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Da escalada militar à inflação global: o preço da guerra entre EUA e Irã não é só o petróleo

Curiosamente, EUA e Israel enfrentam ciclos eleitorais neste ano, mas o impacto político do conflito se manifesta de forma bastante distinta

31 de março de 2026
7:24 - atualizado às 7:46
Imagem: iStock

A guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel completa um mês com sinais ainda claros de intensificação e elevada incerteza, consolidando-se como o principal vetor de risco para os mercados globais neste momento.

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Embora Washington mantenha o discurso de busca por uma solução negociada, o aumento da presença militar na região, a entrada de novos atores no conflito e a ausência de avanços diplomáticos concretos reforçam a percepção de que o cenário tende a se prolongar.

Esse pano de fundo já se reflete nos mercados, que iniciaram a semana em tom misto, com maior pressão sobre os ativos diante do risco de escalada no Oriente Médio.

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O petróleo no centro do conflito

O petróleo segue em patamares elevados, acima de US$ 100 por barril, incorporando o risco crescente de disrupções na oferta, ao mesmo tempo em que ganham força as especulações sobre uma possível operação terrestre envolvendo Estados Unidos e Irã (o que seria desastroso, diga-se de passagem).

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Trata-se de um ambiente que adiciona uma camada relevante de incerteza geopolítica e mantém a volatilidade elevada, com os mercados reagindo rapidamente a fluxos e manchetes, enquanto crescem as preocupações com os impactos inflacionários e seus desdobramentos sobre a condução da política monetária global.

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Na semana passada, o presidente Donald Trump optou por prorrogar novamente o prazo para um eventual ataque ao Irã, sob a justificativa de avanço nas negociações, ainda que Teerã continue negando a existência de um diálogo direto tão claro assim.

Esse desencontro de narrativas tem mantido os ativos em um regime de elevada volatilidade, em que episódios pontuais de alívio são rapidamente revertidos, refletindo a baixa visibilidade sobre o desfecho do conflito.

Nesse contexto, o Estreito de Ormuz permanece como ponto crítico para o fluxo global de energia, sustentando o petróleo em níveis elevados e ampliando os riscos inflacionários e de desaceleração econômica.

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Ao mesmo tempo, a comunicação da Casa Branca adiciona uma camada de incerteza, ao alternar entre uma retórica mais agressiva — incluindo a possibilidade de ações militares diretas e até o controle de ativos estratégicos iranianos, como a Ilha de Kharg — e sinais de progresso nas negociações, frequentemente contestados por Teerã.

Com a presença contínuo de tropas à região e iniciativas diplomáticas ainda sem tração efetiva, o ambiente segue marcado por narrativas divergentes e risco elevado de escalada, reforçando a leitura de que os mercados permanecem altamente dependentes do fluxo de notícias e sensíveis a cada nova manchete.

A entrada dos Houthis no conflito adiciona um novo nível de complexidade ao cenário energético global ao abrir um segundo ponto crítico no Mar Vermelho, que se soma ao já tensionado Estreito de Ormuz.

Na prática, esse movimento comprime de forma relevante as rotas estratégicas de escoamento de petróleo, reduz as alternativas logísticas disponíveis e eleva o risco de disrupções nas cadeias de suprimento. Falamos de um ambiente em que a redundância operacional diminui e a sensibilidade dos preços a qualquer novo evento aumenta de forma significativa.

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Uma eventual escalada adicional do conflito pode gerar impactos relevantes sobre a infraestrutura energética global, ampliando os riscos de uma crise de energia e de uma inflação mais persistente.

'Trump Always Chickens Out' e o andamento das negociações entre EUA e Irã

Nesse contexto, os ativos seguem altamente dependentes do fluxo de notícias, com movimentos muitas vezes abruptos e pouco ancorados em fundamentos de curto prazo.

Ainda assim, o recuo recente de Donald Trump, apesar da retórica ainda combativa, reforça a percepção de mais um episódio do já conhecido “TACO Trade”, no qual discursos mais agressivos acabam cedendo espaço a ajustes táticos diante da reação dos mercados.

Em alguma medida, observa-se também a recorrente estratégia de negociação do presidente americano, que tende a começar com demandas maximalisas para, posteriormente, convergir para um ponto intermediário mais viável.

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Mesmo diante do impasse, as negociações seguem ocorrendo de forma indireta, e os mercados têm oscilado entre momentos de alívio e cautela, refletindo a percepção de que um acordo ainda é possível, embora cercado de baixa visibilidade e elevada incerteza.

Do lado iraniano, há preferência por interlocutores alternativos, evitando nomes associados a uma postura mais alinhada a Israel e à Arábia Saudita, o que indica tentativas de reequilibrar o canal diplomático, o que pode ser positivo se avançar.

Nesse contexto, o Paquistão passa a emergir como um possível intermediário nas tratativas entre Estados Unidos e Irã, atuando na retransmissão de mensagens e potencialmente como sede de futuras negociações.

Sua capacidade de manter diálogo com ambos os lados lhe confere um papel singular em um ambiente marcado por desconfiança e baixa coordenação diplomática. Embora não haja garantias de progresso, esse movimento sinaliza a tentativa de abertura de um canal de negociação em meio a um cenário dominado pela lógica de escalada.

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Não é só o petróleo: a economia global e a política no fogo cruzado entre EUA e Irã

Ao mesmo tempo, os efeitos do conflito já começam a se materializar de forma mais clara na economia global, especialmente na Ásia, região altamente dependente do petróleo que transita pelo Estreito de Ormuz.

