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Shutdown expõe contradições em cidade que depende de empregos federais — e que ajudou a eleger Trump em 2024

Desde 1º de outubro, diversos serviços públicos dos Estados Unidos foram interrompidos após o Congresso não chegar a um acordo sobre o projeto orçamentário para estender o financiamento federal. Essa paralisação, também conhecida como ‘shutdown’, afeta setores como o aéreo, do turismo, também o pagamento de benefícios e distribuição de determinadas verbas.
E uma cidade em específico, onde 67% da população votou em Donald Trump, está sofrendo com as consequências mais do que outras.
Localizada na Costa Leste dos EUA, na Virgínia Ocidental, a pequena cidade de Martinsburg tem cerca de 20 mil habitantes, sendo 3.300 empregados por agências federais entre o hospital de veteranos, uma unidade de processamento do Internal Revenue Service (IRS, equivalente à Receita Federal nos EUA) e um escritório de assistência agrícola.
Outros mil, que também são funcionários públicos, viajam diariamente para Washington DC — que fica a apenas 136 km de distância.
O veterano de guerra, Jonathan Giba, é um dos afetados. Desde que se mudou para um abrigo temporário para ex-combatentes, ele aguarda consultas médicas e odontológicas depois que os medicamentos que lhe foram prescritos o deixaram sem dentes e incapaz de andar — agora, com o shutdown, ele deve ter que esperar mais.
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O hospital do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA (VA), onde Giba está internado, ainda oferece atendimento médico, mas já teve de interromper outros programas.
Já o veterano da força aérea norte-americana Marcellus Brothers está preocupado com o que está por vir. "Estamos no limbo, é assustador", disse ele à BBC.
Até agora, mais de 700.000 pessoas estão de licença não remunerada, enquanto cerca de 200.000 outros trabalhadores considerados essenciais estão trabalhando sem remuneração enquanto o impasse político se arrasta.
A paralisação é a 15ª desde 1981. A mais longa aconteceu durante o primeiro mandato de Trump e durou 35 dias, entre 2018 e 2019.
Agora, em um estado que já estava sendo afetada pelos cortes de emprego promovidos pelo presidente norte-americano para reduzir os gastos federais, esse interrompimento dos serviços ameaça ainda mais a Virginia Ocidental, segundo Kelly Allen, diretora-executiva do Centro de Orçamento e Política da Virgínia Ocidental.
"Temos mais funcionários do governo federal do que mineradores de carvão — um dos principais motores econômicos do estado — na Virgínia Ocidental", diz ela à BBC. "É claro que esses empregos são bem remunerados, vêm com bons benefícios e, em um estado com poucos empregos bem remunerados, isso é muito importante."
Um centro de serviços do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) — responsável por auxiliar agricultores, pecuaristas e proprietários de terras com tarefas como solicitação de empréstimos agrícolas e assistência a desastres — já fechou suas portas e só deve reabrir a mando do governo.
Na última quarta-feira (8), o IRS (Receita Federal norte-americana) licenciou 34.000 trabalhadores, então setor de serviços de Martinsburg pode ser afetado em breve.

A paralisação do governo americano já começa a pesar sobre a economia. Economistas estimam que cada semana de interrupção pode reduzir entre 0,1 e 0,2 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Desta vez, o impacto tende a ser maior, já que o fluxo de dados oficiais praticamente parou — prejudicando análises e decisões de política econômica.
O Escritório de Estatísticas Trabalhistas (BLS), responsável pelos principais indicadores do mercado de trabalho, adiou o relatório de empregos da semana passada, mas convocou parte da equipe para produzir o mais recente índice de preços ao consumidor (CPI). Outros relatórios cruciais, como os de vendas no varejo, início de construções e estoques empresariais do Censo, também correm risco de atraso.
Além disso, o Escritório de Análise Econômica (BEA) suspendeu suas atividades antes da divulgação da estimativa inicial do PIB do terceiro trimestre, prevista para 30 de outubro. Sem esses dados, o Federal Reserve (Fed) e analistas privados ficam “às cegas” — sem parâmetros confiáveis para avaliar o ritmo da economia e calibrar decisões de juros.
Esses indicadores são fundamentais não apenas para o mercado financeiro, mas também para os ajustes anuais de inflação do governo federal, que determinam reajustes no custo de vida, faixas de imposto de renda, subsídios de empréstimos e análises de custo-benefício de programas públicos.
Embora parte do impacto possa ser compensada após o fim da paralisação — quando os servidores federais receberem o pagamento retroativo —, a incerteza aumentou. Donald Trump colocou em dúvida se todos os funcionários serão integralmente ressarcidos, e na sexta-feira (10) o governo iniciou demissões em massa no funcionalismo. Com isso, a recuperação econômica se torna menos previsível.
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