Ele levou a Espaçolaser à bolsa e hoje investe em outros negócios — mas alerta que PMEs não devem ter pressa de fazer IPO ou expandir para o exterior
Paulo Morais cofundou a rede de depilação a laser e hoje comanda a PG&MP Holding para investir negócios voltados a bem-estar, saúde, varejo especializado e energia renovável

Depois de conduzir a Espaçolaser à bolsa, o empreendedor Paulo Morais passou a repetir um alerta recorrente a fundadores que o procuram já com o objetivo de abrir capital.
“Esse não era nosso objetivo inicial na Espaçolaser. Ele foi consequência de mais de 20 anos de trabalho”, afirmou Morais, em entrevista ao Seu Dinheiro.
Foi a partir dessa convicção que ele estruturou sua nova fase profissional. Aos 58 anos, Morais deixou a operação da empresa que fundou para atuar como investidor estratégico e organizar, por meio da PG&MP Holding, negócios de bem-estar, saúde, varejo especializado e energia renovável.
Segundo ele, a ideia não é replicar uma história específica, mas aplicar método, governança e disciplina de execução em empresas com potencial real de crescimento.
A reflexão após o IPO da Espaçolaser
O ano de 2021 marcou o momento mais visível da trajetória de Morais: a abertura de capital da Espaçolaser, primeira empresa brasileira de serviços de beleza a acessar o mercado acionário doméstico. Internamente, porém, o período também foi de análise e avaliação do caminho percorrido.
“Fiz minha reflexão habitual de dezembro sobre o que havia realizado, o que funcionou, o que poderia ter sido melhor. Foi um período extremamente intenso: além da abertura de capital, havia a manutenção das operações e um trabalho pesado de consolidação das aquisições realizadas, especialmente de franquias”, afirma.
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Sob sua liderança, a rede saiu de 282 unidades, em 2017, para 750 lojas no primeiro trimestre de 2022. A empresa também iniciou sua expansão internacional, com operações na Argentina, Colômbia, Chile e Paraguai.
Segundo Morais, a sucessão no cargo de CEO já estava prevista para depois da conclusão do IPO. O processo, no entanto, levou mais tempo do que o planejado inicialmente.
“A transição efetiva só se concluiu no fim de agosto de 2022. Tive autonomia para liderar o processo de escolha do meu sucessor, dentro de um modelo estruturado de entrevistas e participação do conselho.”
A virada para o “smart money”
Ao deixar a operação da companhia, Morais decidiu mudar o papel que exerceria no mercado.
“Tenho um perfil inquieto e, depois de 30 anos no mundo corporativo, inclusive antes da própria Espaçolaser, entendi que meu próximo passo não seria como executivo, mas como investidor", afirma.
A decisão era atuar como um “smart money”, contribuindo com experiência em negócios que tivessem potencial real de escala.”
Enquanto comandava a Espaçolaser, o empresário era constantemente abordado — inclusive por meio de redes sociais — por empreendedores pedindo por conselhos de negócios.
Durante o período de transição, ele passou a analisar empresas que antes não tinha tempo para avaliar.
“Os projetos que me atraíam tinham três características principais: empreendedores com visão de longo prazo, propósito claro e impacto positivo, e mercado relevante com possibilidade de escala.”
Entre os problemas mais recorrentes que identifica nas conversas estão a expansão desorganizada e a ambição internacional precoce.
“Considero um erro estratégico pensar em outros países antes de consolidar o mercado brasileiro. Há enorme espaço no Brasil antes de pensar em qualquer movimento externo.”
Segundo ele, essa visão veio de um erro que ele mesmo cometeu em sua trajetória. “Na Espaçolaser, fomos para a Argentina cedo demais”, diz o empresário, acrescentando que isso dividiu o foco da expansão em território nacional.
Outro filtro decisivo é o perfil do fundador. “Não acredito em bons negócios conduzidos por pessoas que não sejam boas. Avalio sempre valores, postura, histórico e alinhamento cultural. Negócios são feitos por pessoas.”
A estrutura da PG&MP Holding
Para organizar seus investimentos, Morais criou a PG&MP Holding, uma estrutura familiar que concentra estratégia, governança corporativa, planejamento financeiro, tecnologia, expansão e formação de lideranças.
A atuação é ativa nas empresas investidas, com acompanhamento próximo de indicadores, times e modelo comercial.
“Crescer rápido sem estrutura cobra um preço alto. O que sustenta um negócio no longo prazo é governança, cultura e formação de times preparados, tendo o dono do negócio presente, acompanhando indicador, cliente e time.”
Hoje, o ecossistema reúne diferentes negócios em setores diversos:
- A Espaçolaser;
- A Novofio Clínica Capilar, especializada em implantes e tratamento capilar;
- A Bioma by Laces, rede de salões com produtos veganos e práticas de baixo impacto ambiental;
- A Mundo Terra, rede de lojas de esportes outdoor com consultoria técnica especializada;
- A CGE, projeto de geração de energia eólica no Sul do país, com previsão de início de operação em 2028;
- A iZi Gym, academia com proposta de bem-estar integral e menor pressão por performance, cuja primeira unidade será inaugurada em março de 2026.
No caso do Grupo Laces, o investimento partiu da identificação de potencial de escala em uma das marcas.
“O negócio principal, Laces, é um conceito forte, posicionado em um segmento de ticket elevado, o que limita escala. O que me chamou atenção foi o Bioma, um projeto iniciado um ano antes, com sete unidades no modelo de licenciamento. Ali vi potencial de expansão nacional”, diz.
“Quando entrei, eram sete unidades. Hoje são 80.”
Na Novofio, a contribuição ocorreu principalmente na organização interna, especialmente na estruturação de processos comerciais e de qualidade.
IPO não deve ser o ponto de partida
Ao avaliar novos investimentos, Morais considera mais importante a construção consistente de um negócio do que o objetivo de abrir capital desde o início.
Hoje, o empresário também aponta fatores que precisam ser analisados com cuidado antes de considerar a abertura de capital.
Segundo ele, empresas de menor porte enfrentam desafios estruturais na bolsa. Companhias classificadas como small caps precisam apresentar resultados ao mercado a cada trimestre, enquanto muitos projetos empresariais exigem horizontes mais longos para maturar e consolidar resultados.
“Além disso, o fluxo diário dessas ações costuma ser limitado, o que reduz a liquidez e afasta os grandes investidores. No contexto da Bolsa, isso mostra que o ambiente nem sempre é o mais favorável para companhias desse porte.”
O IPO pode acontecer — mas, na visão dele, deve ser consequência de uma trajetória sólida, e não o ponto de partida de um empreendimento.
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