impacto. Nesses casos, o selo funciona como uma validação externa das práticas já adotadas.
“Quando a empresa já tem um certo nível de maturidade e quando ela é referência no mercado, é importante que ela busque esses selos”, afirma Torres.
A implementação de práticas ESG também não necessariamente exige grandes desembolsos. Mudanças nos métodos de trabalho, redução do consumo de materiais e conscientização dos funcionários podem produzir resultados sem representar custos elevados e, em alguns casos, ainda gerar economia para a própria empresa.
Pequenas e médias empresas, diz Torres, que ainda estão começando deveriam priorizar a construção de uma cultura interna. Isso significa envolver gestores e funcionários e transformar as questões ambientais e sociais em parte da rotina da companhia.
“Muito mais importante do que selo é mudar a cultura, é adequar. Às vezes não são grandes mudanças, às vezes são pequenos ajustes, passo a passo.”
Maria Cecília, da OAB/SP, segue na mesma linha e afirma que a certificação exige justamente a transformação de boas práticas isoladas em um modelo de gestão que possa ser comprovado.
“A certificação acaba exigindo justamente esse passo: sair das boas práticas isoladas e transformá-las em um modelo de gestão consistente.”
O primeiro passo para uma empresa interessada na certificação é verificar se ela atende aos requisitos de elegibilidade.
Entre as condições estão ser uma empresa com fins lucrativos, estar legalmente constituída, operar há pelo menos 12 meses, cumprir as leis aplicáveis e não atuar em setores ou atividades excluídos pelo B Lab. Também há uma análise específica do perfil de risco da companhia.
Depois, a empresa deve criar uma conta na plataforma B Impact, disponibilizada pelo B Lab, e iniciar uma autoavaliação. A ferramenta permite identificar como a organização se posiciona diante dos requisitos e quais pontos precisam ser aprimorados, considerando características como porte, setor e localização.
Na versão atual dos padrões, a avaliação considera requisitos fundamentais e temas como ação climática, direitos humanos, trabalho justo, diversidade e inclusão, governança com stakeholders e gestão ambiental.
A companhia deve, então, transformar as práticas existentes em políticas, processos, indicadores e documentos que possam ser verificados.
Há ainda uma etapa jurídica. A empresa precisa cumprir o chamado B Corp Legal Requirement, incorporando à sua estrutura jurídica princípios de governança que considerem os impactos da atividade sobre trabalhadores, comunidades, clientes, fornecedores e meio ambiente — e não apenas os interesses dos acionistas.
Com a autoavaliação preenchida, os documentos reunidos e os requisitos atendidos, começa a etapa de avaliação e verificação. A B Lab analisa as respostas e evidências apresentadas, enquanto a certificação passa por verificação independente de terceiros. Depois da conclusão dessa etapa e do cumprimento das exigências, a empresa pode receber a Certificação B Corp.
A própria B Lab disponibiliza um guia oficial da certificação com os requisitos e etapas atualizados.
O custo da certificação varia de acordo com o faturamento da companhia. No modelo atual, existem valores relacionados à verificação e à certificação.
Para uma empresa com faturamento anual de até US$ 499.999, por exemplo, a tabela apresentada pelo Sistema B prevê, no Ano 0, uma taxa de verificação de US$ 900 e uma taxa de certificação de US$ 800. Os valores aumentam conforme o faturamento e estruturas mais complexas ou com múltiplas localidades.
O prazo também precisa ser analisado em duas partes: o período de preparação da empresa e o tempo necessário para concluir a certificação depois que o processo é formalmente submetido. Uma companhia que ainda precise estruturar políticas, indicadores e evidências pode passar vários meses nessa etapa inicial.
Depois que a autoavaliação é concluída, as evidências são reunidas e a empresa formaliza a submissão, o B Lab estima um período de dois a seis meses até a certificação. O prazo depende principalmente das eventuais não conformidades identificadas durante a verificação e do tempo necessário para corrigi-las.
Com isso, não é possível dizer que qualquer empresa estará certificada em dois ou seis meses. Esse período corresponde à etapa formal após a preparação. Para companhias que ainda estão construindo sua estrutura ESG, a jornada pode ser consideravelmente mais longa.
Além disso, o selo não deve ser encarado como um processo que termina no dia da certificação.
O novo modelo prevê acompanhamento e novos marcos de evolução ao longo de um ciclo de cinco anos, reforçando a ideia de que a certificação está ligada a uma jornada contínua de melhoria.
Os novos padrões do B Lab estabeleceram Sete Tópicos de Impacto: Governança das Partes Interessadas e Propósito; Trabalho Justo; Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão; Direitos Humanos; Ação Climática; Circularidade e Gestão Ambiental; e Assuntos Governamentais e Ação Coletiva.
No modelo anterior, a empresa acumulava pontos em diferentes áreas até alcançar uma pontuação global. Agora, é necessário demonstrar desempenho mínimo nos temas aplicáveis. Ou seja, uma atuação excepcional em determinada área não pode simplesmente compensar uma fragilidade relevante em outra.
Para Lúcia Helena Carvalho, professora do MBA em ESG do Ibmec, essa mudança mostra a importância de analisar a empresa de forma integrada. Questões ambientais, relações de trabalho, direitos humanos, diversidade, governança e atuação institucional passam a fazer parte de uma mesma avaliação sobre como o negócio funciona e administra os impactos que produz.
“A certificação, portanto, não funciona como um selo exclusivamente ambiental ou social. Ela também exige que a empresa demonstre como toma decisões, administra riscos, se relaciona com seus diferentes públicos e transforma compromissos em processos concretos", diz Carvalho.
Um dos principais erros é acreditar que ações de responsabilidade social ou ambiental, isoladamente, são suficientes para conquistar o selo.
“Hoje, o mercado espera muito mais. É preciso demonstrar governança, gestão de riscos, transparência, indicadores e compromisso da alta liderança", comenta Maria Cecília.
Outro problema é a falta de métricas. Não basta implementar uma política ambiental ou criar um programa interno: a empresa precisa medir resultados e produzir evidências que comprovem a efetividade das ações.
“Muitas empresas fazem um excelente trabalho, mas não documentam processos, não medem resultados e não conseguem comprovar aquilo que realizam. Na Certificação B, evidência pesa tanto, ou até mais que a mera intenção", diz Maria Cecilia
Além disso, um erro é tratar a certificação como uma ação puramente de marketing. Embora o selo possa ter valor reputacional, o processo começa na gestão e exige mudanças em políticas, responsabilidades, riscos, indicadores e evidências.
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