Por que a Camil (CAML3) caiu mais de 18% na bolsa mesmo com um trimestre forte?
Após a Camil (CAML3) divulgar os resultados do primeiro trimestre fiscal de 2026, mercado reage negativamente ao balanço

Entregar um forte crescimento em volume de vendas em praticamente todas as operações pode até parecer a fórmula perfeita para deixar investidores felizes. Porém, até mesmo 2+2 pode ter um resultado diferente de 4 — e o caso da Camil (CAML3) não é diferente.
A empresa alimentícia divulgou os resultados do primeiro trimestre fiscal de 2026 (março a maio) na terça-feira (14). Hoje (15), as ações da Camil fecharam o dia com um recuo de mais de 18% e cotação de R$ 4,41. No ano, a queda acumulada é de 17,88%.
Na avaliação do mercado, o “calcanhar de Aquiles” do balanço não foram apenas o aumento das despesas operacionais e o avanço da alavancagem financeira da companhia.
O resultado trimestral da Camil
Durante o período, a empresa registrou lucro líquido de R$ 28 milhões, o que representa uma queda de 57,6% em relação ao mesmo período de 2025. Já a receita líquida somou R$ 2,6 bilhões, um recuo de 0,7% na comparação anual.
No caso do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que mede o desempenho operacional, o resultado foi de R$ 210 milhões, uma queda de 9,9%, com margem de 7,9%, uma redução de 0,8 ponto percentual.
Mas há pontos positivos do balanço. O principal destaque vai para as vendas consolidadas, que cresceram 17,9%, para mais de 593 mil toneladas.
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Na categoria que inclui arroz, feijão e açúcar, o volume comercializado aumentou 13,9%. As vendas de arroz no Brasil avançaram 14% na comparação anual, o que supera a expetativa do BTG que, até então, era de uma alta de 12%.
Apesar de já ser um bom resultado, ele também foi favorecido por uma base de comparação fraca pois, no mesmo período do ano passado, varejistas haviam adiado a recomposição de estoques.
No segmento que reúne produtos como pescados, massas, cafés e biscoitos, o volume vendido cresceu 14,6%.
Enquanto isso, as operações internacionais registraram alta de 25,8%. Esse movimento foi impulsionado pelo desempenho de países como Uruguai, Chile e Equador, além da contribuição da operação no Paraguai.
Camil precisa comer mais feijão para entregar resultado forte
Ainda que a companhia tenha conseguido entregar um crescimento dos volumes, o número não foi o suficiente para equilibrar a balança da empresa, considerando a queda de preço das commodities.
Na visão do Itaú BBA, a baixa nos preços de arroz e outros produtos foi o limitador no avanço da receita. O BTG, no entanto, enxerga que a empresa ainda enfrenta um ambiente de margens pressionadas.
As despesas com vendas gerais e administrativas também foram uma questão relevante. Para o Itaú BBA, os gastos se mantiveram elevados por causa do aumento dos custos de frete e devido à reestruturação da equipe comercial.
Já a XP Investimentos destaca a pressão das despesas de vendas. No mesmo período em 2025, elas representavam 10% da receita líquida, neste ano, subiram para 13%.
Outro fator que pressionou a geração de caixa foi a necessidade de consumo de R$ 1,2 bilhão em capital de giro — valor para financiar os estoques e outras operações.
Ainda que esse gasto seja tradicional para a formação de estoques de arroz, que são monetizados ao longo do restante do ano, a dívida líquida e a alavancagem foram elevadas.
Preço do arroz pode ser o camisa 10 da Camil
Na visão dos analistas, a evolução dos preços de arroz pode ser um grande catalisador, já que seria o principal meio para uma recuperação mais consistente dos resultados da companhia.
Inclusive, embora o consumo de arroz esteja em declínio, ele deve crescer nos próximos anos, segundo projeções da Conab.
O BTG aponta que a área plantada de arroz no Brasil caiu 14% na safra atual, resultando em uma redução de 13% da produção.
Desde então, os preços do produto já começaram a sofrer alguma alteração, porém, ainda permanecem abaixo do custo estimado de produção no Rio Grande do Sul, em torno de R$ 80 por saca.
Nas projeções do banco, o preço médio por saca em 2026 seria de R$ 69. Até o momento, no entanto, o valor está em R$ 62.
A questão climática também pode ser um jogador que definirá esse placar. Os analistas enxergam um potencial de valorização relevante do grão caso os efeitos do El Niño se intensifiquem.
Isso porque o fenômeno tende a aumentar o volume de chuvas na região Sul do país, principal polo produtor de arroz do Brasil, o que pode resultar na produtividade das lavouras e reduzir a oferta.
O Itaú BBA acredita que ainda é cedo para considerar que os impactos climáticos possam causar interrupções relevantes na produção, mas reconhece que a volatilidade climática pode impactar nos preços do arroz ao longo do segundo semestre de 2026.
Caso os preços do produto alcancem cerca de R$ 80 por saca, na visão do BTG, o lucro líquido da empresa poderia quase dobrar até 2027.
*Sob supervisão de Carina Brito
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