‘Saúde mental não é uma pauta de RH, mas de todo o negócio’; o que Adidas, Zeiss e Sodexo sugerem para prevenir adoecimento dos funcionários
Lideranças de recursos humanos das empresas participaram do evento Vittude Summit 2026 e discutiram formas de implementar melhorias para os colaboradores

As empresas têm corrido atrás das práticas de saúde mental no mundo corporativo com o prazo da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) batendo à porta. Responsável por estabelecer diretrizes para prevenção de acidentes e doenças ocupacionais, a legislação passa a exigir que as companhias também considerem os riscos psicossociais a partir do dia 26 de maio.
Para Silene Rodrigues, diretora sênior de recursos humanos da Adidas, um dos fatores decisivos para a adequação às novas regras dentro da empresa foi o engajamento coletivo. Segundo ela, o mapeamento dos riscos psicossociais não é pauta do RH, mas de todo o negócio.
“A liderança sênior tem que entender que, para seguir com as operações, a empresa precisa ter uma força de trabalho que esteja bem mentalmente”, afirmou.
A executiva participou do painel “RH no comando: como liderar o mapeamento de riscos psicossociais na prática”, realizado durante o Vittude Summit 2026, nesta quarta-feira (25), em São Paulo.
O debate também contou com representantes da Zeiss e da Sodexo, que compartilharam como as companhias vêm se preparando para as novas diretrizes da NR-1 e discutiram formas de transformar a exigência legal em estratégia de negócio.
Saúde mental nas empresas: problema não pode mais ser ignorado
A atualização da NR-1 ocorre em um contexto de deterioração da saúde mental no Brasil e no mundo.
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Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) indicam que, em 2025, o país registrou mais de 546 mil casos de afastamentos trabalhistas causados por transtornos psicológicos – aumento de 15,6% em comparação com o ano anterior.
Em linha com essa estatística, um estudo da empresa de terapia online Vittude mostra que 37,8% dos funcionários brasileiros enfrentam sofrimento clínico – 23,2% precisam de intervenção preventiva e 14,6% demanda cuidado imediato.
Para Rodrigues, a resposta a esse cenário passa necessariamente pelo envolvimento da alta liderança, incluindo o CEO e outros executivos C-level.
A diretora de RH defende que, embora não tenha enfrentado resistência das lideranças da Adidas aos princípios de saúde mental, os RHs que tiverem esse tipo de problema podem usar justamente a NR-1 como uma alavanca de convencimento para os executivos das empresas priorizarem essas questões.
Confiança é um ponto fundamental
A adaptação às novas normas de saúde mental inclui pesquisas organizacionais sobre bem-estar, relação com lideranças, organização das tarefas e prevenção a possíveis situações de assédio, por exemplo.
Para isso, a confiança dos funcionários é um ponto fundamental, defende Alessandra Peixoto, diretora de talentos e desenvolvimento da Sodexo.
É preciso criar um ambiente em que os colaboradores se sintam confortáveis e seguros para abordar esses assuntos no ambiente de trabalho.
“São dados muito sensíveis. Muitas pessoas nem conseguem identificar que estão passando por sofrimento psíquico. É importante trabalhar com esses dados com confidencialidade e criar planos de ação para melhorar a vida do colaborador”, explica.
Além disso, é necessário adaptar as iniciativas de saúde mental de acordo com os diferentes públicos existentes em uma empresa.
As estratégias precisam ser personalizadas de acordo com a região de cada equipe e os diferentes cargos, por exemplo. “Tem que adaptar para uma linguagem que o colaborador entende”, diz Peixoto.
Essa relação de confiança também foi reforçada na Zeiss. Fabíola Ancioto, diretora de RH e ESG (Ambiental, Social e Governança, no português) da fabricante de lentes de óculos, explica que as empresas precisam criar espaços de acolhimento além do tradicional.
Na companhia, foi criada a função de socorrista de saúde mental, que consiste na formação de colaboradores para lidar com esses temas.
“Muitas vezes, o funcionário não quer conversar com o RH, mas se sente à vontade para falar com alguém da mesma equipe”, diz.
As iniciativas precisam ir além do mapeamento dos riscos psicossociais
Embora o mapeamento da saúde mental seja um ponto importante para as empresas – ainda mais agora com as exigências da NR-1 –, as participantes do evento destacam que o movimento não deve parar por aí.
O tema precisa ser praticado diariamente, mesmo em iniciativas que, a princípio, pareçam óbvias: evitar reuniões em horários de almoço, não acionar colaboradores nas férias e manter uma relação humanizada no trabalho.
Ana Franzoti, diretora de RH e mediadora do painel, também destaca os benefícios que as ações de saúde mental podem gerar para a companhia, para além do bem-estar dos colaboradores:
“Esses mapeamentos de riscos psicossociais se tornam uma base estratégica para qualquer iniciativa e isso retorna em dinheiro para a organização. Os dados se traduzem em menos sinistralidade do plano de saúde, custo de afastamento e presenteísmo, fenômeno onde colaboradores comparecem ao trabalho, mas com capacidade produtiva reduzida.”
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