Da Chapada Diamantina ao Caparaó, conheça destinos para viver a cultura do café brasileiro de perto
Um guia por fazendas, rotas turísticas e experiências que revelam como nascem alguns dos melhores cafés do país

Maior produtor de café do planeta, o Brasil movimentou, apenas nos sete primeiros meses de 2025, cerca de US$ 9 bilhões em vendas externas. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na safra do último ano, mais de 55 milhões de sacas foram beneficiadas no país e, desse total, aproximadamente 63% correspondem ao café arábica.
É dessa espécie, a Coffea arabica, que é produzida a maior parte dos cafés especiais, setor no qual o país, aliás, é destaque. Para receber essa classificação, de acordo com a Specialty Coffee Association, o café precisa alcançar ao menos 80 pontos em uma escala de 0 a 100, em análises conduzidas por provadores certificados.

E a valorização da origem, do manejo e do perfil sensorial dos grãos resgatou uma experiência turística que não é exatamente novidade: visitar regiões produtoras, mas também acompanhar de perto o caminho do café, da lavoura à xícara. Nos últimos meses, inclusive, surgiram boas novidades.
Um exemplo é a Rota de Experiências Caparaó Mineiro, projeto lançado em outubro pela Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais, que reúne atividades em 13 fazendas da região que é a nova queridinha dos cafés especiais. Mais ao sul, a Rotas do Café de São Paulo surge em abril, reunindo 57 atrativos turísticos ligados ao café em 25 municípios paulistas, inclusive com cinco rotas inéditas.
Em conversas com profissionais da área, reunimos os destinos de onde estão saindo os melhores cafés brasileiros e as paradas obrigatórias em cada um.
Alto Caparaó: Rota de Experiências Caparaó Mineiro
Na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, a região do Alto Caparaó é atualmente um dos polos mais interessantes da nova cafeicultura brasileira. Situada nas encostas do Parque Nacional do Caparaó, a área reúne lavouras cultivadas em altitudes elevadas e cercadas pela Mata Atlântica, fatores que favorecem a complexidade dos grãos.
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Nos últimos anos, produtores locais passaram a investir em cafés especiais e abrir suas propriedades para visitantes. Um dos projetos que organiza essa oferta é a já citada Rota de Experiências Caparaó Mineiro, criada para integrar fazendas nos municípios de Alto Caparaó, Alto Jequitibá, Caparaó e Espera Feliz. A iniciativa reúne 13 vivências, que incluem visitas a lavouras, workshops de torrefação e degustações guiadas.

Entre as paradas mais conhecidas está a Fazenda Ninho da Águia, próxima à entrada do Parque Nacional do Caparaó, propriedade de 55 hectares com cafezais cultivados em sistema agroecológico.
O projeto tem liderança do produtor Clayton Barrossa Monteiro, que transformou a fazenda em referência na produção de cafés especiais. Os grãos são conhecidos pelo perfil sensorial complexo, resultado do cultivo em altitude e da secagem natural em terreiros suspensos. A qualidade já rendeu diversos prêmios nacionais, inclusive o primeiro lugar no Coffee of the Year Brasil em 2014 e 2015.
A visita é uma experiência curta e informal que apresenta aos visitantes o universo do café especial produzido na propriedade. Ao final, há degustação dos cafés produzidos na propriedade, acompanhada de quitutes caseiros, como o famoso bolo de banana, por exemplo. Notícia boa é que a visita gratuita e aberta ao público nos dias e horários de atendimento da fazenda: das 9h às 17h aos domingos, segundas e sextas; e das 13h às 17h às terças, quintas e sábados. Visitas e reservas ocorrem via WhatsApp (32) 98431-8230.
Mantiqueira de Minas: Rota do Café Especial
Impossível não citar a Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, uma das regiões mais premiadas da cafeicultura brasileira. Por lá, a parada obrigatória é em Carmo de Minas, onde está a histórica Fazenda do Sertão.
A propriedade tem raízes no início do século 20, quando os bisavós da família Pereira começaram a cultivar café na região. Ao longo de quatro gerações, a propriedade manteve viva a tradição cafeeira e, atualmente, coleciona uma impressionante lista de prêmios.

