Brasileiros perdem interesse na renda fixa e ações ganham espaço aos poucos — mesmo com a guerra aumentando os riscos, diz XP
Levantamento com assessores indica que apetite por risco permanece inalterado, com o sentimento pelo Ibovespa deteriorando na margem

Nem mesmo a eclosão da guerra no Oriente Médio abalou a confiança do investidor brasileiro. Pelo menos é isso que indica um levantamento da XP realizado em março, que verificou que o apetite a risco permanece o mesmo, com uma dispersão um pouco maior no percentual de alocação em ações.
A proporção de clientes que mantinha um percentual de 10% a 25% da carteira em ações diminuiu um pouco em meio ao conflito, de 48% em fevereiro para 37% em março, mas remanejando para outros percentuais.
A posição de 0% a 10% da carteira em ações aumentou de 38% para 43% neste mês, e a de 25% a 50% subiu de 9% para 15% no mesmo período.
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Sobre os próximos passos, o relatório aponta que a proporção dos respondentes que planejam reduzir sua alocação em ações permaneceu inalterada em 9%, enquanto os que planejam aumentá-la chegou a 32%, uma redução de um ponto percentual em relação a fevereiro.
Ao mesmo tempo, a parcela de investidores que pretende manter a posição em ações inalterada subiu esse 1 p.p. residual, para 59% em março.
“Os dados da nossa pesquisa mostram pouco impacto nos níveis de alocação e apetite por risco entre investidores pessoa física. Isso é reforçado pelos fluxos líquidos positivos de R$ 0,9 bilhão desse segmento em março na Bolsa brasileira”, diz o relatório da XP, que consultou 208 assessores filiados.
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Renda fixa sob ameaça
Se a resiliência das ações brasileiras soa surpreendente em meio a volatilidade causada pela guerra, a turbulência na hegemonia absoluta da renda fixa é ainda mais inesperada.
O interesse por ativos do Tesouro Direto e Renda Fixa, que costumava orbitar patamares elevados de forma isolada, caiu drasticamente em março.
O levantamento da XP mostra uma queda de 15 pontos percentuais (p.p.) de fevereiro para março, com o interesse em renda fixa recuando para 60%.
Os fundos de renda fixa passaram pelo mesmo movimento e viram o interesse minguar para 40% (-14 p.p.), perdendo o posto de segundo lugar no ranking de interesse entre ativos.
Com isso, os fundos de renda fixa atingiram o mesmo patamar de interesse de ações, também em 40% em março — ante 46% em fevereiro.
Também chama a atenção no ranking deste mês a queda de posição do interesse por investimentos internacionais. O percentual diminuiu de 39% para 25% em março (-14 p.p.), sendo os ETFs (62%) a principal escolha de alocação nessa classe.
Sentimento pelo Ibovespa balançado
A alocação em ações resistiu, mas o humor do investidor não passou ileso ao conflito.
O sentimento médio dos assessores em relação à Bolsa deteriorou de fevereiro para março, caindo de 7,2 para 6,7.
O rastro da guerra no Oriente Médio e a pressão nos preços do petróleo ajustaram as expectativas para o Ibovespa, que agora tem uma projeção de 188 mil pontos para o final de 2026 — um potencial de alta modesto, de apenas 3% frente aos níveis atuais.
A maior parte (31%) dos assessores indicaram que esperam que o Ibovespa encerre 2026 na faixa de 190 mil a 200 mil pontos, enquanto 14% veem o índice terminando entre 200 mil e 210 mil pontos.
A parcela mais pessimista de respondentes, que projeta o Ibovespa abaixo de 160 mil pontos até o fim do ano, aumentou levemente para 10%, segundo o relatório.
Setorialmente, o investidor dá sinais da sua cautela ao optar por ações defensivas. O setor Financeiro permanece no topo das preferências (70%).
Elétricas e Saneamento também são destaques (50%), mas a alta vertiginosa de um mês para o outro foi a maior exposição ao segmento de Petróleo & Gás. O interesse saltou de 50% em fevereiro para 66% em março, impulsionado pela valorização da commodity.
Riscos geopolíticos no radar
A pesquisa da XP deixa claro que o mapa de riscos do investidor foi redesenhado. Embora os riscos fiscais domésticos ainda liderem as preocupações (30%), eles perderam terreno para o cenário externo.
As preocupações com eventos geopolíticos dispararam para 26% ante 10% no mês anterior, empatando tecnicamente com a instabilidade política local como os maiores temores para os ativos brasileiros.
O receio em relação aos juros mais altos também entrou no radar, saindo de 2% em fevereiro para 10% em março.
Atualmente, para que o mercado volte a ganhar tração de forma sólida, o investidor não espera apenas cortes de juros. Um novo catalisador ganhou força: a retomada das performances sólidas, com menos volatilidade.
Este fator foi citado por 20% dos respondentes como essencial para destravar o apetite por risco nos próximos meses, ante 10% na pesquisa anterior.
No entanto, o corte de juros e a mudança de rumo na política econômica ainda têm mais força, com 40% e 29% de adesão, respectivamente.
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