Não uma, mas várias bolhas da IA: Deutsche Bank aponta os exageros e o que realmente pode dar errado a partir de agora
Além das bandeiras vermelhas e verdes ligadas às ações de empresas de inteligência artificial, o banco alemão também acende o sinal amarelo sobre o setor

Red flag não serve apenas para definir relacionamentos tóxicos ou características pessoais que demandam cautela. A expressão viralizada no Tik Tok também está sendo usada para indicar a mais recente fonte de preocupação dos investidores globais: a bolha da inteligência artificial (IA) — e aqui aparece a primeira bandeira vermelha.
Segundo o Deutsche Bank, é possível que exista não apenas uma, mas várias bolhas da IA, e são justamente as red flags que ajudam a identificar se elas vão estourar ou se todo esse temor não passa de exagero do mercado. O banco alemão lista três sinais de alerta:
- Valuations elevados;
- Investimentos;
- Falhas de tecnologia.
De olho nas red flags que podem surgir entre as empresas ligadas à IA, o Deutsche Bank diz que se esta é uma bolha, ela ainda está em seus estágios iniciais — e faz uma diferenciação importante com o estouro da bolha da internet.
"Recuar agora significa correr o risco de perder ganhos significativos. Mais de três anos se passaram desde que o então presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, alertou sobre a 'exuberância irracional' em dezembro de 1996, até que a bolha da internet estourou", dizem os analistas Adrian Cox e Stefan Abrudan.
A dupla lembra que a bolha da internet não foi uma, mas duas: IPOs (ofertas iniciais de ações) pouco capitalizados e nunca lucrativos, e a outra com empresas de telecomunicações altamente endividadas que instalaram cabos de fibra óptica que permaneceram inativos por anos.
"Desta vez, a onda é liderada por grandes empresas de tecnologia bem estabelecidas, com múltiplas fontes de receita, que financiam seus investimentos em data centers, principalmente com fluxo de caixa livre, e geram retornos imediatos de clientes corporativos", afirmam.
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Segundo os analistas, as empresas não lucrativas na vanguarda do desenvolvimento de modelos e aplicativos ainda são privadas, com compromissos de gastos que podem ou não ser cumpridos, dependendo de como os modelos de negócios evoluem.
As red flags da IA
- Valuation
Entre as red flags da IA, o Deutsche Bank destaca que o Shiller Cape do S&P 500 — que faz uma avaliação do preço do mercado — já ultrapassou 40 pontos, nível próximo ao observado na bolha da internet, quando o indicador atingiu 44 pontos.
Em outras palavras: o dado mostra que o mercado como um todo negocia próximo de patamares historicamente esticados, o que aumenta a sensibilidade a choques macroeconômicos ou frustrações de resultados.
O banco alemão, no entanto, lembra que, diferentemente dos anos 2000, a alta recente das ações de tecnologia tem sido liderada por crescimento de lucros, e não apenas por expansão de múltiplos.
Adrian Cox e Stefan Abrudan citam múltiplos elevados em nomes como OpenAI, criadora do ChatGPT, e Anthropic, enquanto empresas como Nvidia, Microsoft, Google e Amazon negociam a preços mais moderados quando comparados à geração de caixa e às receitas já existentes.
A dupla de analistas cita ainda que o prêmio de valuation do setor de tecnologia em relação ao restante do S&P 500 gira em torno de 60%, patamar que o Deutsche Bank considera compatível com um diferencial de crescimento de lucros superior a 20%.
Além disso, as maiores distorções de preço não estão nas empresas listadas, mas sim em companhias privadas e ainda não lucrativas.
- Investimentos
Outro ponto central do debate é o volume de investimentos. Segundo o Deutsche Bank, o capex global em data centers e infraestrutura de IA pode alcançar US$ 4 trilhões até 2030, um número sem precedentes.
No entanto, o banco alemão argumenta que o ciclo atual difere do passado porque os hyperscalers (empresas que operam imensos data centers com infraestrutura massiva e global, a exemplo de AWS, Google Cloud, Azure) estão financiando a maior parte desses investimentos com fluxo de caixa próprio, e não com endividamento excessivo ou emissões especulativas.
O capex do setor de tecnologia permanece abaixo de 40% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), nível inferior ao observado no fim dos anos 1990 e alinhado ao restante do S&P 500. Além disso, os retornos já começaram a aparecer, segundo os analistas.
O Deutsche Bank observa ainda um aumento consistente do retorno sobre o capital investido (Roic) das grandes empresas de tecnologia desde o início do ciclo de inteligência artificial, impulsionada por demanda corporativa por serviços em nuvem, ferramentas baseadas em IA e ganhos de eficiência, especialmente em desenvolvimento de software.
- Falhas de tecnologia
No campo tecnológico, o Deutsche Bank reconhece que a IA generativa segue apresentando falhas, como alucinações, dificuldades de aplicação em larga escala e custos elevados de treinamento.
Há também o risco de que a escalada de poder computacional encontre barreiras físicas, como limites na movimentação de dados entre chips e no consumo de energia.
Ainda assim, os analistas dizem que a tecnologia não “bateu de cara no muro” e citam avanços recentes, como o lançamento do Gemini 3 pelo Google, indicando que o escalonamento continua entregando ganhos relevantes de capacidade, especialmente em tarefas multimodais e de raciocínio.
Ao mesmo tempo, os custos dos modelos vêm caindo rapidamente, o que estimula novos usos e amplia a demanda.
Revolução ou bolha? A verdade sobre a febre da inteligência artificial
As green flags da IA
Se existem as red flags da IA, o Deutsche Bank também lista das greens flags.
Segundo o banco alemão, o impacto da IA vai além do mercado financeiro. Os analistas lembrar que a economia norte-americana estaria próxima de uma recessão em 2025 se não fosse o investimento em tecnologia, especialmente em software, equipamentos de TI e infraestrutura ligada à inteligência artificial.
Além disso, Adrian Cox e Stefan Abrudan lembram que os componentes do gasto privado permanecem praticamente estagnados no período pós-pandemia.
Esse ponto reforça a tese de que, mesmo com riscos crescentes, a IA já se tornou um pilar do crescimento econômico nos EUA, o que dificulta comparações diretas com bolhas puramente especulativas do passado.
O sinal amarelo
Embora reconheça que se há bolha na IA, ela está no começo, o Deutsche Bank chama atenção para alguns sinais amarelos no horizonte. São eles:
- Valuations sustentados por financiamento circular, com acordos complexos entre empresas de IA, provedores de nuvem e fabricantes de chips;
- Aumento do endividamento, caso os custos de infraestrutura continuem subindo;
- Retornos tecnológicos decrescentes, caso a escalada de modelos fique cada vez mais cara e menos eficiente;
- Reação social e política, com resistência a IA por medo de perda de empregos, privacidade e controle;
- Gargalos de oferta, especialmente em energia elétrica e semicondutores, que podem atrasar a adoção e elevar custos.
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