Juros nos EUA: como Trump pode influenciar as decisões do Fed se voltar à Casa Branca — Kamala Harris discorda
Na quinta-feira (8), o republicano deu o sinal mais explícito até agora do interesse em interferir na independência do banco central norte-americano caso vença em novembro

A última pesquisa do New York Times mostrou que Kamala Harris abriu vantagem de quatro pontos em três estados-chave para as eleições de novembro nos EUA — nas casas de apostas, a vice-presidente e candidata democrata também leva vantagem. Mas nem por isso o mercado perde de vista o efeito que uma possível vitória de Donald Trump pode exercer sobre os juros na maior economia do mundo.
Na quinta-feira (8), o republicano deu o sinal mais explícito até agora de seu interesse em interferir na independência do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) caso volte à Casa Branca.
Na ocasião, Trump disse a repórteres em sua residência em Mar-a-Lago: "Eu sinto que o presidente deveria ter pelo menos uma palavra a dizer" nas decisões do Fed.
O comentário segue a notícia do The Wall Street Journal indicando que os aliados de Trump elaboraram propostas que tentariam minar a independência do Fed caso o republicano vença as eleições de 5 de novembro.
Embora a campanha de Trump tenha se distanciado da notícia, os últimos comentários indicam que ele está alinhado com um dos principais argumentos das propostas: se for novamente presidente, o republicano deve ser consultado sobre decisões de juros, e as propostas de regulamentação bancária do Fed devem estar sujeitas à revisão da Casa Branca.
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Kamala Harris vai no caminho aposto
Os prováveis planos de Trump para o Fed contrastam com o que sua rival, a vice-presidente Kamala Harris, pensa para o banco central norte-americano.
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Na sábado (9), Harris discordou veementemente da sugestão do republicano de que os presidentes dos EUA deveriam ter uma palavra a dizer nas decisões de juros do Federal Reserve.
"Eu não poderia… discordar mais fortemente", disse Harris a repórteres no Arizona, referindo-se aos comentários do candidato presidencial republicano. "O Fed é uma entidade independente e, como presidente, eu nunca interferiria nas decisões que o Fed toma."
Com apenas 87 dias até a eleição, a vice-presidente também contou aos repórteres que está se preparando para revelar uma plataforma oficial de política econômica nos próximos dias.
A verdade é que as reclamações de Trump sobre o banco central norte-americano — especialmente em momentos de juros mais altos — não são exatamente uma novidade.
Ele passou boa parte de seu primeiro mandato criticando Jerome Powell, presidente do Fed, pelas taxas elevadas. Vale lembrar que foi o próprio Trump que indicou Powell para o comando do BC dos EUA.
A novidade, no entanto, é a sugestão de um envolvimento tão direto nos assuntos do Fed por Trump — caso vença, o republicano se tornaria o primeiro presidente desde Richard Nixon, no início dos anos 1970, a se envolver diretamente na formulação de políticas do banco central norte-americano.
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Como Trump pode interferir no Fed — e nos juros
O caminho mais direto para Trump interferir no Fed é por meio do processo de nomeação. Assim como no Brasil, o chefe do BC dos EUA é nomeado pelo presidente, sujeito à confirmação do Senado.
A indicação sai do quadro de diretores do BC — eles também são nomeados pelo presidente dos EUA e confirmados pelo Senado e aqui abre-se uma janela para Trump.
Isso porque a próxima diretora cujo mandato vai expirar é Adriana Kugler, indicada por Joe Biden para o Fed em 2021.
Trump poderia substituir Kugler por um outro nome em janeiro de 2026 e depois nomear essa mesma pessoa como presidente do banco central norte-americano, em maio de 2026.
Com isso, Trump pode tentar instalar um chefe do Fed disposto a colocar a lealdade à Casa Branca acima da independência de longa data do banco central norte-americano.
POWELL VAI ARRISCAR CORTAR OS JUROS PERTO DAS ELEIÇÕES AMERICANAS?
O perigo de um BC sem independência nos EUA
Até o momento, o Fed desfruta da independência operacional para tomar decisões que exercem tremenda influência na direção da maior economia do mundo e dos mercados globais, incluindo a bolsa brasileira.
E é essa capacidade do Fed de definir a política monetária por conta própria, sem supervisão política, que sustenta o status do dólar como moeda de reserva internacional.
Esse status, por sua vez, é fundamental para conceder ao governo dos EUA uma capacidade quase irrestrita de tomar empréstimos nos mercados globais de títulos a juros relativamente baixos, apesar de ter uma dívida de US$ 35 trilhões.
A possível interferência mais direta de Trump no BC leva os economistas a temerem o mesmo erro que ocorreu no início dos anos 1970.
Na ocasião, o presidente do Fed, Arthur Burns, foi pressionado por Nixon — que o havia nomeado — a manter uma política monetária expansionista antes da eleição de 1972, apesar das evidências de pressões inflacionárias crescentes.
Em 1974, a inflação estava acima de 12% e continuaria sendo um problema persistente pela próxima década até ser controlada por outro presidente do Fed, Paul Volcker, por meio de aumentos esmagadores de juros que causaram duas recessões no início dos anos 1980.
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Trump está de olho: até quando Powell fica?
Os presidentes e vice-presidentes do Fed cumprem mandatos de quatro anos simultaneamente com os mandatos na diretoria do banco central.
Powell foi nomeado para o conselho do Fed pelo ex-presidente Barack Obama, mas foi Trump quem o escolheu para liderar o banco central, assumindo cargo no início de 2018.
A presidência de Powell expira em maio de 2026, mas seu assento no conselho continua até 2028.
Embora historicamente ex-chefes do Fed não tenham permanecido como conselheiros se não forem renomeados como líderes do BC, não há exigência de que eles saiam.
Se Powell optar por permanecer no conselho ao fim do mandato de presidente, limitaria as opções de Trump para instalar mais membros em conformidade com seus desejos.
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