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INADIMPLÊNCIA RURAL

Os Fiagros não são mais pop? Por que os calotes que assombram os fundos imobiliários agora ameaçam os fundos do agronegócio

O crescimento da emissão de títulos do setor fomentou a oferta de produtos para as carteiras dos Fiagros, mas indica que produtores e empresários rurais podem ter se envolvido com dívidas com custo difícil de bancar

Montagem de foto com imagem do Rei do Gado em frente à plantação de soja | Fiagros ação agro
Nem Rei do Gado ou Rei da Soja: o pequeno investidor agora pode lucrar com o agro - Imagem: Seu Dinheiro

Criado em 2021 para pegar carona em um dos setores mais importantes da economia, o Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro) logo caiu no gosto do investidor. A categoria conta hoje com quase 260 mil cotistas e aproximadamente R$ 7,6 bilhões em estoque na B3.

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Existem atualmente três tipos de Fiagros. O mais famoso é categorizado como Fiagro-FII justamente por ter sido inspirado na estrutura dos “primos da cidade”, os fundos de investimento imobiliários (FIIs).

Há até mesmo a diferenciação entre fundos de tijolo — que, nesse caso, compram e/ou desenvolvem terras, imóveis e estruturas voltadas para pecuária e agricultura — e papel, que investem em títulos de dívida do setor.

Mas, por outro lado, algumas dessas características em comum também fazem com que os fundos agros estejam sujeitos a alguns dos mesmos problemas que afetam os “parentes”.  

E, nos últimos meses, nenhum fantasma tem assombrado tanto os cotistas quanto o da inadimplência. Atrasos de pagamentos a fundos imobiliários, especialmente aqueles que investem em títulos de crédito mais arriscados — conhecidos como high yield —, dominaram o noticiário desde março e aumentaram a cautela dos investidores com o segmento de crédito listado.

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Os holofotes sobre esse poltergeist dos calotes ficaram restritos ao universo dos FIIs por um tempo, mas não mais.

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Os avanços do principal instrumento de dívida do setor, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), fomentaram a oferta de ativos para o portfólio de Fiagros. A média histórica de emissões passou de R$ 12 bilhões para cerca de R$ 30 bilhões em 2021 e mais de R$ 38 bilhões no ano passado, segundo o boletim CVM Agronegócio.

Mas esse crescimento exponencial em meio a um cenário de juros altos também indica que produtores e empresários rurais podem ter emitido dívidas com um custo difícil de bancar.

Fiagros com problema

Na semana passada, por exemplo, os fundos XP Crédito Agro (XPAG11) e XP Crédito Agrícola (XPCA11) foram notificados de que a Usina Açucareira Ester, que está no portfólio de ambos, entrou com um pedido de recuperação judicial.

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O XPAG11 detém cerca de R$ 23,7 milhões de um CRA do qual a usina é devedora. Já o XPCA11 está menos exposto ao problema: são R$ 5 milhões investidos no CRA, com peso de 1,16% no PL.

Em comunicado enviado ao mercado, a XP Investimentos, administradora dos dois Fiagros destaca que “os fundos adotarão e realizarão o acompanhamento processual da RJ para que sejam adotadas todas as medidas necessárias para obter o pagamento dos valores devidos”.

E a recuperação judicial da Usina Ester não foi o primeiro caso a afetar o portfólio de Fiagros neste ano. Em fevereiro, o fundo Valora CRA (VGIA11) foi um dos impactados pela reestruturação de dívidas da Cooperativa Languiru.

O VGIA11 detém cerca de R$ 99 milhões em CRAs da companhia sul-rio-grandense e, segundo o último relatório gerencial divulgado, segue acompanhando o processo de adição e reestruturação das garantias das operações.

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Outros dois Fiagros — o Vinci Crédito Agro (VICA11) e o Vectis Datagro (VCRA11) — ligaram o alerta após a notícia da reestruturação da Usina Serpasa.

Ambos ficaram expostos à companhia após investirem em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) emitidos para a construção de uma usina sucroalcooleira na Bahia.

