Problema de bilhões: Irlanda tem R$ 52 bilhões sobrando no orçamento — e não sabe o que fazer com o dinheiro
Graças a uma explosão em receitas fiscais provenientes de empresas multinacionais, o governo de Dublin deve encerrar o ano com recorde de excedente orçamental de 10 bilhões de euros

O governo da Irlanda encontra-se com um problema fiscal que pode parecer incomum para quem vive no Brasil: o país tem muito dinheiro “sobrando” — e não sabe o que fazer com o montante.
Graças a uma explosão em receitas fiscais provenientes de empresas multinacionais, o governo de Dublin deve encerrar o ano com recorde de excedente orçamental.
Nas contas do governo, existem 10 bilhões de euros — equivalente a R$ 52,5, nas cotações atuais — “a mais” no orçamento irlandês.
Para o próximo ano, o excedente deve aumentar ainda mais: a previsão é que os lucros extraordinários atinjam a marca dos 16 bilhões de euros no fim de 2024.
O número foi impulsionado pelo aumento dos lucros inesperados e receitas fiscais corporativas, especialmente do setor de tecnologia e farmácia.
Isso porque, durante anos, os baixos níveis de impostos sobre sociedades na Irlanda atraiu multinacionais — como Google e Meta — a abrir subsidiárias no país. Atualmente, estas subsidiárias são tributadas a uma taxa de 11,5%.
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O que a Irlanda vai fazer com o “dinheiro sobrando”
Agora, o principal problema da Irlanda é decidir o que fazer com a montanha de dinheiro que sobrará ao fim do ano.
O governo atualmente considera cinco principais opções para gastar os valores:
- Guardar o dinheiro para o futuro;
- Quitar dívidas do país;
- Investir em habitações necessárias ou em infraestruturas como hospitais, escolas e um sistema de metrô para Dublin;
- Doar os valores na forma de cortes de impostos e pagamentos de suporte à população.
Acontece que, ainda que todas as opções pareçam positivas, a escolha de qualquer um dos benefícios deverá gerar dor de cabeça ao governo irlandês, segundo a mídia local.
“O que quer que façam, algumas pessoas ficarão muito mal-humoradas”, disse Cliff Taylor, colunista de negócios do jornal irlandês The Irish Times.
“Existem conversas sobre colocar o dinheiro em um fundo soberano, para ajudar a apoiar o aumento dos custos das pensões à medida que a população envelhece. Mas se o governo fizer isso, outras pessoas dirão que nós precisamos urgentemente gastar dinheiro hoje em coisas como habitação e transportes e saúde, além de mudar o nosso sistema energético para lidar com as mudanças climáticas."
De acordo com uma pesquisa do Irish Times, 40% dos entrevistados prefere que o dinheiro extra seja gasto em “transportes públicos, habitação, hospitais e escolas”.
Outros 25% são a favor de gastos em serviços públicos como saúde e educação, enquanto 9% desejam que o governo use o montante para reduzir os impostos.
Uma parcela menor, que não chega a 5% dos entrevistados, prefere que o valor excedente seja usado para o pagamento da dívida nacional ou guardado para custear pensões futuras.
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Os problemas de infraestrutura na Irlanda
Vale destacar que a situação habitacional na Irlanda é uma questão de preocupação para os analistas de mercado.
Com uma das populações que mais cresce na Europa, o país encontra-se em uma verdadeira escassez de casas e apartamentos disponíveis.
Os preços elevados de moradia ainda causaram uma evasão de jovens, que passaram a procurar novos lugares para viver. Por sua vez, o número de pessoas em situação de rua segue em crescimento na Irlanda.
Mas, mesmo que a Irlanda decidisse usar o dinheiro para investir em infraestrutura, os grandes projetos do país costumam ser concluídos com atraso — e muito acima do orçamento, segundo o New York Times (NYT).
Em 2015, um novo hospital infantil em Dublin foi projetado para abrir até 2020, com um custo de 650 milhões de euros. Acontece que a data de inauguração já foi adiada — e ainda não há previsão para a abertura.
Não bastasse o atraso, o custo da obra também se multiplicou: agora, o valor está estimado em quase 2,2 bilhões de euros, o que poderia tornar a construção o hospital mais caro do mundo, em termos de custo por leito.
Desde 2000, a capital irlandesa ainda planeja abrir uma linha de metrô para o aeroporto de Dublin. Na época, o projeto era estimado em 3,5 bilhões de euros.
Após 23 anos de adiamentos e modificações, o plano mais recente prevê cerca de dez anos de construção a um custo entre 7 bilhões e 12 bilhões de euros.
Outra preocupação entre os políticos é por quanto tempo esses ventos positivos, com lucros inesperados de empresas e orçamento excedente, vão durar.
No ano passado, o Conselho Fiscal da Irlanda alertou que o país é extremamente dependente destes impostos “excessivos” sobre as empresas.
*Com informações de The New York Times e Irish Times
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