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Felipe Miranda: Como era verde meu vale do silício

Na semana passada, o mitológico investidor Howard Marks escreveu um de seus icônicos memorandos com o título “Baratas na mina de carvão” — uma referência ao alerta recente de Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, sobre o mercado de crédito

Imagem: Fernando Arcos/Pexels

Entre as várias cenas marcantes de “Como era verde meu vale”, duas em particular atinam os sentimentos mais profundos.

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Na primeira delas, vemos o banho coletivo, em que homens passam minutos esfregando com força e repetição seus corpos tentando limpar-se, sob o alerta do narrador de que parte do carvão irá com eles para o resto da vida.

Certas experiências humanas deixam marcas indeléveis na pele e na alma. A pequena vila de Rhondda, no país de Gales, perderia sua beleza natural para assumir a tonalidade preta e cinza de toda a atividade circunscrita às minas de carvão.

O segundo ato é talvez o mais intenso e expressivo do filme. Ao voltar do trabalho duro na mina, o filho mais novo escorrega sobre a neve, caindo no rio de água de algas congelantes. Num cenário improvável, o garoto consegue sobreviver, mas perde os movimentos das pernas.

“Como era verde meu vale” levou o Oscar de melhor filme na cerimônia de 1942, desbancando o favorito “Cidadão Kane” e a obra-prima "Relíquia Macabra”, rendendo a John Ford o fato inédito de ganhar duas estatuetas sucessivas.

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Alguns acidentes são totalmente inesperados, frutos de um escorregão fortuito, por exemplo, pertencente ao escopo dos riscos não-mapeados por uma distribuição de probabilidades normal. Outros, principalmente em minas de carvão, são razoavelmente passíveis de serem contemplados ex-ante.

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Daí nasce a expressão “o canário na mina de carvão”, pois o pequeno pássaro, por ser mais sensível ao monóxido de carbono e a outros casos tóxicos, era levado às minas para alertar sobre a possível necessidade de evacuação da área.

Na semana passada, o mitológico investidor (e ainda melhor escritor) Howard Marks escreveu um de seus icônicos memorandos com o título “Baratas na mina de carvão”. Era, claro, uma referência ao ditado do canário e também ao alerta recente de Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, ao apontar sobre outras fontes potenciais de perigo no mercado de crédito, além daqueles já descritos em sua última divulgação de resultados trimestrais com First Brands e Tricolor.

Os problemas ali descritos podem não ser necessariamente o início de uma tendência sistêmica, nem uma condenação de todo o mercado de dívida sem grau de investimentos; mas servem como lembrete dos riscos muitas vezes subdimensionados nos títulos de crédito. O rigor e o critério acabam diminuindo depois de anos de trajetória positiva.

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Como resume Marks, "as condições em tempos de bonança geralmente levam a uma redução dos padrões de empréstimo, dando origem a inadimplências elevadas e fraudes ocasionais. É absolutamente essencial sempre equilibrar o desejo de colocar o dinheiro para trabalhar com a necessidade de prudência.”

Também na semana passada, Ray Dalio fez um post em seu LinkedIn batizado “Estimulando dentro da bolha”. O ponto principal era de que, ao flertar com o abandono do aperto monetário quantitativo (enxugamento do balanço do Fed) e o início de um afrouxamento quantitativo, o Fed acaba estimulando ainda mais a liquidez global, num momento em que as ações ligadas à inteligência artificial já se encontram no terreno das bolhas especulativas, de acordo com sua metodologia proprietária.

Ambos os textos vieram na sequência de alertas dos CEOs de Morgan Stanley, Goldman Sachs e Capital Group, sobre potenciais excessos nos valuations das big techs. Seria natural algum tipo de correção, talvez até saudável, depois de tudo que isso subiu.

Como acaba de lembrar Michael Hartnett, do Bank of America Merrill Lynch, ciclos de euforia e bolhas especulativas costumam terminar com avisos de “tomem cuidado” ou “caiam fora antes do estouro”.

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Já há uma série de indicadores potencialmente alarmantes na nossa frente: a concentração das Mag7/IA supera 40% do market cap geral, valuations esticados (megacaps de inteligência artificial negociando acima de 45x lucros), compras globais sucessivas, entrada vigorosa do investidor de varejo (fluxo comprador recorde para tech nos últimos dois meses).

Não considero apropriados os paralelos com 1999, quando os valuations estavam muito desapegados às realidades operacionais, correndo bem à frente dos lucros corporativos. Hoje, há balanços sólidos, barreiras à entrada, muita geração de caixa, presença global das big techs, muito acesso a dados, crescimento contratado por anos, entre outros.

Contudo, as diferenças entre os períodos não podem ser confundidas com a assunção desmedida de riscos. Parece haver grande complacência com os spreads de crédito e a trajetória da dívida pública nos EUA — depois de uma semana de realização importante com as techs, o otimismo volta a contagiar o segmento nesta segunda-feira.

Sob a esperança do fim do shutdown do governo norte-americano, o Nasdaq aparece como destaque de alta nesta segunda-feira, subindo 1,4% em seus contratos futuros. Isso acontece mesmo depois da sinalização de que Donald Trump estaria prometendo um cheque de US$ 2 mil para os norte-americanos necessitados, a partir do dinheiro levantado com as tarifas. Vamos resolver o problema da dívida dos EUA com…. mais dívida!

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Em meio a um ano de retornos muito vigorosos, talvez seja a hora de buscar algum tipo de proteção para as big techs nos EUA. Não significa shortear (vender a descoberto). Como diria Nassim Taleb, só há um idiota maior do que aquele que compra tulipas (em referência à bolha clássica na Holanda): aquele que shorteia tulipas. Se a bolha traz uma alta de, sei lá, 500%, por que ela não pode ir a 1.000%? Qual o limite da exuberância irracional?

Perseguir, no entanto, algumas puts (opções de venda) fora do dinheiro pode ser uma prescrição interessante. Depois de uma boa e saudável correção, as big techs podem oferecer uma clássica oportunidade de uma vida. Mas esse é assunto pra depois.

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