Acordo entre EUA e Irã vai sair do papel? Mediadores viajam a Teerã para finalizar negociações; veja o que está em jogo
Donald Trump afirmou que o acordo será assinado ainda hoje, mas Teerã descartou a possibilidade

Quase quatro meses depois da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, um acordo entre os governos parece estar perto de sair do papel. Nesta manhã (14), mediadores do Catar viajam a Teerã para finalizar as negociações, de acordo com duas autoridades da região.
As fontes, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizadas a falar com a mídia, expressaram um otimismo contido de que um acordo seja concretizado.
Já o presidente norte-americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, disseram ontem que o tratado seria assinado neste domingo.
O problema é que o mundo já ouviu esse discurso antes. Nos últimos meses, Trump afirmou em diversas ocasiões que as negociações estavam na fase final, porém o governo iraniano quase sempre negava.
Porém, dessa vez, o porta-voz do ministério das relações exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que isso poderia acontecer nos próximos dias. Apesar disso, Teerã descartou a possibilidade de um acordo ser firmado ainda hoje.
Caso as negociações cheguem ao fim neste domingo, a expectativa é de que o tratado seja assinado eletronicamente, sem uma cerimônia presencial.
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O que está em jogo?
Com o objetivo de neutralizar o programa nuclear iraniano e eliminar “ameaças iminentes” à segurança norte-americana, os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro. Desde então, o conflito provocou instabilidade em toda a região e nos mercados globais.
Isso porque, em resposta, Teerã fechou o Estreito de Ormuz, por onde escoa mais de 20% do petróleo do mundo. O fechamento da passagem afetou o abastecimento de energia, pressionou os preços dos combustíveis e teve reflexos sobre a inflação mundial, com um aumento do custo de alimentos e outros produtos.
Segundo um integrante do governo norte-americano, o acordo em discussão prevê medidas para restabelecer o tráfego marítimo na região. Trump também afirmou que o Estreito de Ormuz seria aberto imediatamente após a assinatura.
Já o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país defende um entendimento que permita ao governo persa cobrar dos navios pelos serviços prestados durante a travessia do estreito. “Haverá custos envolvidos. E esses custos devem ser pagos”, afirmou.
Além de reabrir o Estreito de Ormuz, o acordo poderia interromper as hostilidades que mataram milhares de pessoas e chegaram a afetar o Líbano. Isso porque Israel combate o Hezbollah, grupo aliado de Teerã, no território libanês desde o início de março.
Em entrevista à TV estatal iraniana na sexta-feira (12), Araghchi afirmou que as partes trabalham para firmar um acordo inicial que declare o fim da guerra “em todas as frentes, incluindo o Líbano”.
Embora não participe diretamente das negociações, o governo israelense afirma que não pretende retirar suas tropas do território libanês.
Porém, o ponto principal — e a justificativa para o início da guerra em fevereiro — ainda ficará em aberto. Segundo Araghchi, as definições sobre o programa nuclear iraniano ficariam para uma etapa posterior, com prazo de até 60 dias após a assinatura do acordo inicial. Ele acrescentou que esse período poderá ser prorrogado por consenso entre as partes.
O programa nuclear do Irã ainda é um dos pontos de divergência nas negociações. Estados Unidos e Israel afirmam que o programa pode abrir caminho para o desenvolvimento de armas nucleares, enquanto Teerã sustenta que suas atividades têm fins exclusivamente pacíficos.
Ainda na sexta-feira, um alto funcionário do governo norte-americano afirmou, sob condição de anonimato, que o acordo em discussão prevê o início do processo de destruição ou retirada do urânio altamente enriquecido armazenado pelo Irã.
De acordo com ele, o período de 60 dias após a assinatura do acordo serviria justamente para definir os detalhes técnicos dessa operação.
O representante não informou quem seria responsável pela remoção do material, que, segundo estimativas, está armazenado em instalações nucleares subterrâneas alvo de ataques dos Estados Unidos no ano passado.
O que diz Donald Trump sobre acordo entre EUA e Irã
Ontem (13), o presidente dos Estados Unidos se pronunciou sobre as negociações para encerrar a guerra com o Irã por meio de uma publicação na rede social Truth Social.
"O acordo está programado para ser assinado amanhã e, imediatamente após ser assinado, o Estreito de Ormuz ESTARÁ ABERTO A TODOS", escreveu Trump.
O presidente também sugeriu que os Estados Unidos trabalharão com o Irã para remover urânio enriquecido do país em uma data indeterminada.
"No momento apropriado, quando tudo estiver calmo, entraremos e pegaremos a Poeira Nuclear, enterrada profundamente sob as poderosas montanhas de granito afundadas", disse ele.
"Estamos ansiosos para trabalhar com o Irã e todo o Oriente Médio por muito tempo", acrescentou.
A publicação de Trump no sábado terminou com o que parecia ser uma ameaça velada contra o Irã caso os líderes não cumpram as exigências dos EUA. "Espero que todo esse processo funcione rápido, fácil e sem problemas. Se não funcionar, temos a alternativa definitiva, esperamos nunca mais ser usada!"
Ainda no sábado, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif disse que os governos estão "mais próximos de um acordo de paz do que nunca", indicando uma finalização nas próximas 24 horas com "conversas em nível técnico na próxima semana".
Trump repostou esses comentários em sua conta Truth Social.
No entanto, um alto funcionário do governo dos Estados Unidos disse na sexta-feira que o governo não está 100% confiante de que o acordo será assinado.
Faltou combinar com o Irã
Segundo a agência de notícias persa Fars, o governo do país ainda não anunciou uma decisão final sobre "o entendimento proposto com os Estados Unidos, acrescentando que revisões políticas, legais e técnicas das propostas ainda estão em andamento".
No sábado, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, foi citado pela mídia estatal dizendo que era necessário cautela quanto ao momento da assinatura de qualquer acordo.
"Teremos que esperar para ver a data exata da assinatura do memorando de entendimento, embora não seja amanhã", informou a mídia estatal na véspera.
"A possibilidade de isso acontecer nos próximos dias não pode ser descartada. No entanto, devido à hesitação do outro lado, devemos ser cautelosos ao fazer quaisquer comentários sobre esse processo".
*Com informações do Estadão Conteúdo e CNBC.
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