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Amado e odiado na mesma proporção, o Tabi, inspirado em um calçado tradicional japonês e transformado em ícone do luxo por Martin Margiela nos anos 1980, divide opiniões

Ele já foi chamado de "pata de cavalo", "casco de bode" e até de "o sapato mais feio do mundo". Basta uma celebridade aparecer usando um par de Tabi para que os comentários nas redes se dividam entre admiração e estranhamento. Enquanto uns defendem o calçado como uma obra de arte, outros questionam como alguém pagaria até R$ 17 mil por algo que lembra uma ferradura nos pés.
Essa polarização, no entanto, faz parte da identidade do modelo. O sapato, caracterizado pela divisão entre o dedão e os demais dedos do pé, chama a atenção pelo design incomum que desafia os padrões tradicionais da moda.

Embora pareça uma criação recente, a história do Tabi começou muito antes das passarelas de luxo. Suas origens remontam ao Japão do século 15 e ganharam uma releitura pelas mãos do estilista belga Martin Margiela, no fim dos anos 1980.
No Brasil, o modelo voltou aos holofotes no início deste ano, quando o ator Wagner Moura surgiu usando um par de Tabi no Globo de Ouro de 2026. Celebridades como Zendaya, Dua Lipa, Olivia Rodrigo e Bad Bunny também já incorporaram diferentes versões do Tabi ao guarda-roupa.

Para o stylist Henrique Sca, que tem dois pares Tabi comprados na boutique de Paris da maison, parte da controvérsia está ligada ao fenômeno conhecido como "ugly fashion", tendência que ganhou força na última década e transformou peças consideradas estranhas em objetos de desejo e identidade.
Assim como aconteceu com os Crocs ou os tênis ‘dad shoes', "o Tabi desafia a ideia de que um produto precisa ser convencionalmente bonito para se tornar desejado", diz. "Na moda, esse tipo de peça também funciona como um marcador de identidade. Quem usa um Tabi dificilmente passa despercebido e as pessoas estão cada vez mais buscando formas de se diferenciar", completa.
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A popularidade do Tabi chegou, inclusive, a render episódios dignos de roteiro de comédia. Em 2023, a stylist Alexis Dougé (@nextlevellexuss) viralizou no TikTok ao contar que um date do Tinder roubou seu par de Maison Margiela Tabi Mary Jane para presentear a própria namorada.

Antes de chegar às vitrines da Maison Margiela, porém, o Tabi já fazia parte do cotidiano japonês. Os primeiros tabi surgiram entre os séculos 15 e 16 como meias confeccionadas com uma separação para o dedão. Esse formato permitia o uso das tradicionais sandálias zori e geta, presas aos pés por uma tira entre o primeiro e o segundo dedo – que lembra nosso popular chinelo.
No início do século 20, fabricantes japoneses adaptaram a ideia e criaram o jika-tabi, uma versão com sola de borracha voltada para trabalhadores da construção civil, agricultores e jardineiros. A separação dos dedos melhorava o equilíbrio, aumentava a aderência ao solo e proporcionava mais estabilidade durante o trabalho.
Ainda hoje, esse tipo de calçado continua presente em algumas atividades tradicionais no Japão e também é utilizado por praticantes de artes marciais e festivais culturais.

A história do Tabi na alta moda começou em 1988, quando Martin Margiela preparava sua primeira coleção à frente da recém-criada Maison Martin Margiela.
Segundo o próprio estilista, durante uma viagem a Tóquio com um grupo de designers, entre eles Dries Van Noten e Dirk Bikkembergs, Margiela observou trabalhadores usando os tradicionais jika-tabi de algodão. "Você consegue imaginar o estresse que é criar um sapato que ninguém nunca viu antes? Você fica um pouco louco. Minha memória volta ao dia em que fui a Tóquio pela primeira vez. Nós vimos trabalhadores na rua usando meias tabi de algodão. Eu pensei: 'Por que eu não deveria fazer um sapato Tabi macio, mas com salto alto?'. Foi assim que a ideia nasceu", contou o estilista no documentário Martin Margiela: In His Own Words (2019).
A estreia do modelo aconteceu na coleção primavera-verão de 1989 e entrou imediatamente para a história da moda. Naquele desfile, as modelos caminharam sobre um piso branco embebido em tinta vermelha, deixando pegadas divididas que reforçavam o formato peculiar do sapato. A performance ajudou a consolidar o Tabi como uma das imagens mais marcantes da moda do século XX.


O próprio Martin Margiela sempre cultivou uma aura de mistério. Ao contrário da maioria dos grandes estilistas, ele evitava entrevistas, recusava fotografias e raramente aparecia ao final dos desfiles. Mesmo quando comandava sua marca, preferia permanecer nos bastidores.
Depois de deixar oficialmente a Maison Martin Margiela, em 2009, o designer praticamente desapareceu da vida pública. No documentário lançado dez anos depois, por exemplo, ele nunca mostra o rosto. O filme apresenta apenas sua voz e suas mãos, preservando o anonimato que se tornou parte de sua identidade criativa.

Nas décadas seguintes, o Tabi deixou de ser só um sapato conceitual para se tornar um dos maiores símbolos da Maison Margiela. Hoje, a marca produz dezenas de versões: botas, sapatilhas, mocassins, sapatos sociais, sandálias, tênis e até modelos masculinos.
Os preços acompanham o posicionamento de luxo da grife, que não faz promoções do modelo para manter sua exclusividade. No Brasil, o preço varia dependendo da versão Tabi. Um par de botas cano alto Margiela, por exemplo, pode ultrapassar R$ 17 mil, enquanto uma sapatilha começa na faixa de R$ 9 mil.
O sucesso do Tabi também abriu espaço para uma onda de releituras e diversas marcas passaram a explorar a estética. No Brasil, a Argui lançou sua interpretação do modelo, enquanto a Pace apresentou, em 2025, o tênis Yoshi's Tabi. Até a Nike tem uma versão, o Nike Air Rift.
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