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Holding começa a se desfazer de ativos, simplificar a estrutura e reduzir a dívida; mercado agora quer saber se a estratégia vai funcionar

A Cosan (CSAN3) passou anos construindo um império. Agora, a tarefa é quase o inverso: desmontar parte dele — e convencer o mercado de que, no processo, pode destravar valor para o acionista.
Depois de expandir o conglomerado por açúcar e etanol, combustíveis, gás, logística, lubrificantes e terras agrícolas, a holding de Rubens Ometto entrou em uma nova fase, marcada por venda de ativos, simplificação da estrutura e redução da dívida.
Na sexta-feira (14), o conglomerado deu mais um passo nessa direção: anunciou a cisão de uma estrutura da Radar, avaliada em R$ 2,6 bilhões, a saída da bolsa de Nova York (NYSE) e mudanças na área financeira.
Isoladamente, nenhuma dessas medidas muda a tese de investimento. Juntas, porém, ajudam a revelar o que a Cosan está tentando fazer: transformar uma estrutura complexa, endividada e negociada com desconto em uma companhia mais enxuta.
A questão é quanto dessa “faxina” pode, de fato, virar valor para CSAN3.
Uma das primeiras medidas foi a extinção da Radar II Propriedades Agrícolas, cujo patrimônio líquido foi avaliado em aproximadamente R$ 2,57 bilhões. O veículo será cindido e seu patrimônio distribuído entre Cosan e Mansilla Participações, suas acionistas.
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Como cada uma detém cerca de metade da empresa, a Cosan deverá incorporar aproximadamente R$ 1,29 bilhão. A operação não prevê emissão de ações nem diluição dos acionistas.
Mas isso não significa que a companhia esteja “ganhando” dinheiro. Os ativos já estavam refletidos no balanço da Cosan por equivalência patrimonial. O que muda é a forma como ficam organizados.
Segundo a companhia, a reestruturação deve gerar ganhos de eficiência e facilitar a estratégia de monetização do portfólio de terras agrícolas da Radar. A operação, por sua vez, terá custo estimado em R$ 500 mil.
Se aprovada nas assembleias necessárias, a cisão deverá produzir efeitos a partir de 1º de outubro de 2026.
A Cosan também decidiu deslistar voluntariamente seus ADSs da bolsa de Nova York. Os papéis negociados na NYSE representam quatro ações ordinárias da companhia cada um.
Depois da deslistagem, a empresa pretende cancelar seu registro perante a SEC, a CVM norte-americana. O cronograma e o tratamento aos investidores que possuem os títulos ainda dependem das etapas regulatórias.
Financeiramente, não é a medida mais relevante. Mas é mais uma camada retirada de uma estrutura que a companhia tenta simplificar.
Na mesma direção, a Cosan anunciou uma mudança no comando financeiro: Rafael Bergman deixará a vice-presidência financeira e de relações com Investidores.
A partir de setembro, o executivo será substituído por José Cezário Menezes de Barros Sobrinho, ex-diretor financeiro (CFO) da Rumo (RAIL3). A área jurídica também passará a responder ao novo CFO.
A Cosan chega a essa fase depois de um período em que a dívida se tornou um dos principais obstáculos para a tese.
No segundo trimestre, a dívida líquida da Cosan Corporate caiu 47% em relação ao ano anterior, para R$ 9,22 bilhões, ajudada pelos recursos levantados na oferta secundária da Compass, dos quais cerca de R$ 2,3 bilhões foram usados para amortizar dívidas.
A Cosan ainda encerrou o trimestre com um prejuízo líquido de R$ 320 milhões, uma melhora de R$ 625 milhões na base anual. Segundo a empresa, o desempenho no período foi catalisado, fundamentalmente, pela menor despesa efetiva de impostos, pelo melhor resultado financeiro e pela redução das despesas gerais e administrativas.
É justamente nessa equação que entra o novo guidance de cobertura do serviço da dívida.
A métrica, calculada pela relação entre os dividendos recebidos das subsidiárias e o custo de servir a dívida da holding, estava em 0,2 vez no fim do primeiro semestre.
A meta da Cosan é chegar a 0,8 vez a 1,2 vez até o fim de 2026, com dividendos recebidos entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,8 bilhão.
A companhia recebeu R$ 434 milhões no primeiro semestre. Considerando o ponto médio do guidance, de R$ 1,55 bilhão, isso implica receber mais R$ 1,1 bilhão na segunda metade do ano.
Como R$ 586 milhões já viriam da venda de terras agrícolas da Radar, restariam cerca de R$ 530 milhões a serem recebidos das demais subsidiárias. Para o BTG, a cifra parece “bastante factível”.
Durante anos, a Cosan construiu valor comprando e desenvolvendo negócios. Agora, precisa provar que consegue fazer o caminho inverso: transformar ativos em caixa sem destruir valor no processo.
A Compass (PASS3) é um exemplo. A oferta secundária ajudou a colocar recursos no caixa da holding e reduzir a dívida.
No trimestre, a Cosan também avançou na venda de sua participação integral no Porto São Luís, por R$ 300 milhões, com possibilidade de mais R$ 50 milhões em earn-out. O terminal havia recebido investimento inicial de R$ 720 milhões em 2021.
Rumo, Compass, Moove e Radar continuam entre as principais peças da holding — e ajudam a explicar por que o mercado olha para a Cosan não apenas pelo desempenho de cada negócio, mas pela capacidade de reorganizar esse conjunto.
É aí que entra o desconto de holding. Quem compra CSAN3 não compra diretamente Rumo, Compass, Raízen, Moove ou Radar. Compra uma holding que reúne participações nesses negócios, mas também carrega dívida e despesas corporativas.
Por isso, o valor de mercado da Cosan pode ficar abaixo da soma do valor de suas participações.
Para o BTG Pactual, o segundo trimestre trouxe uma “coleção razoável de boas notícias” para a Cosan. O banco avalia que a percepção dos investidores sobre a velocidade de redução da dívida é um dos principais fatores para o desempenho da ação.
A leitura dos analistas é que a companhia se aproxima do ponto em que os dividendos recebidos das subsidiárias conseguem compensar, em grande parte, o serviço da dívida e as despesas corporativas.
Mas ainda falta chegar lá.
Isso deixa a Cosan diante de um checklist importante: reduzir a dívida, cortar despesas, simplificar a estrutura, monetizar ativos sem destruir valor e fazer Rumo e Compass entregarem resultados capazes de sustentar uma avaliação maior.
No fim, falta convencer o mercado de que uma Cosan menor e mais simples merece também um desconto menor.
Hoje, o BTG estima um desconto de holding de 25% para CSAN3 e calcula potencial de valorização de 33% caso a companhia entregue plenamente a simplificação societária e a redução da dívida no nível da holding.
O cenário, segundo o banco, pode ser ainda melhor se o valor de mercado das subsidiárias aumentar.
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