A disrupção desse fluxo pressiona os preços de energia e leva países como Filipinas, Vietnã e Tailândia a adotarem medidas emergenciais para conter o consumo de combustível. Esse processo evidencia como choques geopolíticos rapidamente transbordam para a economia real, afetando cadeias de suprimento, custos e níveis de atividade.

Por fim, grandes gestores globais já alertam que os impactos sobre crescimento e inflação podem se prolongar mesmo em um cenário de cessar-fogo no curto prazo.

O risco de manutenção do petróleo em níveis elevados, combinado à persistência das pressões inflacionárias, aumenta a probabilidade de uma desaceleração mais pronunciada à frente, especialmente nos Estados Unidos, reforçando a leitura de um ambiente global mais desafiador e estruturalmente mais instável.

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Em solo americano, inclusive, a guerra começa a produzir um desgaste político cada vez mais evidente. Intensificam-se as críticas à condução do conflito, cresce a pressão por uma saída negociada e aumentam as preocupações dentro do Partido Republicano, sobretudo diante da proximidade das eleições de meio de mandato.

Ao mesmo tempo, a resistência da opinião pública ganha força, refletindo não apenas o custo econômico da guerra, mas também a falta de clareza sobre seus objetivos finais e sobre o que, de fato, configuraria um desfecho satisfatório.

Em Israel, por outro lado, o quadro é substancialmente distinto. A ofensiva conduzida segue contando com amplo apoio popular, em grande medida por ser percebida como parte de um esforço necessário para neutralizar uma ameaça de caráter existencial.

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Mesmo em meio a tensões internas e desafios políticos relevantes, a guerra tem funcionado como um elemento de coesão, unificando o país em torno de objetivos estratégicos mais claros. A percepção predominante é de avanços concretos no enfraquecimento do Irã, ainda que sem qualquer expectativa realista de uma resolução rápida ou sem custos prolongados.

Curiosamente, ambos os países enfrentam ciclos eleitorais neste ano, mas o impacto político do conflito se manifesta de forma bastante distinta.

Para a Casa Branca, quanto mais a guerra se prolonga, maior tende a ser o desgaste político, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro.

Já em Jerusalém, o cenário é praticamente o inverso: a continuidade do conflito pode, ao menos no curto prazo, reforçar o capital político de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, aumentando suas chances de se manter no poder após as eleições gerais de outubro.

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Os objetivos da guerra no Irã

Do ponto de vista operacional, não houve, até o momento, qualquer mudança estrutural no conflito. Os ataques seguem em curso, as negociações permanecem travadas e as condições exigidas por ambos os lados continuam amplamente incompatíveis.

O risco de escalada militar segue presente, mantendo o ambiente global em um estado de elevada instabilidade.

Em termos estratégicos, os objetivos também permanecem pouco definido. Israel busca enfraquecer de forma estrutural as capacidades militares iranianas e, idealmente, promover uma mudança de regime, ainda que admita cenários de fragmentação ou instabilidade como meio para esse fim.

Já o Irã procura resistir ao choque inicial, demonstrar capacidade de prolongar o conflito e impor custos relevantes aos adversários, tanto regional quanto globalmente, tendo como peça central de sua estratégia a capacidade de disrupção no Estreito de Ormuz.

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Nesse contexto, os Estados Unidos atravessam um momento de maior ambiguidade estratégica. O plano inicial, baseado em uma demonstração de força que levaria a uma rápida mudança de regime ou a concessões relevantes por parte de Teerã, fracassou rapidamente, e desde então a condução do conflito tem sido marcada por sinais contraditórios.

O envio crescente de tropas à região (boots on the ground) sugere preparação para uma nova fase mais direta, potencialmente envolvendo operações terrestres ou incursões estratégicas.

Ainda assim, falta uma comunicação clara sobre os objetivos finais dessa escalada: se o foco é reabrir o Estreito de Ormuz, promover mudança de regime ou até controlar fluxos energéticos globais.

Essa ausência de clareza, tanto para a população americana quanto para aliados, amplia a incerteza, eleva o risco político doméstico e torna o conflito não apenas mais longo, mas também mais perigoso, à medida que decisões estratégicas passam a ser tomadas em um ambiente de baixa previsibilidade.

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O que estamos observando é um conflito que deixou de ser um evento localizado para se tornar um fator relevante na dinâmica da economia global e dos mercados financeiros, sobretudo por meio do canal de energia.

À medida que a guerra se prolonga, aumentam os riscos de inflação mais elevada, crescimento mais fraco e maior volatilidade dos ativos, uma vez que decisões políticas, movimentos militares e até declarações públicas passam a ter impacto quase imediato sobre os preços.

Ao mesmo tempo, a ausência de clareza em relação aos objetivos dos EUA, somada à disposição de Irã e Israel em sustentar o confronto, reduz a visibilidade de curto prazo e torna qualquer projeção mais sujeita a revisões.

Para o investidor, a principal mensagem é de cautela em um ambiente que permanece altamente incerto e sensível a novos desdobramentos. Mesmo com eventuais momentos de alívio, a tendência é que os mercados continuem reagindo intensamente ao fluxo de notícias, enquanto os efeitos econômicos da guerra, especialmente via preços de energia, ainda devem persistir.

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Em outras palavras, não se trata de um choque pontual, mas de um cenário estruturalmente mais instável, no qual o risco geopolítico volta a ocupar um papel central na tomada de decisão, reforçando a importância da diversificação na gestão de risco.

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