Mercado olha desconfiado para Orçamento e Ibovespa acompanha queda do exterior; dólar fica estável
Com a agenda de indicadores esvaziada e a véspera de feriado, os investidores acabaram optando pela cautela

Com o clima de sexta-feira reinando em plena terça-feira (20), a cautela ditou o tom dos negócios hoje. Além da tradicional tirada de pé do acelerador, típica das vésperas de feriado, outros elementos se somaram e levaram o Ibovespa a recuar 0,72%, aos 120.061 pontos. No pior momento da sessão, o índice chegou a perder os 120 mil pontos, patamar sustentado com sucesso nos últimos pregões
As bolsas americanas - que funcionam normalmente amanhã - fecharam o dia em queda, puxadas pelo desempenho ruim do petróleo e seguindo um movimento de realização de lucros após os recentes recordes.
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Já aqui, o que repercutiu pelo mercado foi o acordo para (enfim) a aprovação do Orçamento. Com cinco meses de atraso, o tema já gerou muito ruído e tensão, então, natural que a simples retirada dessa pedra do sapato trouxesse algum alívio.
A bolsa brasileira chegou a abrir o dia em alta, mas rapidamente cedeu à pressão externa e foi aprofundando a queda ao longo do dia. O dólar à vista durante a maior parte do dia operou em queda, refletindo essa visão de “antes feito do que perfeito” do mercado, mas desacelerou conforme a divisa se fortaleceu no mercado internacional.
A busca pelo dólar, clássico ativo de proteção, tem origem na preocupação dos investidores com a pandemia, que ainda segue forte em diversos países e preocupa principalmente a Europa, a Índia e o Brasil. Ao fim do dia, a moeda americana fechou estável, com uma leve alta de 0,01%, a R$ 5,5508.
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Se por um lado o mercado recebe bem a notícia de que os imbróglios políticos em torno da pauta estão encerrados, por outro a situação fiscal fica ainda mais preocupante. “A gente sabe que além dessa coisa de ‘fica dentro do teto, fica fora do teto’, a conta pode ser muito maior com a flexibilização das despesas obrigatórias no PLN2. Deixar um cheque em branco na mão do governo é muito delicado e causa instabilidade e incertezas”, pontua Ariane Benedito, economista da CM Capital.
Lorena Laudares, analista política da Órama Investimentos, lembra que o regime fiscal é a âncora que alinha expectativas do governo, da classe política e do mercado para o longo prazo. De olho na deterioração ainda maior das contas públicas, a curva de juros - que vinha em uma toada de alívio -, voltou a subir. Dos contratos curtos aos mais longos, todos fecharam o dia com uma alta expressiva, com destaque para os últimos. Confira:
- Janeiro/2022: de 4,62% para 4,69%
- Janeiro/2023: de 6,26% para 6,38%
- Janeiro/2025: de 7,88% para 7,98%
- Janeiro/2027: de 8,50% para 8,63%
Passando pano
Com cinco meses de atraso, o Orçamento de 2021 parece finalmente em vias de ser sancionado. O grande pauta do dia foi justamente o acordo que permitiu que a novela tivesse um fim.
Em resumo: a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021 foi alterada, agora chamada de PLN2 e excluiu do teto e da meta fiscal as despesas com saúde e com programas de alívio à pandemia. “Essa solução juridicamente e politicamente resolvem, a princípio, os problemas imediatos do governo, que seriam o risco de um crime de responsabilidade e a perda da governabilidade”, explica a analista política Lorena Laudares.
Falando em números, isso significa que R$ 125 bilhões de gastos emergenciais ficaram de fora do teto de gastos. Com isso, o governo conseguiu ceder à pressão dos parlamentares e manter R$ 16,5 bilhões em emendas dentro do Orçamento.
Hoje pela manhã, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o acordo permite que o orçamento seja “exequível”. Durante a tarde, em coletiva para comentar a arrecadação federal recorde no primeiro trimestre - que já era antecipada pelos investidores -, Guedes voltou a falar sobre o acordo. Segundo o ministro, a decisão mostra o compromisso do governo com a saúde e a responsabilidade fiscal.
