A maior rede de internet fluvial do mundo já está em operação — e ela está mais perto do que você imagina
Serão nove infovias, cobrindo os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Até então, cinco já foram entregues.

O maior programa do mundo de cabos de internet em rios avança em alta velocidade. O governo brasileiro inaugurou, no início de julho, a quinta de um total de nove redes fluviais de fibra ótica. O novo trecho conecta as cidades de Manaus e Boa Vista.
A instalação faz parte do Programa Norte Conectado, que planeja instalar 13,2 mil quilômetros de cabos nos leitos dos rios amazônicos para conectar 70 localidades que sofrem apagão de internet. O investimento total será de R$ 1,5 bilhão.
Serão nove infovias, cobrindo os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Até então, cinco já foram entregues: as infovias 00, 01, 02, 03 e 04. Juntas, correspondem a 5,8 mil quilômetros, ou 45% do total planejado.
As demais, 05, 06, 07 e 08, estão em fase de planejamento e implantação, com entrega estendida para até 2028. A conclusão estava inicialmente prevista para 2025, mas atrasou por fatores climáticos.
"Nós tivemos o problema das secas sucessivas na Amazônia nos últimos anos. Foi um período difícil e que levou a essa postergação", diz a engenheira Gina Marques, presidente da Entidade Administradora da Faixa (EAF), instituição que responde à Anatel.
Apesar disso, o orçamento segue o mesmo, sendo pago pelas operadoras na forma de contrapartida pelas licenças de 5G obtidas no leilão de 2021 realizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Nesta gestão, recebeu o selo do "Novo PAC".
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A inauguração mais recente, da infovia 04, foi realizada em Roraima no início de julho, durante a realização da II Semana do Clima da Amazônia.
Na ocasião, as lideranças do projeto ressaltaram o baixo impacto ambiental da instalação das infovias, que evita o corte de cerca de 68 milhões de árvores, que poderiam ser desmatadas em uma implementação terrestre.
Como funciona a rede fluvial de fibra ótica
As infovias transportam sinal de internet por cabos com 48 pares de fibras óticas, seguindo pelo leito dos rios até uma tubulação plástica ligada em uma caixa de ancoragem. Ali, ele é conectado a um cabo de fibra ótica terrestre.
O lançamento dos cabos é feito por uma embarcação projetada para carregar todos os equipamentos e com capacidade para 110 pessoas.
As plataformas contam com laboratórios de emendas, onde os cabos são testados e verificados, além de oito contêineres para dormitórios e dois projetados para atividades de lazer, com academia e sala de jogos.
Para a instalação, mergulhadores, que se revezam em turnos de 24 horas, posicionam e orientam os cabos, em profundidades que podem chegar a 18 metros. O principal desafio é enfrentar a correnteza, pedras e bancos de areia que mudam constantemente de lugar.
As condições climáticas também são fatores de impacto na estrutura, explica Marques, presidente da EAF.
Até por isso, há preocupação com os riscos que o "Super El Niño" previsto para este ano pode trazer. "Se houver uma mudança de temperatura, seca e outras condições, aí realmente vamos ter que repensar o projeto como um todo, mas estamos preparados."
Pontos de conexão
Os pontos de conexão incluem mais de 900 pontos de acesso em locais de atendimento público, como escolas, unidades de saúde, institutos federais de ciência e tecnologia e órgãos de segurança pública. Mais de 70 cidades serão contempladas.
O projeto envolve ainda 46 mini data centers colocados dentro de contêineres e espalhados em pontos próximos dos rios.
Deste total, 23 já estão ativos (ao custo de R$ 2 milhões cada). As unidades têm captação de energia solar, refrigeração, sistema anti-incêndio, alarmes e câmera de monitoramento - feitos para resistir a todo tipo de intempérie.
Após a instalação, as infovias são entregues ao Ministério das Comunicações que seleciona as empresas que compõem o consórcio que atua como Operador Neutro das infovias. As entidades ficam responsáveis pela manutenção dos cabos óticos sob a contrapartida de receber dois pares de fibra ótica para comercializar planos de internet para pessoas e empresas.
"Cada um tem que fazer a sua conta, porque o custo mensal não é barato. Esse é o grande desafio", diz o presidente da Ozônio, Adriano Vieira. Ele conta que a manutenção requer mão de obra especializada, além da necessidade de cumprir prazos para consertos na rede submersa.
Fibra ótica vs. Starlink
Nos últimos anos, a carência de internet na região foi suprida pela internet satelital da Starlink. A empresa de Elon Musk passou de um milhão de clientes no país, a maioria deles no Norte.
Mas os provedores locais ainda veem muito espaço para crescer com a fibra ótica, que tem velocidade maior e preço menor. "Essas soluções de satélites têm limitação", diz Vieira.
Em sua visão, a Starlink deverá continuar atendendo as áreas mais remotas, onde a rede terrestre não conseguir alcançar. Nas cidades, a banda larga por fibra vai prevalecer, estima.
*Com supervisão de Ricardo Gozzi
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