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Para David Beker, estrategista-chefe do BofA para a América Latina, com o petróleo a US$ 70, a tendência para a inflação é baixista. Entretanto, a convicção em relação ao fim da guerra ainda é limitada

A visão do Bank of America (BofA) para a política monetária no Brasil e nos Estados Unidos não estão em linha com o consenso.
No Brasil, o banco não vê mais cortes na taxa Selic este ano, projetando a taxa básica estacionada em 14,25%. Já nos EUA, a expectativa é de alta dos juros: três aumentos de 0,25 ponto percentual (p.p.), para a faixa de 4,25% a 4,5% ao fim de 2026.
Vale destacar que os analistas do BofA veem uma tendência baixista para essa previsão, diante do possível fim da guerra entre EUA e Irã.
Em coletiva com a imprensa nesta sexta-feira (3), David Beker, estrategista-chefe do Bank Of America para a América Latina, afirmou que o mercado está com uma dificuldade de leitura em relação ao preço do petróleo e demais impactos na inflação.
Antes da guerra, a maior parte dos países compartilhava um cenário próximo: inflação de serviços alta, mas inflação de bens de consumo baixa. Uma compensava a outra e a pressão nos preços estava em tendência de esfriamento.
Não por acaso, no início do ano, o cenário era de expectativa de queda nos juros globalmente.
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Mas veio a guerra entre EUA e Irã, que provocou o choque no preço do petróleo e dos seus derivados. A inflação de serviços continuou alta, mas a inflação de bens também acelerou — e a maior parte dos países começou a registrar repique de inflação e a cogitar o aumento dos juros.
“A principal discussão agora para o Federal Reserve, o Banco Central do Brasil e o resto do mundo é entender o impacto desse novo preço do petróleo. Como vai influenciar na inflação a partir de agora, se continuar nessa faixa de US$ 70”, disse Beker.
Atualmente, o preço do barril de petróleo está em US$ 70 — um valor muito abaixo dos US$ 90 em que se manteve durante a maior parte do conflito. Porém, é bem acima do US$ 60 de antes de guerra.
Para a equipe do BofA, com o petróleo a US$ 70, a tendência para a inflação é baixista. Entretanto, a convicção em relação ao fim da guerra ainda é limitada.
“O preço do petróleo está surpreendendo em muito sentidos. Esse valor de US$ 70 não era esperado para agora. O mercado tem errado bastante nessa previsão”, disse o estrategista.
Diante dessa incerteza, o banco optou por manter a projeção de três altas nos juros dos EUA, mesmo sabendo que está fora do consenso — e com questionamentos de investidores.
Beker, entretanto, pondera que os próximos dados da economia serão cruciais para avaliar os passos do Fed a partir de agora. Até porque, o primeiro aumento nas taxas seria em setembro, de acordo com a previsão do BofA
Outro ponto de incerteza da análise é a postura do novo presidente do Banco Central dos EUA, Kevin Warsh. Em seu primeiro discurso, o mercado entendeu a postura de Warsh como dura contra a inflação, a favor de aumento de juros. No entanto, nos últimos dias, novas declarações foram lidas como mais leves.
Para o BofA, ainda não é possível traçar um perfil. “É mais um risco para a nossa projeção.”
No caso do Brasil, o BofA entende que a economia não “está pedindo” corte de juros. A atividade continua resiliente, o mercado de trabalho apresenta desemprego nas mínimas e a inflação está acelerando.
Diante disso, a projeção do banco de manutenção da Selic em 14,25% é justificada, principalmente, pela inflação corrente e pelas expectativas futuras, que aumentaram muito nos últimos meses.
Em maio, o índice de preços oficial (IPCA) fechou com taxa de 4,72% no acumulado em 12 meses, acima dos 4,39% imediatamente anteriores. Para além dessa inflação corrente, as projeções futuras chegaram a 5,33% no final do ano, no relatório Focus, do Banco Central.
Beker destaca as medidas federais para estimular o crédito e o consumo como fatores altistas, assim como as expectativas de inflação.
No entanto, ele entende que há fatores baixistas também: queda no preço do petróleo, menos criação de vagas de emprego formais (Caged), prévia de inflação melhor do que o esperado e câmbio controlado.
O cenário é parecido com o dos EUA. “O risco de um corte de 0,25 p.p. aumentou, mas ainda achamos que o Copom não vai fazer esse movimento”, diz o estrategista.
O banco só prevê novos cortes da Selic no segundo semestre de 2027: quatro ajustes de 0,25 p.p., levando a taxa básica para 13,25% ao ano.
Para Beker, o cenário de projeções está muito difícil de um modo geral. A única certeza é a incerteza. O estrategista afirma que os investidores estão sem convicção para fazer grandes apostas e montar grandes posições.
“Existe o risco no noticiário intenso, que contamina os preços dos ativos diariamente, e o risco de errar na avaliação sobre o que vai acontecer”, afirmou.
Para além do preço de petróleo e da inflação, outro grande debate é sobre a tendência de fraqueza do dólar.
No início do ano, esse tópico era uma unanimidade no mercado. Agora, há dúvidas.
De um lado, a tese da inteligência artificial puxa muito capital para os Estados Unidos. Para além das ações que já existem, a entrada de gigantes do setor, como a SpaceX, fomentam ainda mais esse fluxo.
Se o Fed, de fato, elevar os juros, é mais um gatilho de fortalecimento para a moeda norte-americana. Entretanto, Beker afirma que ainda há uma disposição dos investidores à diversificação de carteira.
“Acreditamos que, contra o real, a tendência é neutra. Contra o euro, a tendência é de força. Mas essa avaliação caso a caso deve ser feita, ainda que a tendência geral, na nossa opinião, seja de depreciação.”
O banco projeta o câmbio a R$ 5 no final do ano, e destaca que essa estabilização é um contraponto importante para segurar a inflação, que deve chegar a 5,5% em dezembro de 2026.
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