Mas não é bem assim que os analistas do mercado estão encarando a situação. Com o tema se arrastando por tanto tempo, os investidores não viam a hora de colocar um ponto final na história e evitar o prolongamento da briga político-jurídica, já que um consenso dificilmente seria atingido e as alternativas - como o estado de calamidade pública - seriam ainda piores. O acordo foi uma bela “passada de pano” para aliviar a meleca.
O apagar de uma estrela?
Os maiores derrotados de toda essa situação parecem ter sido Paulo Guedes e sua equipe econômica, que desde o começo dessa história tentaram brigar pelos vetos e pela manutenção das despesas obrigatórias. Essa não é a primeira derrota do ministro e sua equipe.
Guedes está longe de tentar esconder o seu descontentamento. E o mercado concorda, “mas vemos um ministro com cada vez menos força e oculto no governo, sem poder fazer nada”, explica Benedito, da CM Capital. Já Laudares pontua que dessa vez o enfraquecimento da equipe e da agenda liberal se dá pela falta de dimensão sobre a possibilidade de tamanho do rombo.
No vermelho
No exterior, a agenda esvaziada de indicadores econômicos levou os investidores a entrarem em compasso de espera pelos resultados das grandes empresas americanas. Nos Estados Unidos, a temporada de balanços já está em andamento e tem comandado o rumo dos negócios.
As bolsas americanas e europeias fecharam no vermelho, também cedendo a um movimento de realização de lucros após os recordes da semana passada e também acompanharam a queda do petróleo - o que também pesou sobre as ações da Petrobras por aqui. Aliás, hoje completa um ano desde que os contratos futuros da commodity foram negociados no negativo. Meu colega Ivan Ryngelblum relembra a história nesta matéria.
Durante a madrugada, as bolsas asiáticas fecharam sem uma direção única, mesmo após o Banco Central chinês ter mantido a principal taxa de juros nos níveis atuais. O temor do mercado era de que a rápida recuperação econômica levasse a uma retirada dos estímulos monetários.
Jogando contra
A performance das commodities metálicas, que tanto tem ajudado o Ibovespa nos últimos tempos, pesou contra nesta tarde.
A Vale divulgou sua produção de minério de ferro do primeiro trimestre deste ano. Foram 68,045 milhões de toneladas, 14,2% acima do mesmo período do ano passado. As vendas do subiram 14,8%, para 59,298 milhões de toneladas. Mas a produção de níquel e cobre recuou.
O desempenho ficou em linha com o piso das projeções para o ano e um pouco abaixo do esperado pelo mercado. As ações da Vale repercutiram os números de forma negativa e mesmo o salto do minério de ferro não foi suficiente para aplacar a queda da mineradora e das siderúrgicas, empresas de grande peso no índice.
Sobe e desce
Os papéis do Grupo Pão de Açúcar tiveram mais um dia de alta firme neste ano, puxados pelas prévias operacionais robustas do Carrefour Brasil, aumentando a expectativa pelos resultados do GPA. Confira as principais altas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| PCAR3 | GPA ON | R$ 39,30 | 8,92% |
| MRFG3 | Marfrig ON | R$ 20,71 | 4,60% |
| CMIG4 | Cemig PN | R$ 13,50 | 3,85% |
| CRFB3 | Carrefour Brasil ON | R$ 22,93 | 3,29% |
| BRDT3 | BR Distribuidora ON | R$ 22,84 | 3,07% |
As ações da Yduqs e o segmento de educação como um todo operaram em forte queda nesta terça-feira. Segundo Marcio Lórega, analista técnico da Ativa Investimentos, as empresas de educação recuaram após o bom desempenho no último mês, em um movimento de rotação de setores.
Em seguida, temos as Lojas Renner, que surpreenderam ao anunciar uma oferta bilionária de ações para financiar aquisições e se fortalecer no e-commerce. Segundo o Estadão, o alvo pode ser a empresa de comércio digital Dafiti. Avaliado em R$ 10 bilhões, o movimento é considerado ousado, e a Renner aprofundou a queda. Confira também as maiores baixas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| YDUQ3 | Yduqs ON | R$ 29,55 | -5,29% |
| LREN3 | Lojas Renner ON | R$ 43,40 | -4,05% |
| GOLL4 | Gol PN | R$ 22,22 | -3,93% |
| PRIO3 | PetroRio ON | R$ 92,96 | -3,17% |
| BTOW3 | B2W ON | R$ 65,70 | -2,81% |
PESSIMISMO CONTINUA
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