Ibovespa desafia a gravidade e tem a melhor performance desde o início do Plano Real. O que esperar agora?
Em Wall Street, as bolsas de Nova York seguiram voando às cegas com relação à divulgação de indicadores econômicos por conta do maior shutdown da história dos EUA, enquanto os valuations esticados de empresas ligadas à IA seguiram como fonte de atenção

A ideia de anular ou manipular a força da gravidade é comum em filmes e quadrinhos, onde personagens ou dispositivos usam seus poderes para flutuar. O Ibovespa não precisou de nada disso: voou para os 154 mil pontos para encerrar uma semana cheia de recordes — e há quem diga que o céu é o limite para o principal índice da bolsa brasileira.
O JPMorgan, por exemplo, projeta 155 mil pontos para o Ibovespa, enquanto a Santander Corretora estima 160 mil pontos e a XP Investimentos, 170 mil pontos em 2026.
Na sexta-feira (7), o Ibovespa alcançou o 13º avanço diário consecutivo, renovando recorde de encerramento nas últimas 10 sessões. Assim, aproximou-se um pouco mais da performance registrada entre maio e junho de 1994, durante o nascimento do real, quando emendou 15 altas sem interrupção, no intervalo de 17 de maio a 7 de junho.
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Com isso, o índice encerrou a semana com ganho acumulado de 3,0% em reais e 3,9% em dólares.
De acordo com analistas, os resultados corporativos têm falado mais alto, impulsionando a bolsa brasileira, que também é favorecida pelo movimento de rotação de ações em nível global, ante o questionamento sobre a sustentabilidade do crescimento das empresas ligadas à inteligência artificial (IA).
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“As empresas brasileiras vêm apresentando resultados sólidos no terceiro trimestre até o momento: das cerca 140 companhias do nosso universo de cobertura, 51% superaram as estimativas de lucro, 25% foram em linha e 24% ficaram abaixo das expectativas”, disse Fernando Ferreira, estrategista-chefe e head do research da XP.
Ele chama atenção para o fato de a semana ter sido marcada por um desempenho superior das large caps em relação às small caps, com o Ibovespa superando o desempenho do índice SMLL, que subiu 1,3% na semana.
Juros altos no caminho do Ibovespa
O Ibovespa manteve a forte performance na semana mesmo com o tom ainda duro no comunicado que trouxe a decisão de política monetária do Banco Central, que não deu sinais claros sobre o momento em que a Selic, mantida a 15% ao ano, poderá começar a ser cortada.
“O fato de o comunicado ter permanecido praticamente inalterado em comparação com o de setembro — apesar da melhora na perspectiva da inflação — é um sinal de postura mais conservadora. Contudo, a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (11), pode suavizar o tom”, disse David Beker, analista do Bank of America.
O BofA ainda espera o início do afrouxamento monetário em dezembro, com um corte de 50 pontos-base e a taxa Selic atingindo 11,25% até o final de 2026. A projeção, no entanto, não é um consenso. Boa parte do mercado não espera mudanças nos juros até pelo menos janeiro do ano que vem.
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Ibovespa voa alto, Nova York voa às cegas
Se o Ibovespa desafia a gravidade do mercado financeiro e voa cada vez mais alto, o mesmo não acontece em Wall Street, onde as bolsas voaram mais uma vez às cegas com relação aos indicadores econômicos por conta do shutdown.
Apesar da ausência de dados, a expectativa é de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), assim como o observado no fim de outubro, volte a cortar juros em dezembro — o que tende a ampliar o diferencial em relação à taxa de juros do Brasil, favorecendo o carry trade, com apreciação do real e apetite por ações na B3.
“Embora a falta de divulgação de dados ofereça ao Fed o caminho mais fácil de se esquivar dos sinais sobre os juros daqui para frente, acreditamos que outro corte na taxa de juros é mais provável do que improvável em dezembro”, disse Thomas Feltmate, diretor e economista-chefe da TD Economics.
A preocupação com os valuations esticados de empresas ligadas à inteligência artificial também pensam sobre Wall Street. Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, não houve um gatilho específico para as perdas, mas uma combinação de fatores que pesou sobre a confiança dos investidores.
“A Palantir, por exemplo, divulgou resultados que o próprio CEO considerou como os melhores e mesmo assim viu suas ações caírem 8% em um ajuste claro de posições. Executivos de Wall Street como os CEOs do JP Morgan e do Goldman Sachs manifestaram preocupações com valuations esticados. Tudo isso estimulou uma redução seletiva de riscos, que se espalhou por outros ativos ligados a tecnologia”, disse.
O que esperar da próxima semana
Na ciência, não é possível simplesmente desligar a gravidade. O mercado financeiro, os ganhos do passado não garantem ganhos futuros.
Embora os bancos e corretoras apostem que o Ibovespa siga voando para patamares mais elevados, o principal índice da bolsa brasileira pode enfrentar alguma turbulência.
No Brasil, o destaque será a divulgação da ata do Copom na terça-feira (11), que trará um detalhamento sobre a reunião em que decidiu pela manutenção da taxa Selic em 15%.
No mesmo dia, o IBGE divulgará o IPCA de outubro, que deve trazer sinais adicionais de alívio. Em relação à atividade econômica, destaque para a publicação das receitas do setor de serviços e vendas no varejo, ambas referentes a setembro.
No cenário internacional, a agenda de indicadores dos Estados Unidos seguirá esvaziada devido ao mais longo shutdown da história do país. Enquanto isso, as falas de dirigentes do Fed deverão movimentar os ativos financeiros.
Na China, serão divulgados os indicadores de atividade econômica de outubro, incluindo produção industrial, vendas no varejo, investimentos em ativos fixos e taxa de desemprego.
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