BlackRock aposta no Brasil: renda fixa paga prêmio de país arriscado, mas risco já não é o mesmo
Gestora global vê combinação rara de juros elevados, resiliência econômica e exposição à inteligência artificial; país é destaque apesar das incertezas eleitorais

A renda fixa brasileira continua pagando juros de país arriscado. O problema — ou a oportunidade, dependendo do ponto de vista — é que o risco é significativamente menor do que aquele que historicamente justificava esse prêmio, segundo a gestora global BlackRock.
Em coletiva com a imprensa nesta quinta-feira (2), Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina, afirmou que a casa está overweight (posição acima da média) para dívida de mercados emergentes e citou Brasil, México e Colômbia como mercados atrativos em moeda local.
Para a maior gestora de recursos do mundo, com US$ 13,89 trilhões sob gestão, o país chega ao segundo semestre de 2026 ocupando uma posição privilegiada entre seus pares.
"Os mercados emergentes — e a América Latina e o Brasil são bons exemplos disso — têm sido capazes de oferecer uma combinação muito atraente de renda. Retornos elevados, mas em condições muito mais estáveis do que aquelas que vimos no passado", afirmou Christensen.
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Para o estrategista, o Brasil e demais países latinos passaram por um teste de estresse quase ilesos, algo que poucos acreditavam ser possível alguns anos atrás. O desafio foi sobreviver ao ciclo mais agressivo de aperto monetário dos Estados Unidos em décadas sem mergulhar em uma crise cambial ou financeira.
Prêmio maior que o risco
Durante décadas, investir em dívida emergente significava aceitar volatilidade elevada em troca de retornos maiores. Segundo Christensen, esse cenário mudou.
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Para a BlackRock, os bancos centrais latino-americanos foram mais rápidos que os países desenvolvidos para enfrentar a inflação que surgiu após a pandemia. O Brasil, na visão da gestora, é um dos melhores exemplos desse movimento.
"Quando vimos a aceleração da inflação há alguns anos, o Banco Central brasileiro começou a elevar os juros cerca de um ano antes do Federal Reserve, nos Estados Unidos", disse Christensen.
Para ele, essa antecipação ajudou a preservar a credibilidade da política monetária e preparou o país para enfrentar um ambiente global mais turbulento.
Agora, entretanto, os investidores continuam recebendo um retorno elevado na dívida brasileira. "Estamos recebendo um nível muito atraente de renda, mas com um risco muito menor do que estávamos acostumados a ver nos mercados emergentes”, disse o estrategista.
Num passado não tão distante, uma alta forte dos juros nos EUA frequentemente provocava fuga de capital, forte desvalorização cambial e até crises de dívida em economias emergentes. Desta vez, segundo Christensen, isso não aconteceu.
Um dos sinais dessa redução de risco, segundo ele, aparece nas moedas. Tradicionalmente, quando os juros norte-americanos sobem, moedas emergentes sofrem grandes desvalorizações.
“Ao longo deste ano, estamos observando uma certa recuperação do dólar. Mas o impacto nas moedas emergentes, incluindo o real brasileiro, tem sido, na melhor das hipóteses, modesto. Elas continuam bastante estáveis, novamente, porque existem outros fatores que permitem que as economias resistam, sejam mais resilientes de uma maneira muito melhor do que no passado.”
Exposição a inteligência artificial no Brasil, sim
O otimismo da BlackRock com o Brasil, porém, vai muito além dos juros e da renda fixa. A tese que Christensen mais mencionou na coletiva foi inteligência artificial (IA) — com o Brasil no centro desta oportunidade.
O país não será protagonista porque desenvolve os modelos mais avançados do mundo. A aposta é outra: no fornecimento dos insumos que tornam possível essa transformação tecnológica.
"O Brasil e outros países da região são fontes muito importantes de minerais críticos, necessários não apenas para a inteligência artificial, mas também para a transição energética", afirmou o estrategista.
Segundo ele, a demanda estrutural por esses materiais deve aumentar nos próximos anos, beneficiando países e empresas ligadas à mineração e ao processamento de recursos estratégicos.
O executivo destacou ainda o potencial das reservas brasileiras de terras raras. "Existe uma oportunidade muito relevante de transformar essas reservas em produção de larga escala nos próximos anos."
Infraestrutura é a peça-chave
E é na infraestrutura que essas teses (juros e minerais críticos) se encontram.
A BlackRock acredita que o país precisará ampliar investimentos em logística, transporte e energia para transformar suas vantagens competitivas em crescimento econômico.
"Dentro do Brasil, acreditamos que a infraestrutura desempenha um papel muito importante na atração de interesse dos investidores", disse Christensen.
A avaliação da gestora é que boa parte das oportunidades associadas à IA, à mineração e à transição energética passa necessariamente por obras de logística, expansão da rede elétrica e modernização da capacidade produtiva.
Na prática, o Brasil reúne atributos que hoje são valorizados pelos investidores globais: abundância de recursos naturais, produção agrícola, capacidade energética e reservas minerais estratégicas.
A grande questão é transformar todo esse potencial em ativos investíveis, com juros adequados e estabilidade política para atrair os estrangeiros. E isso passa por um dos temas do segundo semestre: as eleições.
E as eleições de 2026?
Christensen desviou das projeções de resultado e foi categórico ao afirmar que, para a BlackRock, o que importa é que o próximo governo encaminhe dois desafios:
- acelerar o crescimento econômico do país, avaliado atualmente como modesto; e
- criar condições para juros mais baixos e mais investimento em infraestrutura.
"Na medida em que o Banco Central continuar a desempenhar bem o seu papel no controle da inflação, esperamos ver taxas de juros mais baixas que possam facilitar o aumento dos investimentos, especialmente na área de infraestrutura."
Ações para BlackRock
A BlackRock reduziu neste segundo semestre sua recomendação para ações de mercados emergentes: de overweight para neutra.
Segundo Christensen, a mudança refletiu principalmente a forte valorização registrada por mercados asiáticos vinculados à inteligência artificial, especialmente a Coreia do Sul, que acumulava retorno superior a 60% em 12 meses.
A gestora decidiu realizar parte dos ganhos e adotar uma postura mais seletiva. Neste contexto, a América Latina ganhou espaço.
"Estamos redirecionando nosso interesse dentro dos mercados emergentes para a América Latina e, naturalmente, para o Brasil, dado seu tamanho e importância na região", afirmou o estrategista.
Atualmente, dentro do conjunto que compõe mercados emergentes, os países latinos têm um peso muito menor do que a Ásia, de apenas 10%, o que não sustenta uma manutenção da posição overweight.
Entretanto, segundo Christensen, “ainda vale a pena destacar as oportunidades”.
Para além do Brasil, Chile, Peru e Argentina também são mercados no radar da gestora.
“A região se destaca em várias frentes: IA, nova ordem geopolítica, cadeias de suprimentos e a segurança que oferece. Mais uma vez, durante o conflito no Oriente Médio, demonstraram um grau significativo de resiliência. E os investidores estão percebendo isso.”
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