O maior destaque veio em 2005, quando um lote de Bourbon Vermelho alcançou 95,85 pontos no Cup of Excellence, a maior nota já registrada na história da competição. No mesmo ano, os produtores conquistaram sete colocações no concurso, incluindo o primeiro, segundo e terceiro lugares.
A visita acontece por meio da Rota do Café Especial, organizada pela Unique Cafés, em diversos formatos. A experiência principal, chamada Do Pé à Xícara, percorre as lavouras com paradas em mirantes e explicações sobre cada etapa da cadeia produtiva, do cultivo à bebida final. O passeio, que pode ser realizado em veículo 4x4 ou transporte coletivo, dura cerca de quatro horas e termina com uma degustação de cafés acompanhados de comidinhas regionais.
Outra opção é o tour guiado na torrefação da marca, que revela os bastidores da torra e da preparação dos grãos até chegarem à xícara, além de degustação comentada. Já a vivência Loucos por Café propõe um dia inteiro no universo da produção: os visitantes acompanham atividades no campo, como colheita seletiva e processos de secagem, passam pelo armazém e pela classificação dos grãos e finalizam com diferentes provas de café.

As datas e preços variam de acordo com o tour, que podem ser verificados no em uniquecafes.com.br/rota-do-cafe.
Chapada Diamantina: Rota dos Cafés Especiais
O café brasileiro viaja inclusive ao nordeste, onde a Chapada Diamantina é a estrela. Em 2024, os grãos da região conquistaram o reconhecimento de Denominação de Origem pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, certificação que valoriza o saber fazer local, incluindo práticas como a colheita manual e a secagem em terreiros cobertos.
Para destacar a produção local, o Sebrae Bahia apresentou em setembro, durante a 21ª edição da Rural Tur, as Rotas Especiais da Chapada Diamantina, roteiros temáticos que unem agroturismo, cultura, gastronomia. Entre eles, está a Rota dos Cafés Especiais, que percorre fazendas em Mucugê, Ibicoara e Piatã.

Durante as visitas, turistas percorrem as lavouras, acompanham o processo de secagem dos grãos e participam de degustações conduzidas pelos próprios produtores. Muitas vezes, a experiência inclui café preparado na hora, servido com bolos e comidinhas típicas da região.
"O melhor café do mundo"
Parada de destaque é na Fazenda Matos, da produtora Tadeane Matos, em Ibicoara, onde é produzido o Café Igaraçu. “Nossa missão como produtores de cafés especiais é mostrar ao brasileiro que café não é apenas uma bebida quente para se manter acordado. Merecemos tomar um café de qualidade e precisamos entender que o Brasil é terra do melhor café do mundo”, disse proprietária à ocasião.
A visita guiada dura cerca de duas horas e apresenta todo o percurso do café. Conduzido por Matos, o passeio começa com uma introdução sobre a história da fazenda e da produção cafeeira na região, seguida por uma caminhada pelos cafezais, onde são explicadas as variedades cultivadas, as condições de altitude e clima da serra e as práticas de manejo e colheita que influenciam a qualidade do grão.
Na sequência, os visitantes acompanham as etapas do processamento após a colheita, incluindo beneficiamento, secagem, armazenamento e torra em pequena escala, entendendo como cada fase impacta o perfil final da bebida. O tour termina com uma degustação guiada dos cafés da marca preparados em diferentes métodos. As visitas custam R$ 120 por pessoa e acontecem aos finais de semana, das 9h às 16h, sempre mediante agendamento pelo site.
Cerrado Mineiro: Rota do Café do Cerrado Mineiro
No interior de Minas Gerais, a Rota do Café do Cerrado Mineiro reúne algumas das fazendas responsáveis por colocar o Brasil no mapa global dos cafés especiais. Primeira região do país a conquistar uma Denominação de Origem para o produto, o Cerrado Mineiro construiu, em pouco mais de 50 anos, uma reputação internacional baseada em tecnologia no campo, alta produtividade e rigor na qualidade dos grãos.
O roteiro passa por cidades como Patrocínio, Patos de Minas, Cruzeiro da Fortaleza e Carmo do Paranaíba. Em todo o trajeto, inclui visitas a fazendas produtoras, torrefações e cafeterias. São degustações, workshops e encontros com produtores. Cada etapa apresenta ao visitante as etapas do cultivo ao preparo da bebida, em meio às paisagens do bioma do Cerrado.
Em Patrocínio, a parada obrigatória é na Fazenda Santa Cruz da Vargem Grande. Ela é nada menos que a primeira produtora de café no mundo a receber a certificação de agricultura regenerativa da Regenagri. Por lá, acontece o Tour Café & Natureza, que inclui visita guiada pelas plantações, degustação de cafés especiais e até plantio de árvores.

