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FÉRIAS SEM PERRENGUE

Saúde na viagem: como prevenir viroses e intoxicações — e agir diante dos primeiros sintomas

Surto de norovírus em Portugal colocou as viroses em evidência; veja quais cuidados ajudam a evitar infecções durante as férias e como agir caso você adoeça

Kit de sobrevivência. Diferentes suprimentos de emergência em mesa de luz
Além do passaporte: os cuidados de saúde que todo viajante deveria tomar antes de embarcar - Imagem: iStock/Olga Yastremska

Quem está de viagem marcada para Portugal ganhou um motivo extra para redobrar os cuidados. Um surto de norovírus infectou 122 pessoas nos últimos dias em Caldas da Rainha, segundo autoridades locais. Altamente contagioso, o vírus está entre as principais causas de gastroenterite aguda no mundo e costuma provocar vômitos e mal-estar.

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Mas a boa notícia é que um surto como esse não significa, necessariamente, quea viagem deva ser cancelada. Na maioria dos casos, medidas simples de higiene, atenção à procedência da água e dos alimentos e alguns cuidados extras são suficientes para reduzir bastante o risco de infecção.

E o alerta não vale apenas para o norovírus. Quem viaja também fica mais exposto a viroses respiratórias, como gripe e resfriados, principalmente em locais fechados e com grande circulação de pessoas.

Para entender como se proteger — e saber o que fazer caso os sintomas apareçam durante as férias —, o Seu Dinheiro Lifestyle conversou com o Dr. Alexandre Naime Barbosa, médico infectologista e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Seu Dinheiro: Antes de tudo, quais são as viroses mais comuns de se contrair durante viagens?

Dr. Alexandre Barbosa: Quando o assunto é viagem, dois grandes grupos de viroses concentram a maior parte das preocupações. O primeiro é o das viroses respiratórias, que incluem gripe (influenza), COVID-19 (SARS-CoV-2) e o resfriado comum, causado por vírus como rinovírus, adenovírus e vírus sincicial respiratório.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, essas infecções são transmitidas principalmente por gotículas, aerossóis e pelo contato das mãos com secreções respiratórias, motivo pelo qual ambientes fechados e com grande circulação de pessoas, como aeroportos, ônibus, hotéis e cruzeiros, favorecem sua disseminação.

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O segundo grupo é formado pelas viroses gastrointestinais, responsáveis pela gastroenterocolite aguda, conhecida popularmente como gastroenterite viral. Os principais agentes são norovírus, rotavírus, adenovírus entéricos, astrovírus e sapovírus.

De acordo com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e a OMS, esses vírus costumam ser transmitidos pela chamada via fecal-oral, seja por alimentos e água contaminados, seja por mãos ou superfícies contaminadas. Por isso, locais onde muitas pessoas compartilham refeições ou espaços comuns, como resorts, buffets e navios de cruzeiro, podem facilitar surtos quando as medidas de higiene não são rigorosamente seguidas.

Seu Dinheiro: Quais cuidados podem reduzir o risco de contrair viroses respiratórias durante uma viagem?

Dr. Alexandre Barbosa: Para reduzir o risco de infecções respiratórias, o Ministério da Saúde e a OMS reforçam a importância de manter a vacinação em dia, especialmente contra influenza e COVID-19.

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  • Outra dica prática é lembrar que o vírus “pega carona” nas mãos. Assim, lavar as mãos com água e sabão sempre que possível continua sendo a estratégia mais eficaz. Quando isso não for viável, soluções alcoólicas ajudam bastante.

Em ambientes muito fechados ou durante períodos de maior circulação viral, o uso de máscara por pessoas com maior risco de complicações pode ser considerado. Além disso, procure evitar contato próximo com pessoas sintomáticas sempre que possível.

Seu Dinheiro: E como prevenir viroses gastrointestinais?

Dr. Alexandre Barbosa: Já para prevenir as gastroenterites virais, o principal cuidado é quebrar a cadeia de transmissão fecal-oral. Isso significa consumir água de procedência segura, dar preferência a alimentos bem cozidos e preparados na hora, higienizar as mãos antes das refeições e após usar o banheiro, além de evitar alimentos crus ou mal-conservados quando houver dúvidas sobre as condições sanitárias do local.

pessoa lavando as mãos na pia de banheiro
Higienizar as mãos é fundamental para prevenir doenças - Imagen: CanvaPro

Seu Dinheiro: Quais os alimentos mais seguros para serem consumidos nas férias?

Dr. Alexandre Barbosa: Em relação aos alimentos, a orientação clássica continua válida: consumir preferencialmente alimentos bem cozidos e servidos ainda quentes. Carnes, frutos do mar, ovos e outros produtos de origem animal mal-cozidos oferecem maior risco quando preparados ou armazenados inadequadamente.

Alimentos crus, como saladas, frutas já descascadas e molhos preparados com antecedência, também merecem atenção quando não há confiança nas condições de higiene do estabelecimento. O mesmo vale para buffets em que os alimentos permanecem por muitas horas fora da temperatura ideal.

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Buffet internacional no hotel para reuniões e seminários, jantar juntos.
Atenção para buffets em viagens - Imagem: iStock/0802290022

Seu Dinheiro: E os líquidos? Também merecem atenção?

Dr. Alexandre Barbosa: Principalmente em viagens internacionais ou para regiões com condições sanitárias desconhecidas, a água também exige alguns cuidados. O Ministério da Saúde e o CDC recomendam dar preferência à água engarrafada e lacrada ou à água previamente fervida ou tratada. Além disso, bebidas industrializadas e servidas em embalagens fechadas costumam ser seguras.

