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Tony Volpon: Inteligência artificial — Party like it’s 1998

Estamos vivendo uma bolha tecnológica. Muitos investimentos serão mais direcionados, mas isso acontece em qualquer revolução tecnológica.

3 de novembro de 2025
22:11
Bolha da Inteligência Artificial
Imagem: DALL-E/ChatGPT

Leitores contumazes desta coluna mensal sabem que venho defendendo há muito tempo a importância da temática da inteligência artificial (IA) não somente como o mais importante tema para os mercados financeiros, mas também para a conjuntura econômica. A inteligência artificial não é somente uma tecnologia disruptiva impactando alguns setores do mercado e da economia; hoje, ela virou a economia.

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É salutar ver que outros comentaristas estão finalmente despertando para o tema, com uma avalanche de comentários recentes sobre IA (um exemplo: Ruchir Sharma, no Financial Times, “America is now one big bet on AI”, 06/10/25).

No entanto, a maioria desses comentários é pessimista: o resto da economia norte-americana está indo muito mal; IA é uma bolha prestes a explodir, e isso acontecendo teremos uma recessão – e o fim trágico do governo Trump (para a felicidade de muitos).

LEIA TAMBÉM: Conheça as análises da research mais premiada da América Latina: veja como acessar os relatórios do BTG Pactual gratuitamente com a cortesia do Seu Dinheiro

Pessoalmente, me parece que muitos desses comentários são, em parte, uma tentativa de explicar o erro de previsão que a economia global ia implodir com o choque tarifário norte-americano de abril.

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Mas vale a pena a discussão, que podemos colocar nos seguintes termos da última grande bolha tecnológica dos anos 90: estamos em um momento análogo a 1998 ou 1999?

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Essa diferença de um ano na bolha da internet fez toda a diferença: o Nasdaq subiu 39,6% em 1998, mas 85,6% em 1999. Em seguida, o mercado implodiu em um violento crash em março de 2000.

Apesar dos maiores ganhos em 1999, era melhor e mais seguro estar em 1998 antes da aceleração final. Assim os pessimistas estão implicitamente argumentando que estamos hoje mais para 1999, e que em breve teremos um triste fim.

Os pessimistas estão errados

Acredito que os pessimistas estão errados. Há vários fatores sugerindo fortemente que estamos em um momento mais análogo a 1998.

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O primeiro é o stress nos mercados de crédito e no setor bancário americano – e seus possíveis impactos sobre a política monetária americana.

Após a crise de 2008 e a falência da Lehman Brothers (com a Merril Lynch sendo comprada pelo Bank of America), o Fed e outros reguladores aumentaram significativamente a regulação sobre empréstimos bancários e a necessidade de capital, levando os bancos a restringirem a oferta de crédito.

Isso abriu espaço para o crescimento vertiginoso do private credit — crédito intermediado fora do sistema bancário.

O tamanho dessa modalidade é difícil de estimar, justamente por ser “privada”, mas acredita-se que gire em torno de US$ 3 trilhões, com crescimento de 50% nos últimos cinco anos. Não é pouca coisa.

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Agora quem viveu a crise de 2008 vai notar várias semelhanças entre o private credit de hoje e o “shadow banking” daquela época.

O funding dessas operações vem de investidores institucionais – fundos de pensão e de seguro, family offices. Um dos instrumentos principais utilizados são “Business Development Companies”, ou BDCs. E muitos bancos oferecem linhas de crédito diretamente ou via suas divisões de asset management.

Não é difícil ver as semelhanças entre BDCs e CDOs da crise de 2008…

Vejamos como foi a bancarrota que começou essa onda de preocupações: a empresa de acessórios de carros First Brand, no montante de US$ 11,6 bilhões.

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Durante anos, a First Brand vendia seus recebíveis ao mercado – operações de factoring. Um dos grandes compradores era um fundo, o “Point Bonita”, com US$ 715 milhões de exposição, gerido pelo banco de investimento Jeffries. Suas dívidas eram distribuídas para muitos fundos e bancos, com o UBS se destacando com uma exposição de US$ 500 milhões via seu fundo O’Connor.

Bom, enfrentando uma inesperada e vertiginosa crise de liquidez, a empresa declarou bancarrota e admitiu que US$ 2,3 bilhões “desapareceram do seu balanço”! O CEO da empresa se demitiu, e investigações – inclusive criminais – foram iniciadas.

Inflexão negativa?

Mas todo esse tema não é mais uma prova que estamos em um possível momento de inflexão negativa?

Na verdade, não. Hoje o mercado acionário norte-americano não tem exposição relevante a esses setores com estresse financeiro, dada a concentração da temática da inteligência artificial. Mas na linha de "a bolsa não é economia", esses setores são importantes para o Fed.

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Sua recente decisão de cortar a taxa de juros pela segunda vez e a notícia do fim do quantitative tightening, ou QT – na qual o Fed diminui o tamanho do seu balanço de títulos – foi ofuscada por um Powell mais hawkish do que esperado na sua habitual conferência de imprensa, deixando claro que mais um corte em dezembro não era garantido – como muitos no mercado acreditam.

Com o stress na economia ex-IA e uma onda de demissões ligadas à IA (uma lista parcial: Amazon demitindo 14 mil, planejando cortes totais de 30 mil empregos; UPS demitindo 48 mil), a direção mais provável para a taxa de juros é para baixo.

Ponto para 1998: em setembro daquele ano o Fed cortou juros devido à crise da Rússia e a quase quebra do fundo LTCM. Esses eventos não tinham nada a ver com o setor da internet, mas ajudaram a “turbinar” os ganhos de 1999.

VEJA TAMBÉM: BANCO CENTRAL sob PRESSÃO: hora de baixar o tom ou manter a SELIC nas alturas? - assista o novo episódio do Touros e Ursos no Youtube

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Uma bolha na inteligência artificial?

Outro ponto importante é que os líderes da atual bolha ainda ostentam cashflow positivo, apesar dos largos investimentos em AI (a Oracle é a única exceção relevante a essa regra).

De fato, como aponta o JP Morgan em relatório recente, a posição financeira de todo o setor corporativo continua positiva, muito diferente daquilo visto nos últimos anos da bolha da internet.

No mesmo relatório, JP Morgan critica a noção comum de que os investidores estão demasiadamente posicionados na bolsa. Enquanto o investidor norte-americano tem uma exposição acima da média, a posição de investidores globais no mercado acionário ainda está longe de atingir os picos de 1999 – e de fato, estão mais próximos aos números de 1998.

Em resumo, estamos vivendo uma bolha tecnológica. Muitos investimentos serão mais direcionados, mas isso acontece em qualquer revolução tecnológica.

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Diferente da bolha imobiliária de 2008, não há níveis excessivos de alavancagem nos setores mais próximos a essas tecnologias – ou na economia como um todo. As condições financeiras estão se afrouxando com chances concretas de o Fed retomar o QE em 2026. Valuations são altas, mas não irracionais.

Party like it's 1998…

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