Laboratório a céu aberto
Também vale (e muito!) a visita à Fazenda Três Meninas, em Monte Carmelo, que vem chamando atenção por apostar em um modelo de cafeicultura regenerativa. A propriedade passou por uma transformação a partir de 2016, quando começou a recuperar o solo e reduzir o uso de insumos químicos. Desde então, adota práticas como biofertilizantes, cobertura vegetal e manejo mais natural das lavouras.
Atualmente, ela funciona quase como um laboratório a céu aberto para novas formas de produzir café, combinando qualidade do grão com cuidado ambiental. Entre as iniciativas estão o plantio de árvores nativas e sistemas agroflorestais. Além disso, há ações de troca de conhecimento com produtores e estudantes interessados em modelos de cultivo mais sustentáveis.
Quem visita participa inclusive da experiência Imersão Cerrado Mineiro. Trata-se de um tour guiado que apresenta de perto as práticas regenerativas aplicadas na propriedade e o papel do café na recuperação do ecossistema local. As visitas se dedicam principalmente a grupos e requerem agendamento.
Montanhas Capixabas
Nas Montanhas Capixabas, no Espírito Santo, o café ganhou uma nova rota turística que coloca em destaque a produção de grãos de altitude da região do Caparaó. Batizado de Experiência com Cafés de Origem Caparaó, o roteiro nos coloca para conhecer de perto a cultura cafeeira local. Atualmente, o lugar é lar de cafés especiais notáveis dentro e fora do país.
Vale não confundir com a Rota de Experiências Caparaó Mineiro, que acontece do lado de Minas Gerais. Embora ambas celebrem os cafés de altitude da mesma cadeia de montanhas, são iniciativas diferentes e organizadas em estados distintos.
No lado capixaba, o projeto conecta cerca de dez empreendimentos em municípios como Dores do Rio Preto, Divino de São Lourenço, Ibitirama, Irupi e Iúna. Com isso, abre pequenas propriedades e cafeterias rurais para visitas, degustações e vivências ligadas ao café. São caminhadas pelas lavouras, visita ao terreiro, acompanhamento da torra artesanal, e conversas com produtores locais.
“O que se busca é disponibilizar ao público que frequenta a região a oportunidade de vivenciar uma experiência genuína, à sua escolha. Todas criadas, aliás, pelos próprios produtores de cafés especiais do Caparaó”, conta Leonardo Ferreira, analista da regional do Sebrae/ES.
Entre as paradas, duas fazendas em Divino de São Lourenço ajudam a entender por que os cafés do Caparaó vêm acumulando prêmios nacionais.

No Café Cantinho da Floresta, uma família cultiva café há mais de um século no mesmo solo. Ela mesma conduz por um tour completo, da lavoura à degustação. Já no Sítio Campo Azul, o encontro é com o produtor Paulo Roberto Alves, premiado na edição Coffee of The Year 2024. A visita inclui provas de cafés especiais e acompanha os quitutes caseiros da região.
* Com informações da Agência Sebrae
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