O dólar pode ser imprevisível, mas é essencial para proteger sua carteira. Entenda os riscos e conheça as melhores estratégias
Os movimentos do dólar no mercado de câmbio são incertos, mas há estratégias eficazes para investir na moeda norte-americana e diversificar seu portfólio

Poucos ativos são tão incertos quanto o dólar.
Já conversamos algumas vezes neste espaço sobre as variações cambiais do dia a dia e sobre como é difícil antecipar as movimentações da moeda.
Faça o seguinte exercício: avalie o relatório Focus (compêndio do Banco Central com as estimativas do mercado) do começo de cada ano até 2021 com as projeções para o dólar ao final de 12 meses.
É uma verdadeira competição de quem erra mais.
Costuma-se brincar que o câmbio foi a invenção dos economistas para que os meteorologistas passassem menos vergonha.
Há um ponto interessante aqui, no entanto.
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Por que é tão difícil prever os movimentos do dólar
A dificuldade de se prever tais variações deriva da composição de tais flutuações. A moeda está longe de possuir uma fórmula mágica para prever seu valor.
Afinal, são muitos os fatores responsáveis por mexer com a sua cotação.
Ainda assim, consigo estipular ao menos 5 pontos relevantes que costumam explicar, ao menos historicamente, algo como 80% das variações cambiais:
- i) o câmbio de equilíbrio é o ponto estimado pelo que se chama na academia de Fundamental Equilibrium Exchange Rate (FEER), ou taxa de câmbio fundamental de equilíbrio, em português, sendo esta a taxa de câmbio real que é consistente com o equilíbrio macroeconômico, identificada como a taxa que traz a conta corrente em igualdade com a conta de capital subjacente ou sustentável;
- ii) o risco país fala do famoso “Risco Brasil”, um fator que costuma pesar muito em grandes saltos e quedas da moeda, sendo definido pelo Credit Default Swap (CDS) de 5 anos (quanto maior o risco país, menos vale o real);
- iii) a força do dólar é a questão da ‘potência’ do país — isto é, quanto mais robusta for a economia americana ou mais atraente forem os investimentos nos EUA, mais valor teria o dólar no mundo;
- iv) a força das commodities basicamente varia de acordo com o ciclo destas mercadorias importantes para todos os players do globo — quanto mais forte a época for para as commodities, mais se valorizam moedas relacionadas com as matérias-primas, como o real; e
- v) o diferencial de juros é a necessidade de um país pagar uma determinada taxa mais um seguro para ser interessante a ponto de segurar a moeda em seu território — quanto de juros real o Brasil paga acima dos EUA define esta função.
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Veja que cada uma dessas variáveis possui sua própria dinâmica interna.
Abaixo, um pouco do comportamento da moeda americana contra o real nos últimos 12 meses.
Cotado a R$ 5,25 hoje, o dólar se comportou como uma verdadeira montanha-russa desde meados do ano passado. De 28 de junho de 2021 até meados de dezembro, a divisa valorizou mais de 16% contra o real brasileiro.
O grande culpado desse movimento foi o risco país, que se deteriorou consideravelmente por conta do rompimento do teto de gastos no ano passado.
Em 2022, entretanto, a lógica se inverte.
No ano até o início de abril, o dólar chegou a cair 20% contra a nossa moeda, tendo voltado a ganhar força internacionalmente nas últimas semanas — dólar forte no mundo (mais juros nos EUA), fraqueza das commodities e elevação do risco país.
Ainda assim, o dólar ainda cai cerca de 7% no ano.
Diante disso, vale a pena ter dólar hoje na carteira?
A resposta é sim, vale a pena ter dólar na carteira, principalmente para proteção.
Lembre-se que há duas abordagens para os investimentos em dólar ou outras moedas:
- i) a de casamento, que considera a posição estrutural de longo prazo; e
- ii) a de namoro de verão, que guarda consigo um cunho mais tático.
Pensando no longo prazo, entendemos que seja importante manter pelo menos algo como 15% a 30% de posições estruturais em moeda estrangeira nas carteiras (hoje, vale a pena ter mais caixa em dólar lá fora, para quando o bear market acabar).
No final do dia, sempre será benéfico ao investidor diversificar seu portfólio em outras divisas e geografias.
Para quem já tem esse percentual devidamente alocado lá fora, porém, talvez seja a hora de esperar um pouco para novos movimentos.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
O que pode gerar volatilidade no dólar nos próximos meses
Adicionalmente, vejo pressões que podem gerar volatilidade nos próximos meses.
A primeira delas, de cunho internacional, se relaciona com as novas sanções do G7 sobre a Rússia, que voltou a engrossar o tom em sua invasão na Ucrânia.
Desde o início do conflito, a Europa e os Estados Unidos proibiram a importação de petróleo russo para cortar uma fonte de receita crucial para o Kremlin.
Contudo, o plano de causar dor econômica ao presidente Vladimir Putin, forçando-o a reconsiderar sua guerra, não funcionou como esperado.
O governo da Rússia está ganhando tanto dinheiro com as exportações de energia quanto antes da invasão (um aumento nas exportações para a Ásia ajudou a compensar grande parte dessas perdas).
Enquanto isso, a inflação está aumentando globalmente, aumentando a pressão política sobre chefes de Estado ocidentais. Isso forçou os líderes das principais economias do G7 a considerar uma nova rota: colocar tetos de preços no petróleo russo.
Com preços máximos, os barris de petróleo russo teoricamente ainda poderiam chegar ao mercado global, evitando assim uma nova crise de oferta – mas Moscou não seria capaz de obter grandes lucros.
O movimento vai gerar volatilidade nos preços internacionais das commodities, assim como vimos nas últimas semanas, o que terá impacto sobre a taxa cambial brasileira, como expliquei anteriormente (petróleo mais fraco é ruim para o Brasil).
Risco fiscal no Brasil adiciona imprevisibilidade
O segundo ponto, no âmbito doméstico, se relaciona com o fiscal brasileiro. As medidas recentes para conter a explosão de preços dos combustíveis terão um impacto fiscal de cerca de R$ 35 bilhões.
Ainda, somadas à redução do PIS e Cofins sobre combustíveis prevista na Lei complementar 194, que deve ter impacto da ordem de R$ 15 bilhões, as medidas somam em torno de R$ 50 bilhões.
Um fiscal ainda mais deteriorado seria ruim para a percepção de risco doméstico, prejudicando o patamar de risco-país e depreciando nossa moeda.
Ou seja, há espaço para bastante imprevisibilidade no câmbio.
Por isso, vale a pena ter dólar na carteira como proteção, da maneira tradicional de hedge cambial.
Gosto de fundos cambiais de taxa reduzida, hoje abundantes nas corretoras brasileiras.
Alternativamente, você também pode internacionalizar tais recursos, deixando-os no caixa em corretoras no exterior.
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