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2021-01-20T19:51:57-03:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco), “Abandonado” (Geração) e "Os Jogadores" (Planeta).
Análise

Sem o “forward guidance”, Banco Central arranca bola de ferro dos pés

Decisão do BC de abrir mão do compromisso de não mexer com os juros foi acertada, mas a adoção do instrumento mais ajudou ou atrapalhou a economia?

20 de janeiro de 2021
19:51
Bola de ferro
Imagem: Shutterstock

Os diretores do Banco Central arrancaram a bola de ferro que haviam amarrado aos próprios pés na reunião desta quarta-feira, na qual decidiram manter a taxa básica de juros (Selic) em 2% ao ano.

A bola de ferro atende pelo nome de “forward guidance”, a controversa sinalização de que os juros ficariam muito baixos por um longo período.

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Esse instrumento de política monetária foi adotado com sucesso pelo Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, no combate à crise financeira de 2008.

O forward guidance voltou à baila no ano passado como uma das armas para tentar reanimar a economia combalida pela pandemia da covid-19. O Fed já indicou que as taxas não devem subir nos EUA pelo menos até 2023.

Por aqui, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu importar o “forward guidance” em agosto do ano passado. Ao baixar a Selic para a mínima histórica de 2% ao ano, o BC sinalizou ao mercado que a taxa poderia se manter nesses níveis até meados de 2022.

Só que para o instrumento funcionar, é preciso combinar com os russos — no caso, o mercado financeiro. Em outras palavras, os investidores precisam acreditar na capacidade do BC de manter os juros baixos.

A manutenção do forward guidance dependia basicamente de duas variáveis que costumam ser traiçoeiras no Brasil: a inflação e a política fiscal.

Menos de um mês após o BC indicar que os juros não subiriam, o país passou por um choque nos preços de alimentos que começou a pressionar os índices de inflação. O resultado foi que o IPCA encerrou o ano em 4,52% — acima do centro da meta de 4%.

Ao mesmo tempo, o mercado começou a questionar a trajetória da dívida pública em meio aos gastos do governo para conter os danos da pandemia. Com isso, passou a cobrar mais juros do Tesouro para comprar os títulos do governo.

Essa distorção no mercado de juros provocou até uma inesperada queda no rendimento do Tesouro Selic, algo que não ocorria desde 2002.

O Copom aguentou o tranco e manteve o forward guidance até a reunião desta quarta-feira, mas ninguém mais comprava a ideia. Antes mesmo da morte precoce do instrumento, o mercado já projetava uma alta da Selic para 3,25% no fim de 2021, de acordo com o último boletim Focus.

Será que valeu a pena?

No final, a decisão do BC brasileiro de abrir mão do compromisso de não mexer com os juros foi acertada. Desta forma, o Copom terá liberdade tanto para apertar as taxas se o dragão da inflação continuar mostrando os dentes ou mesmo manter a Selic no caso de a economia seguir debilitada pelos efeitos da covid-19.

A grande questão que fica para os especialistas em política monetária é: a experiência do forward guidance mais ajudou ou atrapalhou a condução da economia em meio à crise?

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