Como profissionais 50+ podem usar a IA para encontrar novas oportunidades de trabalho
No Summit Mulheres nas Profissões, especialistas afirmam que décadas de experiência podem ser transformadas em um portfólio de serviços com ajuda da inteligência artificial

Durante muito tempo, o currículo foi o principal cartão de visitas de quem buscava uma recolocação profissional. Mas, para profissionais acima dos 50 anos, esse modelo pode não ser suficiente para destacar décadas de experiência acumulada.
A lógica do mercado tem mudado: em vez de listar cargos e empresas por onde passou, profissionais mais experientes precisam mostrar, de forma prática, quais problemas conseguem resolver e quanto vale esse conhecimento.
E nesse caso, a inteligência artificial (IA) pode ser uma grande apara analisar toda a trajetória profissional e identificar competências que muitas vezes passam despercebidas por quem acumulou anos de experiência.
Na visão de Juliana Ramalho, CEO da Talento Sênior, a experiência acumulada ao longo da carreira precisa deixar de ser apresentada como uma sequência de empregos e passar a ser organizada como um verdadeiro catálogo de soluções para empresas.
"Quando quero levar profissionais seniores para empresários, penso nas dores que eles precisam resolver. Então, levo esses profissionais para explicar como essas dores podem ser solucionadas."
A fala foi feita durante a primeira edição do Summit Mulheres nas Profissões, que acontece nos dias 4 e 5 de agosto no Expo Center Norte, com expectativa de reunir cerca de 20 mil pessoas.
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O currículo com a ajuda da IA
Para Ramalho, antes mesmo de pensar em um currículo, vale fazer um levantamento completo de tudo o que foi realizado ao longo da vida profissional — sem preocupação com número de páginas ou formato. A recomendação é incluir atividades que normalmente ficam de fora de um currículo convencional.
Entram nessa lista projetos conduzidos dentro das empresas, trabalhos voluntários, participações em negócios da família, desafios enfrentados ao longo da carreira e qualquer experiência que tenha contribuído para desenvolver novas habilidades.
"Escreva tudo. Parece difícil, mas a IA deixou isso super fácil. Nós temos muita bagagem, só não sabemos ainda como essa bagagem vai se encaixar em 2030."
Segundo a CEO da Talento Sênior, muitos profissionais conhecem apenas uma pequena parte do próprio potencial. "Achamos que nos olhamos no espelho certo, mas não olhamos. Vemos só uma casca. Não paramos para enxergar toda a potência do que fizemos durante oito, dez ou 12 horas por dia em tantos projetos, nem toda a versatilidade que construímos."
IA pode transformar experiência em serviços
Depois desse mapeamento, a inteligência artificial passa a cumprir um papel estratégico.
Segundo Ramalho, em vez de usar a ferramenta apenas para escrever um currículo, o profissional pode pedir que ela identifique quais competências presentes naquela trajetória continuarão sendo valorizadas no mercado nos próximos anos.
Outra sugestão é solicitar que a IA traduza toda essa experiência em um portfólio de serviços. A ferramenta pode indicar o que aquele profissional é capaz de oferecer às empresas, quais setores podem se beneficiar desse conhecimento e até ajudar na definição de quanto vale esse trabalho.
"Aí você começa a pensar de um modo mais comercial e a colocar valor no seu talento."
O empresário não quer conhecer sua história inteira
Para Ramalho, essa mudança acontece porque a demanda das empresas também mudou. Segundo ela, muitos empresários procuram alguém para resolver um problema específico e não necessariamente um profissional para construir uma carreira de longo prazo dentro da empresa.
Ela cita como exemplo situações enfrentadas no dia a dia da gestão. "Tem empresário que chega para mim e diz: 'Estou com 12 dias de atraso na fábrica. O que eu faço?'. Ele procura alguém que resolva esse problema. Não precisa conhecer todo o currículo da pessoa, saber onde começou, se foi secretária, assistente ou todos os cargos que ocupou. O que interessa é quais problemas atuais ela resolve."
O portfólio também deve definir em quanto tempo o profissional consegue entregar o resultado. Ela afirma que esse modelo também abre espaço para formas mais flexíveis de atuação, como trabalhos por projeto ou na função de executivo fracionado, prestando serviço para diferentes empresas sem vínculo fixo.
Repertório pode ser uma vantagem na era da IA
A ideia de que profissionais mais velhos estariam em desvantagem diante da inteligência artificial foi contestada durante o debate por Andrea Tenuta, head de Novos Negócios da Maturi.
Segundo ela, justamente por terem acumulado mais experiências ao longo da carreira, profissionais maduros tendem a fazer perguntas melhores às ferramentas de IA.
A executiva explica que o diferencial não está apenas em saber usar a tecnologia, mas em conseguir avaliar criticamente as respostas produzidas por ela.
"Quem sabe fazer boas perguntas é quem tem repertório. As pessoas maduras têm o melhor repertório não só para perguntar, mas também para julgar a resposta de volta e saber se aquilo está adequado ou não."
Networking exige intenção
Além de organizar a experiência profissional, Tenuta afirma que é preciso torná-la visível. Ela defende que eventos presenciais continuam sendo importantes para ampliar oportunidades, mas alerta que fazer networking vai muito além de trocar cartões ou adicionar contatos nas redes sociais.
Segundo a executiva, muitas pessoas participam de eventos e passam o tempo conversando apenas com amigos ou colegas que já conhecem. A recomendação é sair desse círculo e buscar novas conexões.
"Networking de verdade é quando você oferece algo para receber algo. Essa é a troca potente."
Ela acrescenta que essas conversas podem abrir portas para mentorias, indicações e até mudanças completas de carreira, mas exigem iniciativa.
"Não é simples. Exige intencionalidade nas atitudes pessoais e profissionais. A rotina nos consome, as demandas nos consomem, mas construir essas conexões demanda energia."
Experiência também precisa aparecer
Na reta final da palestra, Ramalho defendeu que todo esse conhecimento precisa ser levado para fora do currículo e ganhar espaço também nas redes sociais.
Segundo ela, empresários costumam procurar soluções para problemas específicos. Se o profissional consegue mostrar publicamente quais desafios resolve, aumenta as chances de ser encontrado.
"O que você vê no espelho precisa estar lá fora. Você precisa transformar seu conhecimento em algo que o empresário veja. Quando ele procurar alguém para resolver aquela dor, precisa encontrar você."
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