Como esta cachaçaria de R$ 110 milhões aposta em bebidas sem álcool para crescer com público mais saudável
A empresa que tem 36 anos passa por uma transformação para se adaptar à redução do consumo de álcool e ao uso de canetas emagrecedoras

Uma rede de franquias no setor de alimentação e bebidas que acumula 36 anos de estrada nasceu na garagem de casa e com a experiência do fundador no setor agrícola. Essa é a história da Água Doce Sabores do Brasil, uma empresa que teve origem no interior de São Paulo e, atualmente, possui mais de 60 unidades espalhadas pelo país.
O nome por trás dessa empresa é Delfino Golfeto, de 75 anos, que começou a trabalhar ainda na adolescência na área rural, teve a oportunidade de estudar e se profissionalizou no setor sucroalcooleiro.
Aos 40 anos, durante os anos 90, ele decidiu dar uma virada na carreira e abrir o próprio negócio que nasceu como uma cachaçaria: oferecia degustações de diferentes rótulos, vendia a bebida e petiscos preparados pela esposa.
Ao longo do tempo, a empresa cresceu, abriu unidades em diferentes estados do país e hoje registra faturamento anual de R$ 110 milhões.
Porém, para se manter de pé e em expansão, a operação da rede precisou mudar nos últimos anos, de olho nas alterações de consumo dos brasileiros: maior preocupação com a saúde, uso de canetas emagrecedoras, renda mais apertada e menos álcool e açúcar.
Em entrevista ao Seu Dinheiro, o empreendedor explicou a história de três décadas da companhia e diz como a Água Doce Sabores do Brasil combina tradição com adaptação para continuar em crescimento.
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A virada para o empreendedorismo
Na cidade de Tupã, a 514 quilômetros da capital de São Paulo e com 60 mil habitantes, nasceu a primeira unidade da Água Doce Sabores do Brasil.
A empresa foi criada graças à afinidade de Golfeto com a cana-de-açúcar, que surgiu desde a adolescência, quando trabalhava como boia-fria em fazendas, até mais tarde quando esteve em cargos de liderança em usinas sucroalcooleiras.
“Na minha vida toda sempre fui apaixonado pela cultura da cana. Pude me profissionalizar nesse setor que, na época, não existiam muitos técnicos, então era um profissional disputado e consegui crescer na carreira. Trabalhei por décadas em agroindústrias e cheguei a virar gerente de unidades”, relembra.
Porém, devido ao cansaço após anos de trabalho formal e sem perspectiva na rotina repetitiva, Golfeto deu uma virada na carreira e migrou do cargo de gerente agroindustrial para empreendedor de uma cachaçaria.
“Todo mundo me chamou de louco no início. A cachaça era uma bebida muito marginalizada, que remetia somente a botequinhos de esquina. Mas eu tinha a segurança do meu trabalho.”
Mesmo assim, ele insistiu na ideia e abriu, na garagem de casa, um pequeno espaço com uma seleção de cachaças, desde as mais conhecidas no mercado até as consideradas mais “premium”, com valores equivalentes a cerca de R$ 900 por garrafa na cifra atual. No mesmo espaço, abriu um pequeno restaurante para vender porções.
Para comprar o estoque inicial, o empreendedor vendeu o próprio carro e o da esposa.
Nem tudo foram flores no início. Em uma cidade com poucos habitantes, o fundador precisou fazer um trabalho de marketing boca a boca para mostrar a operação para os consumidores e reeducá-los sobre os estigmas que existiam sobre cachaça.
Além disso, houve um período de forte aperto financeiro: nos três primeiros anos da operação, os resultados foram negativos, mas o empreendedor insistiu e arrumou a casa aos poucos até encontrar um ponto de equilíbrio.
“Era um período de hiperinflação. Tínhamos que remarcar o cardápio a lápis e correr para o supermercado para estocar produtos. No início, nós só sobrevivemos porque tinha uma relação de confiança com gerentes de banco que acreditavam no projeto e concediam crédito”, relembra.
