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A resposta para as questões climáticas previstas para a Copa do Mundo mistura geografia física, aquecimento global e a chegada de um velho conhecido dos meteorologistas

A Copa do Mundo de 2026 está acontecendo em pleno verão norte-americano. Quem vem de longe certamente vai se lembrar da final de 1994, quando Brasil e Itália se enfrentaram sob um calor de quase 40°C no Rose Bowl, em Los Angeles.
Mas a memória não precisa ir até 1994. No ano passado, durante o Mundial de Clubes, ao menos seis jogos foram interrompidos por tempestades elétricas e chuvas torrenciais, alguns por quase duas horas.
Uma parcela significativa dessas partidas foi programada para o período noturno nas cidades de maior risco climático. Isso porque as temperaturas caem e o potencial de formação de tempestades diminui.
Partidas diurnas foram concentradas nas cinco arenas com teto retrátil e ar-condicionado — Atlanta, Dallas, Houston, Los Angeles e Vancouver.
A resposta está em uma combinação de geografia física, aquecimento global e a chegada de um velho conhecido da meteorologia: o El Niño.
Para entender o clima norte-americano, imagine os EUA como um corredor aberto entre dois extremos climáticos.
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Quando essas duas massas de ar se encontram, o cenário para o caos meteorológico está montado. O ar quente e úmido, menos denso, é forçado a subir rapidamente ao topar com a barreira fria.
Essa subida abrupta resfria a umidade lá no alto e forma em minutos as torres de nuvem conhecidas como cumulonimbus, responsáveis por raios, granizo e ventos destrutivos.
A região tem até nome: Tornado Alley. É o trecho com maior concentração de tempestades severas do planeta — e junho, mês de abertura do torneio, está dentro do pico da temporada.
Só nos Estados Unidos, ocorrem cerca de 100 mil tempestades por ano, das quais aproximadamente 10% atingem nível severo, segundo a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA).
Os Estados Unidos estão acostumados com as tempestades de verão. O que mudou foi o ambiente em que elas se desenvolvem: uma atmosfera mais quente e mais úmida do que no passado — e isso faz diferença. O volume de chuva por hora aumentou em média 13% — e em alguns locais até 40% — em medições feitas em 136 das 150 cidades americanas monitoradas entre 1970 e 2022.
A física por trás disso tem nome: equação de Clausius-Clapeyron, uma lei fundamental da termodinâmica. Ela estabelece que a capacidade da atmosfera de reter vapor d'água aumenta cerca de 7% para cada 1°C de aquecimento global.
Mais calor significa mais evaporação dos oceanos. Quando as tempestades se formam, elas têm muito mais combustível disponível. Com isso, os volumes de chuva se concentram em intervalos cada vez menores, e os ventos são cada vez mais intensos.
Isso não significa que as mudanças climáticas criaram as tempestades americanas. Elas continuam sendo resultado do mesmo mecanismo atmosférico que existe há milhares de anos.
O que a crise climática fez foi turbinar essa dinâmica. Desde 1980, o intervalo médio entre desastres climáticos bilionários nos EUA caiu de 82 dias para 19 dias na última década.
Para complicar o cenário, a NOAA declarou oficialmente o início de um novo ciclo de El Niño em junho de 2026. A previsão é de intensificação para nível moderado a forte ao longo do ano.
São fenômenos diferentes, mas que podem atuar simultaneamente. Quando um episódio de El Niño ocorre em um planeta mais quente do que era décadas atrás, seus efeitos se manifestam sobre uma atmosfera já carregada de energia e umidade adicionais.
Na prática, o fenômeno altera a posição da corrente de jato — um rio de vento de alta altitude — sobre a América do Norte, canalizando mais umidade do Pacífico e do Golfo do México para o sul e o sudeste dos EUA.
Durante El Niño, essa faixa tende a registrar condições mais úmidas que o normal. É exatamente onde estão Miami, Houston e Dallas.
A Fifa não ignorou os sinais do Mundial de Clubes. Jogos nas cidades de maior risco foram empurrados para o período noturno, as partidas diurnas, concentradas em arenas cobertas, e pausas obrigatórias de hidratação foram adicionadas a todas as partidas. Ano passado, alguns dos jogos interrompidos tinham céu azul quando receberam o alerta para tempestade severa.
O protocolo central é claro: se o intervalo entre o relâmpago e o trovão for menor que 30 segundos, o jogo para imediatamente. É gestão de risco — não eliminação do risco. O céu azul do início da tarde não diz nada sobre o que acontece às quatro horas da tarde em Dallas.
A Copa do Mundo de 2026 será lembrada não apenas pelo número recorde de seleções ou pelas distâncias continentais entre as sedes. Mas ela também marca um momento em que o clima passou a entrar no planejamento do torneio como variável concreta — com protocolos, radares e decisões de tabela tomadas com base em previsão meteorológica.
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