Mais da metade dos trabalhadores não conseguem pagar as contas do mês, diz Serasa — e empregadores podem ser responsabilizados
Pesquisa mostra o que mais pesa sobre o orçamento dos brasileiros e como os problemas financeiros podem afetar o desempenho no trabalho

Chega o dia do pagamento do salário e o trabalhador começa a organizar as contas a pagar: primeiro faz a compra de supermercado, depois resolve o boleto da luz, água... e antes mesmo de chegar ao aluguel já se foi todo o dinheiro. Essa é a realidade de 53% dos brasileiros, segundo pesquisa divulgada pela Serasa Experian nesta terça-feira (18).
O estudo mostra que mais da metade dos trabalhadores, tanto CLT quanto PJ (pessoa jurídica), não consegue fechar as despesas mensais somente com o salário.
Esse cenário gera consequências tanto nas finanças pessoais quanto no bem-estar emocional dos trabalhadores.
Em relação à vida financeira, 47% dos trabalhadores recorrem a recursos ou alternativas adicionais para conseguir pagar as contas. Isso inclui fazer “bicos”, horas extras, usar cartão de crédito e solicitar empréstimos.
Outros 6% terminam o mês sem dinheiro suficiente e nem utilizam opção extra. Ou seja, ficam inadimplentes com alguma conta mensal.
Essa mesma pesquisa no ano passado mostrou que, em 2025, 54% dos trabalhadores brasileiros não conseguiam encerrar o mês somente com o salário. Ou seja, o percentual permaneceu praticamente estável.
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Délber Lage, Diretor de Soluções para RH da Serasa Experian, explica que o país vive uma “pressão persistente sobre a saúde financeira”. Na comparação com a edição de 2025, o estudo mostra que o resultado obtido em 2026 mostra mais de uma questão estrutural da economia do que um fenômenoo pontual.
Quais são os principais gastos
Um recorte feito pela pesquisa é a fonte das despesas. Dentre os trabalhadores que alegam não conseguir finalizar o mês com todas as contas pagas, são os gastos essenciais que ocupam o pódio de mais pesados para os brasileiros.
A alimentação aparece como responsável por comprometer o orçamento de 78% das famílias.
Cabe destacar que, na última divulgação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) — principal indicador de inflação do país —, houve uma contração dos preços dos alimentos.
A inflação de alimentos e bebidas desacelerou 0,67% em julho e, no acumulado dos últimos 12 meses, tem alta de 3,40%.
Outro fator que aparece logo em seguida entre os principais gastos dos trabalhadores é o pagamento das contas de casa. Cerca de 72% dos brasileiros que responderam ao estudo afirmaram que o consumo de luz, água e gás pesa sobre o orçamento.
Já no terceiro lugar estão os financiamentos, seja de um imóvel, carro ou outras modalidades. Quarenta e quatro por cento das pessoas afirmam que este é um gasto expressivo dentro do mês.
“Os resultados mostram que a insuficiência de recursos é formada por uma combinação de despesas cotidianas indispensáveis e compromissos já assumidos, o que reduz a capacidade de formar reservas e absorver imprevistos”, diz a pesquisa.
A fundadora da empresa de conteúdo financeiro Me Poupe!, a influenciadora Nathalia Arcuri, explica que, embora o Brasil esteja avançando no conhecimento sobre educação financeira, há uma lacuna entre a renda dos trabalhadores e o custo de vida, que dificulta a organização dos brasileiros.
“Apesar de termos um índice de desemprego muito baixo hoje, sabemos que o que a maior parte dos brasileiros ganha hoje não é suficiente para dar conta do custo de vida. Esse custo aumenta de forma descolada do que as pessoas recebem”, afirmou em entrevista ao Seu Dinheiro.
Cabe lembrar que cerca de 68% dos brasileiros recebem até dois salários-mínimos por mês, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — ou seja, até R$ 3.242.
Para além das finanças pessoais
O cenário da pesquisa realizada pela Serasa Experian pode gerar diferentes consequências: aumento do endividamento, inadimplência e trabalhos extras.
Porém, além dos impactos financeiros, o estudo mapeou o efeito no bem-estar emocional e na saúde mental desses trabalhadores.
Segundo o estudo:
- 61% dos brasileiros com problemas financeiros relatam aumento do estresse em casa e no trabalho;
- 41% têm irritabilidade;
- 44% têm episódios de insônia.
Outros impactos citados foram alterações acentuadas de peso, depressão, dores físicas e isolamento social.
Empregadores precisam fazer algo?
Na visão da Serasa Experian, sim.
Isso porque essa realidade financeira também gera efeitos no ambiente profissional: 51% dos trabalhadores relatam estresse no trabalho, enquanto 46% citam exaustão extrema e esgotamento físico. Além disso, 35% mencionam diminuição da atenção e, para 33%, houve queda de produtividade.
Para Lage, esse contexto é importante considerando a atualização da NR-1 — norma que regulamenta a saúde no ambiente de trabalho e, desde maio, exige que fatores relacionados à saúde mental sejam mapeados.
“Os fatores psicossociais relacionados ao trabalho passaram a ser expressamente considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso não significa enquadrar a vida financeira individual no Programa de Gerenciamento de Riscos, mas reconhecer que seus reflexos podem aparecer no expediente”, explica o diretor.
- LEIA MAIS: Lei da saúde mental no trabalho já está em vigor — o que a NR-1 muda para os funcionários?
Na visão da companhia de dados, é papel das empresas promover educação financeira e oferecer benefícios que possam gerar bem-estar financeiro para os funcionários.
“Isso inclui alternativas de crédito responsável que contribuam para prevenir o agravamento das dificuldades financeiras”, defende o estudo.
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