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O índice das ações medianas não entrou no apetite dos estrangeiros e, sem os locais, os papéis estão esquecidos na bolsa
Abril marcou um descolamento histórico entre as ações de empresas menores e os papéis das grandes companhias da bolsa. A diferença entre o índice Small Caps (SMLL) e o Ibovespa (IBOV) atingiu o maior nível em mais de duas décadas, segundo um levantamento da consultoria Elos Ayta.
Enquanto o Ibovespa encostou nos 198.657 pontos no período analisado, de agosto de 2005 até 14 de abril de 2026, o Small Caps ficou em 2.558 pontos. A conta simples mostra uma distância nominal de 196.099 pontos — a maior já registrada na série histórica considerada.
E não é só a distância em pontos que chama atenção. Atualmente, o Ibovespa vale cerca de 77,6 vezes o SMLL, uma relação que também é recorde.
No encerramento de 2025, essa proporção era de aproximadamente 69,9 vezes, o que mostra um crescimento rápido da distância entre os índices em poucos meses.
Para o economista e gestor da Black Swan Investimentos, Luigi Micales, essa diferença poderá aumentar ainda mais nos próximos meses — ao menos enquanto o dinheiro estrangeiro continuar entrando com força na bolsa brasileira.
“O investidor estrangeiro costuma priorizar liquidez, ou seja, ativos que permitam sair rápido se o cenário mudar”, diz Micales. Por isso, o fluxo externo tende a se concentrar nas ações maiores, que fazem parte do Ibovespa, e não nas empresas menores, que compõem o Small Caps.
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Segundo o gestor, um movimento mais consistente de recuperação das ações médias passa, necessariamente, por uma melhora mais clara do cenário doméstico.
Isso inclui juros mais baixos e, principalmente, o retorno do investidor local para a bolsa.
Depois de anos com o mercado praticamente andando de lado, a alocação dos investidores brasileiros em ações caiu muito — e, de acordo com Micales, ainda não voltou de forma relevante, mesmo com a recente alta do Ibovespa.
Esse ponto pesa especialmente para as small caps. Diferentemente das grandes empresas, elas dependem muito mais do fluxo local, ou seja, do dinheiro que vem de investidores brasileiros.
Além do contexto da economia, o próprio desenho do índice SMLL ajuda a explicar por que o desempenho das ações menores tende a ser mais irregular ao longo do tempo.
Um dos principais problemas, segundo o gestor da Black Swan, está na forma como o índice é composto. O SMLL exclui automaticamente empresas que passam a fazer parte dos 85% maiores valores de mercado da bolsa.
Na prática, isso gera um efeito pouco favorável ao longo do tempo. Empresas que crescem, ganham valor e se destacam acabam sendo retiradas do índice justamente quando entram em uma fase mais madura.
Ao mesmo tempo, o SMLL pode acabar incorporando companhias que eram grandes, mas perderam valor e “caíram” para dentro do critério.
“É uma reciclagem ruim”, resume Micales. “O índice vende os vencedores e herda empresas que, muitas vezes, estão enfrentando dificuldades.”
Outro ponto importante é o momento do ciclo econômico de corte dos juros.
No início, quando os ativos estão muito descontados, o mercado começa a aceitar mais risco e busca ações com maior potencial de valorização.
Já perto do fim do ciclo, o desempenho costuma ser impulsionado por euforia, maior apetite especulativo, múltiplos mais elevados (ou seja, preços mais esticados em relação aos lucros) e entrada mais intensa de investidores pessoa física.
Por isso, na avaliação do gestor, o Small Caps funciona melhor como uma ferramenta tática — usada para capturar movimentos específicos de virada ou momentos finais do ciclo monetário —, não como uma aposta estrutural de longo prazo.
“Em determinados períodos, o índice pode performar muito bem”, diz Micales. “Mas sua própria estrutura impõe limites quando a ideia é acompanhar, de forma mais duradoura, uma grande alta da bolsa.”
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