O gelo merece um alerta especial. Isso porque muitas pessoas se preocupam apenas com a bebida, mas esquecem que o gelo pode ter sido produzido com água contaminada.

Seu Dinheiro: Suponhamos que o viajante contraiu uma virose gastrointestinal e apresente sintomas. O que ele deve fazer?

Dr. Alexandre Barbosa: Na maioria das vezes, as gastroenterites virais são autolimitadas e melhoram espontaneamente em um período de um a três dias. O principal risco não é o vírus em si, mas a desidratação causada pela perda de líquidos e sais minerais. Por isso, a primeira medida deve ser iniciar imediatamente uma boa hidratação, com pequenas quantidades de líquido ingeridas várias vezes ao dia, mesmo que ainda existam episódios de vômitos.

O soro de reidratação oral, recomendado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde, continua sendo a melhor opção quando há diarreia mais intensa, porque repõe água e eletrólitos na proporção adequada.

Outro ponto importante é manter uma alimentação leve, conforme a tolerância do paciente. Não há necessidade de jejum prolongado, que pode até retardar a recuperação. Devem ser evitadas bebidas alcoólicas e o excesso de refrigerantes ou bebidas muito açucaradas, que podem piorar a diarreia em algumas situações.

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Também evite utilizar antibióticos por conta própria, já que a maioria desses quadros é causada por vírus e não por bactérias. Da mesma forma, medicamentos para interromper a diarreia devem ser usados apenas em situações específicas e, de preferência, com orientação médica.

Seu Dinheiro: Quando ir ao hospital?

Dr. Alexandre Barbosa: A maior parte dos adultos saudáveis evolui bem apenas com hidratação e repouso. No entanto, alguns sinais indicam que a avaliação médica não deve ser adiada.

É o caso de diarreia intensa ou persistente por mais de dois ou três dias, vômitos que impedem a ingestão de líquidos, presença de sangue nas fezes, febre alta, dor abdominal intensa, redução importante do volume urinário, tontura ao ficar em pé, sonolência excessiva ou qualquer sinal de desidratação. Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas ou imunossupressão merecem atenção ainda maior, pois podem desidratar mais rapidamente.

Portanto, antes de viajar, especialmente para o exterior, é recomendável conhecer a estrutura de saúde do destino e contratar um bom seguro-saúde. Esses cuidados parecem simples, mas frequentemente são os que fazem maior diferença quando surge um problema inesperado.

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Seu Dinheiro: Um surto no destino é motivo para cancelar a viagem?

Dr. Alexandre Barbosa: Na grande maioria das situações, um surto isolado não é motivo para cancelar uma viagem. O mais importante é entender como a doença é transmitida e quais medidas de prevenção são eficazes.

Assim, antes de qualquer decisão, vale consultar os comunicados das autoridades de saúde do país de destino, do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e, quando disponível, do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) ou do CDC.

Muitas vezes, a notícia de um surto gera preocupação, mas ele pode estar restrito a uma cidade, a um hotel, a um navio de cruzeiro ou a uma instituição específica, sem representar um risco significativo para quem fará uma viagem comum.

No caso do norovírus, por exemplo, a transmissão ocorre principalmente por alimentos, água, mãos e superfícies contaminadas. Isso significa que, mantendo cuidados rigorosos com higiene, consumo de água segura e escolha adequada dos alimentos, o risco individual pode ser reduzido de forma importante.

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Seu Dinheiro: Em uma situação de viagem em grupo, o que fazer se um dos integrantes adoecer?

Dr. Alexandre Barbosa: A primeira atitude deve ser tentar identificar se o quadro é predominantemente respiratório, com febre, tosse, dor de garganta e congestão nasal, ou gastrointestinal, caracterizado por náuseas, vômitos e diarreia.

  • Nas viroses respiratórias, a pessoa doente deve, sempre que possível, permanecer em um quarto bem ventilado, usar máscara ao sair ou permanecer em ambientes compartilhados, cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar e higienizar frequentemente as mãos. Também é recomendável evitar compartilhar copos, talheres, garrafas e toalhas.
  • Nas gastroenterites virais, a pessoa com vômitos ou diarreia não deve preparar alimentos para o restante do grupo enquanto estiver doente (e, idealmente, por pelo menos 48 horas após o desaparecimento dos sintomas, período em que ainda pode eliminar vírus nas fezes). Banheiros compartilhados devem ser higienizados com frequência, principalmente vaso sanitário, pia, maçanetas e outras superfícies tocadas com frequência.

Dica bônus: itens que não podem faltar no kit de saúde do viajante, segundo o Dr. Alexandre

Uma mulher coloca pílulas em uma mala. Conceito de medicação necessária na viagem
Ki saúde - Imagem: Mukhina1/iStock

Dr. Alexandre Barbosa: O kit de viagem deve reunir itens capazes de aliviar sintomas leves até que a pessoa se recupere ou consiga procurar atendimento médico. Entre os principais, estão:

  • Soro de reidratação oral: a melhor estratégia para prevenir e tratar a desidratação causada por diarreia e vômitos;
  • Termômetro: permite acompanhar a evolução da febre;
  • Antitérmico e analgésico de uso habitual: para aliviar febre, dor de cabeça e mal-estar;
  • Medicamentos de uso contínuo: em quantidade suficiente para toda a viagem;
  • Álcool em gel: para higienizar as mãos quando não houver água e sabão disponíveis;
  • Remédio para náuseas e vômitos: apenas se já tiver sido orientado por um médico;
  • Antialérgico: para reações leves;
  • Solução salina para lavagem nasal: útil em casos de coriza e congestão nasal;
  • Máscaras: especialmente para quem apresentar sintomas respiratórios e precisar permanecer em ambientes compartilhados.
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