A planta deveria ter entrado em funcionamento no primeiro semestre deste ano, mas um problema com a emissão de licenças pelo órgão regulador atrasou o evento.

Sem operação para gerar recursos, os controladores da usina tiveram de se desfazer de um imóvel em março para retomar parcialmente o pagamento de juros dos CRIs.

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A Vectis, gestora do VCRA11, tranquilizou os cotistas no relatório gerencial de maio ao reforçar que a companhia contratou a consultoria Alvarez & Marsal — a mesma que atua na recuperação judicial da Americanas — para ajudar na gestão operacional e financeira do negócio.

Já a Vinci Partners, responsável pelo VICA11, destacou que a Serpasa “segue em processo de negociação de novos ativos imobiliários como alternativa para readequação da estrutura de capital e melhoria da liquidez”.

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Dificuldades climáticas e juros altos podem afetar os Fiagros

Apesar de a maioria das empresas citadas nesta matéria operarem com açúcar e álcool, Caio Araújo, analista da Empiricus, não acredita que há um problema de insolvência no mercado sucroalcooleiro.

Araújo destaca que, no caso da Usina Serpasa, por exemplo, o grande empecilho é uma “questão burocrática e operacional que afetou o fluxo de caixa da companhia”.

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A ressalva, porém, não implica na ausência de alertas para os fundos agro. “Por ora, acredito que as operações mais problemáticas não estão nesse segmento [açúcar e álcool], mas sim em grãos e plantações em regiões que sofrem com condições climáticas menos favoráveis ao cultivo.”

Além dos desafios inerentes ao agro, que incluem um arrefecimento parcial das commodities e um mercado interno menos aquecido, o especialista da Empiricus relembra ainda que os títulos do setor também são afetados pelo crescimento dos juros no país.

“O risco exige um retorno um pouco mais elevado, e vimos CRAs sendo estruturados com taxas altas desde o ano passado. Com a Selic ainda elevada, o carrego do custo de crédito, no caso do devedor, por um tempo maior que o esperado começa a deteriorar suas condições de pagamento.”

Araújo não acredita que o movimento de calotes será tão intenso como o registrado pelos fundos imobiliários high yield. Mas espera que, ao menos ao longo do primeiro semestre, “continue pipocando uma ou outra operação insolvente nas carteiras”.

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Para evitar estresse com eventuais calotes, o analista pede que, antes de comprar cotas de Fiagros, o investidor atente-se para o fato de que essa indústria não é composta pelos melhores devedores do agronegócio.

O ‘filet mignon’ do setor é financiado por grandes bancos, benefícios do governo e outras fontes de recurso. Já nos Fiagros, os players são mais sensíveis às oscilações do mercado e às condições econômicas como um todo, alguns deles passam por reestruturações societárias e outros ainda não geram resultado positivo. Então, atualmente, esse é um segmento mais arrojado.

Caio Araújo, analista de fundos imobiliários da Empiricus.

Especialista recomenda dois Fiagros para sua carteira

Um ponto positivo dos Fiagros é que, como o risco é maior, a remuneração também costuma ser mais expressiva do que a encontrada em outros produtos. 

Para quem digeriu os alertas e, ainda assim, considera que a relação entre risco e retorno é favorável ao produto, o analista da Empiricus cita dois fundos que, em sua visão, estão mais bem preparados para atravessar o cenário atual.

O primeiro é o JGP Fiagro (JGPX11), que, de acordo com Araújo, “assume uma postura mais conservadora e têm algumas operações menos arriscadas no portfólio”. Com pouco mais de 3,8 mil cotistas, o JGPX11 registrou um dividend yield — indicador que mede o retorno de um ativo a partir do pagamento de dividendos — de 1,21% no último mês.

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A outra recomendação fica com o Kinea Crédito Agro (KNCA11), cujo portfólio é mais arrojado. Para o analista, o risco maior da carteira é equilibrado pela liquidez do fundo — são 32,6 mil cotistas —, o volume maior de negociações e a gestão ampla com experiência em crédito.

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