Gringo tira o time de campo na América Latina e BofA diz o que falta para o Brasil virar o jogo na bolsa
Segundo David Beker, estrategista-chefe do Bank of America para a América Latina, o Brasil tem tudo o que o mundo quer e precisa para as próximas décadas — o problema é puramente de marketing e execução

Se você estava esperando que o fluxo de capital estrangeiro salvasse a bolsa brasileira neste segundo semestre, é melhor recalibrar as expectativas. Em um balanço realista (e ligeiramente amargo) sobre o cenário regional, David Beker, estrategista-chefe do Bank of America (BofA) para a América Latina, avisa: o gringo está reduzindo a exposição em praticamente todos os ativos da região.
O diagnóstico de Beker para a América Latina mistura ruídos políticos, uma pitada de distração futebolística e um grande balde de água fria monetário.
Segundo ele, atualmente, o investidor dedicado em ativos latinos se tornou uma espécie em extinção — a maior parte do dinheiro que entra ou sai vem de fundos globais de mercados emergentes que operam via índices.
Brasil: muito potencial, poucos gatilhos
Beker aponta um descompasso claro entre o potencial de longo prazo e a realidade imediata da bolsa brasileira.
Para o estrategista, o Brasil tem tudo o que o mundo quer e precisa para as próximas décadas: energia limpa, minerais raros e commodities em abundância.
O problema, segundo ele, é puramente de marketing e execução. “A questão é empacotar para vender”, afirma.
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Segundo Beker, no curto prazo, faltam gatilhos para destravar valor na bolsa por três motivos principais.
O primeiro deles é que as expectativas de lucros das empresas para o próximo ano estão excessivamente altas — projeta-se um crescimento de 40% nos lucros (desconsiderando commodities e o setor financeiro). É uma barra difícil de alcançar.
Além disso, o mercado desenhou o ano esperando um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mais robusto associado a uma queda consistente da taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano. Agora, o cenário mudou.
"Não tem nada disso", disse ele em referência ao nível ainda restritivo dos juros.
Beker lembra que mesmo após as correções recentes, a bolsa brasileira ainda não é vista como uma barganha imperdível pelos gringos.
O Ibovespa saiu dos quase 200 mil pontos no início do ano para os atuais 174 mil pontos, e apagou boa parte dos mais de 20% de ganho acumulado no ano para modestos 8% agora.
Para complicar, o fluxo global de capital está sendo abduzido pela explosão da inteligência artificial nos mercados desenvolvidos e pelas taxas de juros norte-americanas, que continuam elevadas.
O gringo, o Lula e a trave da Copa
Quando o assunto é a eleição presidencial no Brasil, Beker traz um contraponto interessante à habitual ansiedade do mercado doméstico: o investidor estrangeiro não tem medo do presidente Lula.
Como o mercado internacional já conhece o histórico e as diretrizes do atual governo, a volatilidade política interna faz parte do cardápio padrão, especialmente em um ambiente de forte aversão a risco global.
Segundo Beker, o mercado já está operando e precificando o cenário eleitoral, mas ainda é cedo para montar posições estruturais fortes. E o motivo é simples: a Copa do Mundo.
Segundo ele, o torneio dispersou as atenções e diminuiu a confiabilidade das pesquisas de rastreamento (tracking) eleitoral — fica difícil cravar tendências sólidas enquanto o país está de olho no campo.
O vento frio no México
Os dois principais destinos de investimentos na América Latina — Brasil e México — estão patinando em seus próprios dilemas econômicos e políticos. E a situação mexicana acendeu um sinal amarelo importante.
Segundo Beker, o México enfrenta o risco real de entrar em um ciclo de rebaixamento por agências de classificação de risco, podendo perder o cobiçado investment grade (grau de investimento), a nota mais alta neste tipo de métrica e que ajuda a abri portas para o investimento estrangeiro.
Para piorar, o acordo comercial com os EUA e o Canadá (USMCA) deveria ter sido estendido por mais um ano em junho, uma formalidade que costuma ocorrer anualmente e não aconteceu.
"Sem essa renovação automática, abre-se uma janela de forte incerteza para o planejamento de longo prazo e para o investimento das empresas mexicanas”, diz Beker.
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Brasil tem vizinhos charmosos, mas sem liquidez
O investidor tem olhado com carinho para os países vizinhos do Brasil que passaram por eleições recentes, como é o caso de Colômbia e Peru.
“Há um entendimento de que a agenda política por lá caminha para um lado mais em favor do mercado, gerando uma tese interessante de crescimento”, afirma Beker.
Além disso, o estrategista lembra que o Chile surfou um rali no ano passado puxado pelo cobre, e a Argentina ensaia atrair interesse focado em grandes projetos de óleo e gás.
No entanto, ele lembra que há um teto físico para o entusiasmo: esses mercados são pequenos demais — não têm liquidez ou quantidade de ações suficientes na bolsa para compensar o tamanho e o peso de um Brasil ou de um México.
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