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Três anos após a revelação da fraude contábil bilionária, o caso Americanas ainda reúne investigações em andamento, sanções sem desfecho na B3, disputas por ressarcimento e uma empresa que tenta se reerguer em um mercado cada vez mais competitivo
O caso Americanas (AMER3), um dos maiores escândalos da história do mercado de capitais brasileiro, completou mais um aniversário nesta semana ainda com pontas soltas e ‘terra arrasada’ na varejista, que hoje vive à sombra do que já foi.
A crise veio à tona em janeiro de 2023, quando a diretoria da companhia revelou a existência de inconsistências bilionárias em seus balanços, relacionadas principalmente a operações de risco sacado que teriam sido contabilizadas de forma indevida ao longo de anos.
O rombo inicialmente estimado em R$ 25,2 bilhões derrubou em poucos dias uma das histórias mais tradicionais do varejo brasileiro, provocando a saída imediata da antiga diretoria, a derrocada das ações na bolsa e, pouco depois, o pedido de recuperação judicial.
O episódio também expôs fragilidades profundas na governança corporativa da empresa e levantou questionamentos sobre a atuação de auditores, bancos e órgãos de fiscalização.
O caso Americanas envolve investigações criminais, administrativas e autorregulatórias ainda em andamento que buscam apurar desde fraude contábil e manipulação de mercado até falhas graves de governança.
Ainda assim, passados anos desde a revelação do escândalo, o desfecho do caso segue em aberto. Investidores minoritários continuam a buscar ressarcimento pelas perdas sofridas, enquanto executivos ligados ao período da fraude seguem na mira de investigações.
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Já a própria Americanas tenta, aos poucos, reconstruir a confiança do mercado e recuperar a sustentabilidade de suas finanças.
Nesse contexto, há três anos a B3 instaurou e julgou um processo de enforcement — procedimento administrativo para apurar e punir infrações às regras do mercado — contra a Americanas, seus conselheiros e membros do comitê de auditoria. Até agora, a decisão final sobre as sanções não foi divulgada.
Multas foram impostas a Conselheiros por falhas na gestão da companhia. No mesmo mês, as defesas dos executivos apresentaram recursos. Até o presente as decisões finais não foram publicadas de forma adequada, isso caso já tenham sido julgados, o que é incerto.
Segundo o Instituto Empresa, que defende os interesses de acionistas minoritários, a falta de transparência levanta dúvidas sobre se os administradores envolvidos no caso serão, de fato, responsabilizados. A entidade cita falhas graves de governança, como negligência na condução da companhia, desrespeito às regras do Novo Mercado e deficiência na supervisão e nos controles internos.
“Como não se trata de uma esfera judicial nem arbitral, três anos para analisar recursos é um prazo bastante exagerado. Além disso, é do interesse de todos os investidores — e da própria governança corporativa no Brasil — conhecer o conteúdo das decisões finais, especialmente considerando o papel da B3 como instância de autorregulação”, afirma Eduardo Silva, do Instituto Empresa.
O ex-CEO da Americanas, Miguel Gutierrez, tornou-se um dos principais investigados na apuração da fraude contábil bilionária revelada em 2023. Ele teve mandado de prisão preventiva decretado no Brasil, entrou na lista da Interpol e chegou a ser detido na Espanha, onde reside.
Pouco depois, foi liberado pelas autoridades espanholas e, na sequência, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região concedeu habeas corpus, permitindo que respondesse às investigações em liberdade, e o caso segue em apuração pelas autoridades brasileiras.
Segundo delações e investigações em curso, obtidas pelo colunista Lauro Jardim, Gutierrez é apontado como quem teria a “palavra final” sobre os estratagemas adotados, embora ele negue qualquer participação ou conhecimento das irregularidades.
Já no caso do portador das más notícias à época, Sérgio Rial, recém-empossado como CEO, a passagem pela companhia foi breve: ele renunciou ao cargo poucos dias após a divulgação da fraude. Ele não esteve envolvido em acusações ou investigações referentes ao caso.
João Guerra, ex-diretor de DRI que assumiu com a saída de Rial, teve multa aplicada em decisão preliminar da B3, hoje ainda pendente de conclusão após recursos.
Já o trio Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, sócios e acionistas de referência da varejista, viram sua fortuna avançar durante o período.
Em dezembro de 2022, pouco antes de o escândalo vir à tona, o patrimônio de Jorge Paulo Lemann era estimado em cerca de US$ 15,4 bilhões, seguido por Marcel Telles, com US$ 10,3 bilhões, e Carlos Alberto Sicupira, com US$ 8,5 bilhões. Os dados constam do ranking da Forbes.
No final de 2025, as fortunas do trio permaneciam em patamar elevado. Lemann aparecia com patrimônio estimado em US$ 17,6 bilhões, enquanto Telles somava cerca de US$ 10,9 bilhões e Sicupira, aproximadamente US$ 8,9 bilhões.
Vale lembrar que os executivos tiveram que abrir a carteira para socorrer a varejista, da qual são sócios desde o início dos anos 1980.
Se antes dessa bomba estourar a Americanas era uma das gigantes do varejo nacional, hoje a empresa vive à sombra do que já foi.
Apesar de a companhia ter conseguido avançar no processo de recuperação judicial, enxugando as dívidas para a casa dos R$ 2 bilhões, ela perdeu muito espaço no mercado brasileiro, com o avanço de players internacionais, que têm investido pesado no país, fora a concorrência de empresas nacionais.
O Mercado Livre, Shopee, Temu e Amazon estão desde o ano passado em franca guerra por espaço no nosso mercado, com investimentos bilionários em logística, marketing e afins.
Essa disputa está acontecendo no e-commerce 3P, quando a companhia atua como intermediária entre o lojista e o cliente, sem comprar o produto ou estocá-lo. E a própria Americanas já que não vale a pena comprar essa briga — assim como fez o Magazine Luiza.
No entanto, segundo um analista com quem o Seu Dinheiro conversou, a alternativa seria competir diretamente com o próprio Magalu e a Casas Bahia, que atuam majoritariamente nas lojas físicas e no e-commerce 1P — quando a própria companhia adquire e revende o produto, normalmente de ticket mais elevado.
No entanto, será um caminho longo para que a Americanas consiga reconquistar a confiança dos fornecedores e clientes para que eles comprem itens mais caros.
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