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Richard Boccato criou empresa que hoje abastece mais de 20 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin

Durante anos, Richard Boccato viveu atrás do balcão, preparando drinques em alguns dos bares mais prestigiados da cidade de New York. Foi ali que ele identificou uma oportunidade improvável: o gelo.
“Reconheci cedo que o gelo era talvez o ingrediente mais importante e negligenciado do coquetel moderno”, afirma ele ao Business Insider. Para ele, não fazia sentido investir em sucos frescos, xaropes artesanais e destilados premium e, ao final, “casar tudo isso com uma água congelada de qualidade inferior”.
O resultado, diz, seria “um esforço inútil no copo, especialmente cobrando preços elevados”.
O que ele não imaginava é que essa obsessão técnica o levaria a abandonar a carreira de bartender para vender gelo — e a transformar o produto em um negócio milionário.
A virada começou em 2009, quando Boccato se tornou sócio do bar Dutch Kills. No dia da inauguração, ao abrir o freezer do local, encontrou um bloco de gelo turvo, com coloração marrom-avermelhada. A tubulação do prédio não oferecia a qualidade de água que ele considerava adequada para os drinques.
A solução foi buscar blocos de gelo cristalino com um escultor local. O impacto foi imediato. Clientes ficaram impressionados com a transparência e o acabamento do produto. Com o bar gerando caixa, os sócios decidiram investir em um equipamento próprio para fabricar blocos de gelo.
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A ideia, naquele momento, era apenas abastecer o próprio bar. Mas, até 2011, a reputação dos coquetéis do Dutch Kills já havia se espalhado e outros estabelecimentos começaram a pedir o mesmo gelo.
Sem capital suficiente nem infraestrutura estruturada, Boccato decidiu arriscar. Nascia ali a Hundredweight Ice.
Os primeiros anos foram marcados por improviso. Nos fundos do bar, ele, o primeiro funcionário em tempo integral e o sócio quebravam blocos de cerca de 135 quilos com motosserras. Para dar acabamento, usavam ferros de passar roupa, alisando manualmente cada face dos cubos para obter superfícies lisas e arestas limpas.
“Se eu fosse um estranho entrando naquele depósito e visse a estrutura com que trabalhávamos, pensaria: ‘essas pessoas não têm chance de sobreviver’”, relembra. Colegas do setor também duvidaram. Muitos disseram que ele estava louco por acreditar que o negócio daria certo.
Ainda assim, a demanda cresceu. Com o tempo, Boccato precisou deixar o balcão para se dedicar exclusivamente à empresa. “Em determinado momento, percebi que não era mais bartender em tempo integral. Eu era um ‘homem do gelo’. Foi uma transição difícil e inesperada, mas também muito fortalecedora, porque significava que tínhamos conseguido.”
Em 2017, a operação já não cabia mais nos fundos do bar. A empresa se mudou para um galpão de cerca de 460 metros quadrados, a poucos quilômetros dali. A pandemia de Covid-19, no entanto, atingiu em cheio o setor de hospitalidade e obrigou a companhia a recuar temporariamente para a estrutura original.
Após um período de forte retração, a empresa voltou a investir. No fim de 2021, iniciou a construção de um novo armazém próximo ao anterior — onde opera até hoje, já com uma expansão adicional.
Atualmente, a Hundredweight Ice fornece gelo para mais de 20 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin e atende centenas de clientes em Nova York.
A rotina começa cedo: entre 5h e 6h da manhã, com encerramento por volta das 15h. A empresa corta cerca de 15 mil cubos de cinco centímetros por dia e produz mais de 1,3 milhão de quilos de gelo por ano.
O investimento em equipamentos é elevado. Cada máquina de fabricação de gelo custa entre US$ 5 mil e US$ 7 mil. As serras industriais usadas no corte variam de US$ 5 mil a US$ 20 mil. Um roteador CNC para gravações personalizadas pode custar até US$ 75 mil. Já as vans de transporte chegam a US$ 90 mil.
Em 2025, o faturamento ficou próximo de US$ 3 milhões. Para 2026, a projeção é alcançar US$ 3,5 milhões.
Apesar da expansão, a empresa mantém os preços inalterados desde 2017. Um pacote com 50 cubos de cinco centímetros custa US$ 30. Versões com logotipos personalizados giram em torno de US$ 100 por pacote.
Para Boccato, o crescimento foi consequência de uma busca por excelência — não de um plano inicial de empreender no setor de gelo.
“A única razão pela qual essa empresa existe é porque queríamos que nossos coquetéis no Dutch Kills fossem os melhores possíveis. Eu não esperava que isso se transformasse no negócio que é hoje.”
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