Ao longo do tempo, a operação se ajustou e os consumidores se interessaram pela empresa. Mas além da atenção dos clientes, a Água Doce passou a atrair candidatos — muitos já conhecidos de Golfeto — em replicar o modelo, o que levou às franquias.
A expansão com o modelo de franquias começou em 1995 e, agora, a empresa está presente em estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país.
Menos consumo, Ozempic e rotina saudável
O negócio que se consolidou ao longo de 36 anos não está imune às transformações do mercado. O fundador reconhece que a Água Doce Sabores do Brasil hoje lida com diferentes desafios, tanto econômicos quanto de adaptações de consumo.
Dentre os fatores que impactam a companhia atualmente estão, por exemplo, o cenário macroeconômico mais difícil, com uma taxa Selic de 14% que comprime o consumo das famílias, e o aumento das plataformas de apostas, que compromete o orçamento dos brasileiros.
Mas os principais estão diretamente relacionados ao setor de alimentos e bebidas: o uso de canetas emagrecedoras e a tendência de diminuição do consumo de álcool e açúcar.
Diante dessas questões, a empresa precisou olhar para dentro de casa e decidir o que poderia ser feito para não ficar para trás.
“A tradição é dinâmica e deve ser pensada para quem vem no futuro. A única forma de perpetuar uma história é através da inovação”, defende Julio Bertolucci, diretor de franquias da marca.

Nos últimos dois anos, pensando principalmente em atender consumidores que não gostam de bebidas alcóolicas, a marca tem migrado do posicionamento de cachaçaria para o de restaurante.
Foco em produtos mais acessíveis
A nova estratégia exigiu um ajuste de preços. Diferentemente de como nasceu, com produtos de alto valor agregado, a empresa agora oferece bebidas mais acessíveis — porém, ainda selecionadas — para o estoque não ficar parado.
“Clientes que antes frequentavam a loja três vezes por semana agora vão apenas uma devido à situação econômica ou novos estilos de vida. Isso forçou a rede a oferecer opções de tíquete menor”, diz o diretor de franquias.
"Com a mudança recente, passamos a oferecer drinks sem álcool e sem açúcar. Tivemos que contratar um mixologista para repensar o nosso cardápio e fizemos adaptações nas comidas também.”
As adaptações no cardápio de comidas
Em paralelo à redução de consumo do álcool, há também a diminuição da alimentação com a chegada das canetas emagrecedoras — como Ozempic e Mounjaro — e estilos de vida mais saudáveis.
Desde a criação, a Água Doce combina a venda de bebidas com os petiscos de culinária tradicionalmente interiorana, como escondidinho (carro chefe da rede), carne de sol, baião de dois, mandioca e pratos típicos regionais de cada unidade.
Com a tendência de emagrecimento, a empresa percebeu que precisaria fazer adaptações nesse sentido.
“Nossas porções sempre foram muito fartas, pensadas para a socialização. Começamos a oferecer pratos menores e individuais, além de opções com mais proteína pensando nesse público”, explica Bertolucci.
Com mudanças em curso, quais são os planos agora?
Após arrumar a casa, a companhia afirma que já sente os efeitos no bolso.
Embora não divulgue as cifras, a frente de bebidas sem álcool da rede registra um crescimento de 40% no faturamento em relação ao último ano.
Além disso, a expectativa para 2026 é de que a receita de todo o grupo aumente 15% como consequência das mudanças implementadas nos últimos anos.
Pensando no futuro, a expectativa da franqueadora é continuar com os planos de adaptação de consumo e crescer por meio de novos modelos de unidades que demandam investimento menor.
Assim como os consumidores vivem um período financeiro mais apertado, investidores interessados em abrir uma unidade apresentam a mesma queixa, explica a companhia.
Por isso, a Água Doce tem modelos mais enxutos, como o Express, focado em galerias e praças de alimentação, o Compacto, para restaurantes de rua com até 30 mesas, e a operação totalmente em delivery.
“Restaurantes muito grandes custam pelo menos R$ 3 milhões para o investidor, isso assusta. Por isso nosso foco tem sido as unidades menores”, diz Golfeto.
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