Dólar abaixo de R$ 5? O que precisa acontecer para a moeda cair ainda mais — e o que poderia atrapalhar isso
Com dólar ao redor de R$ 5,06 e queda próxima de 8% no mês, combinação de fluxo estrangeiro, juros elevados e cenário externo sustenta valorização do real. Especialistas acreditam que há espaço para mais desvalorização

O dólar caminha para encerrar o pregão desta quinta (9) no menor nível frente ao real em quase um ano, renovando mínimas pela segunda sessão consecutiva. Por volta das 16h20, a moeda americana recuava 0,74%, a R$ 5,0649, menor patamar desde 17 de maio de 2024.
No acumulado do mês, a divisa já cai perto de 8%, e, na avaliação de especialistas, ainda há espaço para apreciação adicional do real.
Para Leonardo Santana, sócio da Top Gain, o movimento recente está ligado principalmente à entrada de capital estrangeiro na Bolsa brasileira, além da melhora do ambiente de risco global, com o avanço das discussões de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã.
“Nossa Bolsa está bem descolada, inclusive, dos mercados internacionais muito por conta desse fluxo estrangeiro. Não podemos esquecer que temos um grande atrativo que é o nosso diferencial de juros”, afirma Santana.
Embora o Brasil deva cortar juros novamente neste mês, o país tem um dos maiores juros reais do mundo, aponta Santana. “Aqui nós temos uma certa segurança: se o governo atual [Luiz Inácio Lula da Silva] ganhar as eleições, já conhecemos os riscos. Se o governo de direita ganhar, o cenário melhora muito mais, com o dólar podendo cair mais”, complementa.
O especialista de inteligência de mercado da Stonex, Lucca Bezzon, considera que o real já vinha apresentando bom desempenho, mesmo em um cenário de dólar mais fraco no exterior, apesar das tensões elevadas no Oriente Médio.
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“Com a recente notícia de cessar-fogo, o dólar passou a se desvalorizar globalmente — e, nesse contexto, o real se destacou como uma das moedas de melhor performance”, diz.
Segundo Bezzon, o desempenho do real reflete os juros elevados no Brasil, o distanciamento geopolítico e as commodities em patamares elevados, uma vez que o país é exportador de petróleo.
Dólar vai cair mais?
Para o especialista em investimentos da Nomad Bruno Shahini, há espaço para o dólar operar próximo aos R$ 5. Ele relembra que o real vinha em uma tendência de valorização, com alta acumulada de 11% frente ao dólar em 2025 e avanço superior a 6% em janeiro e fevereiro deste ano.
“Apesar de todo o risco embutido no conflito no Oriente Médio, o real se comportou de forma saudável, alcançando patamares próximos a R$ 5,30 nos momentos mais agudos, porém se consolidando no intervalo entre R$ 5,20 e R$ 5,25 — ou seja, não houve um overshooting da taxa de câmbio, movimento exagerado e desordenado acima do nível justificável pelos fundamentos”, afirma Shahini.
O especialista da Nomad acrescenta que o real se comportou até melhor do que o DXY, índice que mede o valor do dólar frente a uma cesta de moedas fortes.
Na avaliação de Shahini, apesar da queda recente do petróleo, é esperado que a commodity negocie com prêmio nos próximos meses e, visto que o Brasil é um exportador relevante, isso impacta diretamente a balança comercial brasileira e a oferta de dólares na economia.
“Portanto, incorporamos mais um vetor na direção de apreciação cambial, o que pode levar o dólar a negociar próximo a R$ 5 novamente”, diz.
Para Santana, da Top Gain, o dólar tem espaço ainda para cair mais para a faixa entre R$ 4,90 e R$ 5, e o cenário ideal para isso acontecer seria se os Estados Unidos cortassem juros, porque haveria uma migração de capital maior ainda para os emergentes, incluindo o Brasil.
Por ora, no entanto, a ferramenta Fed Watch, do CME Group, aponta que as apostas por um corte de juros pelo Federal Reserve estão apenas para junho de 2027. Segundo os dados, 38,1% preveem um corte de 0,25 ponto percentual, 13,7%, um de 0,50 pp, e 2,7%, um de 0,75 pp.
O que pode entrar no caminho
Santana, da Top Gain, avalia, em contrapartida, que esse cenário pode ser revertido, já que 2026 é um ano eleitoral e que, se o governo gastar além do previsto, as preocupações fiscais podem retornar. “Isso é o que, sem dúvida, mais pode tirar dólar do Brasil”, afirma.
O CEO da Route Investimentos, Daniel Borges, considera que não se pode ignorar os riscos domésticos com a aproximação do período eleitoral, que historicamente traz ruídos fiscais e incertezas políticas que pressionam o câmbio.
“Na nossa avaliação, qualquer desvio na condução das contas públicas ou aumento da polarização pode reverter rapidamente esse movimento, empurrando o dólar de volta para patamares de R$ 5,40 ou mais”, diz Borges, que destaca que o cenário no longo prazo para a divisa no Brasil ainda é de alta volatilidade.
Para Bezzon, da Stonex, é importante ponderar que a taxa de câmbio já apresentou uma queda significativa no ano, saindo da faixa de R$ 5,50 para R$ 5,10. Assim, por mais que o viés seja de baixa para o dólar, uma parte desse movimento já foi precificada, o que pode limitar novas quedas no curto prazo, explica.
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