Oportunidade atômica: expansão da energia nuclear no mundo abre janela para o investidor brasileiro — e BTG diz por onde você pode começar
Com retornos acima de 110% desde 2024, os ETFs de energia nuclear superam o S&P 500; demanda por inteligência artificial impulsiona a tese de investimento

A energia nuclear está saindo de um longo período de estagnação e entrando em uma nova fase de expansão global, abrindo oportunidades de investimento para quem quer diversificar a carteira e sair do senso comum da exposição ao setor de energia tradicional.
Esse movimento de ampliação já é visto nos mercados: enquanto o S&P 500 acumulou alta de 45% entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026, dois ETFs de energia nuclear entregaram retornos superiores a 110% no mesmo período.
O Investo MVIS Global Uranium & Nuclear Energy ETF (código nos EUA: NLR; BDR: NUCL11) avançou 113% no período analisado. Já o Global X Uranium ETF (URA; BDR: BURA39) subiu 112%.
Embora desempenhos passados não garantam ganhos futuros, a performance não pode ser ignorada. Ambos geraram um alpha — ou seja, um retorno acima do índice de referência — de aproximadamente 68 a 69 pontos percentuais em relação ao S&P 500.
“O renascimento da energia nuclear ainda é inicial, mas sustentado por catalisadores que a reposicionam como estratégica para segurança energética, descarbonização e crescimento da demanda energética de longo prazo”, diz Marcelo Zambello, analista de ações internacionais do BTG Pactual.
Entre os fatores que o banco aponta como propulsores desse movimento estão metas climáticas mais rígidas, o crescimento estrutural da demanda elétrica — puxado por data centers e inteligência artificial (IA) — e uma reavaliação do papel da energia nuclear dentro das carteiras ESG.
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A guerra entre Rússia e Ucrânia também aparece como um catalisador geopolítico relevante. Em agosto de 2022, o preço do gás natural na Europa variou entre 339 euros a 340 euros por MWh, o que levou governos europeus a repensar políticas de descomissionamento de usinas nucleares e a destravar novos aportes no setor.
Como resultado, os investimentos globais em energia nuclear atingiram US$ 62 bilhões em 2024 — o maior avanço da última década, com alta de aproximadamente 17% na comparação anual.
Big techs na tese nuclear
A energia nuclear tem uma característica que a diferencia das fontes renováveis tradicionais: o fator de capacidade.
Enquanto usinas solares operam com aproveitamento de cerca de 23% do tempo e eólicas de cerca de 34%, usinas nucleares funcionam próximo a 92% do tempo — independentemente de condições climáticas.
Essa característica é decisiva para o interesse das big techs. Não à toa, Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta firmaram contratos de fornecimento de energia nuclear de longo prazo com diferentes empresas do setor.
Os volumes são expressivos: a Amazon, por exemplo, fechou um contrato de 1.920 MW com a Talen Energy e outro com X-energy e Energy Northwest com meta de ultrapassar 5 GW até 2039. A Meta assinou acordos que somam mais de 4 GW com três parceiros diferentes.
O argumento é que fontes intermitentes, como solar e eólica, enfrentam limitações para atender às cargas de trabalho contínuas — 24 horas por dia, 7 dias por semana — exigidas por data centers de IA.
A McKinsey estima que data centers nos EUA devem aumentar a participação no consumo elétrico total de 3% para 12% até 2030.
O mercado de urânio
A tese de investimento no setor nuclear passa também pelo mercado de urânio, o combustível dos reatores.
Em fevereiro de 2019, o urânio era negociado a US$ 27,75 por libra. O preço avançou mais de 250% desde então, atingindo US$ 101 por libra na máxima histórica, em janeiro de 2024.
Do lado da oferta, o quadro é de restrição: entre 2021 e 2023, o volume total de reservas de urânio com custo de extração inferior a US$ 40 por kgU (quilograma de urânio) — as de maior qualidade e mais competitivas — caiu 14%.
Ao mesmo tempo, a demanda global deve crescer de forma relevante. A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) estima que a capacidade nuclear instalada pode saltar dos atuais 376 GW para entre 574 GW e 900 GW até 2050, o que representa um aumento de 45% a 130% na demanda por urânio.
A Austrália concentra cerca de 28% das reservas globais conhecidas de urânio, seguida por Cazaquistão (15%), Canadá (9%) e Rússia (8%).
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Os riscos nucleares
Embora seja um mercado em expansão, o BTG não ignora os obstáculos do setor, e lita três riscos principais.
O primeiro é a capacidade de execução e o capital exigido. Segundo o banco, projetos nucleares têm histórico de atrasos e revisões orçamentárias, com prazos de construção que variam entre cinco e dez anos — o que amplifica a sensibilidade ao custo de capital.
O segundo é o risco apontado pelo BTG é o regulatório: o setor depende fortemente de estabilidade política e apoio governamental.
“Mudanças de governo ou deterioração da percepção pública podem inviabilizar projetos já em andamento”, diz Zambello.
O terceiro é a competitividade econômica, já que em muitos mercados, solar e eólica ainda apresentam custo por MWh significativamente mais baixo do que a nuclear.
Nuclear como complemento, não substituto
A visão do BTG a energia nuclear não vai substituir as renováveis, mas complementa.
Solar e eólica permanecem centrais na transição energética, mas, segundo o banco, a intermitência cria uma lacuna que a nuclear pode preencher — especialmente para grandes consumidores industriais e de tecnologia que precisam de fornecimento contínuo e de baixo carbono.
Para o investidor pessoa física no Brasil, o acesso a esse tipo de investimento se dá via BDRs (Brazilian Depositary Receipts, ou Recibos Depositários Brasileiros), listados na B3: o NUCL11, que espelha o ETF NLR, e o BURA39, que espelha o ETF URA.
Vale lembrar que, como qualquer investimento em renda variável, ambos estão sujeitos a oscilações e riscos, e a decisão de investir deve levar em conta o perfil e os objetivos de cada investidor.
*Matéria atualizada em 23 de março de 2026 para corrigir o código do BDR que espelha o ETF URA.
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