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Estadão Conteúdo
entrevista

‘Não me arrependo de ter votado em Bolsonaro’, diz Amoêdo

Em entrevista, ex-presidenciável também critica decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, de conceder aumento para a Polícia Militar

9 de março de 2020
10:01 - atualizado às 10:02
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O presidente do partido Novo, João Amoêdo. - Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

Depois de criar o partido Novo em 2011 e receber em 2018 2,5% dos votos na eleição presidencial, o que o colocou à frente de nomes como Marina Silva (Rede), Henrique Meirelles (MDB) e Alvaro Dias (Podemos), o empresário João Amoêdo surpreendeu o mundo político na semana passada ao renunciar ao comando da sigla três anos antes do fim de seu mandato. Nessa entrevista, Amoêdo disse que pretende continuar em cena, mas que abriu mão do cargo em nome da renovação. O ex-presidenciável também criticou a decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, de conceder aumento para a Polícia Militar.

Por que o senhor renunciou à presidência do Novo?

Primeiro foi o fato de estar há dez anos dedicado ao projeto, desde a concepção inicial, a coleta de assinaturas, até a implementação do partido e a candidatura à Presidência. Em segundo lugar, temos um diretório consolidado e bem encaminhado. Um terceiro ponto é que a gente sempre fala no Novo como uma instituição que precisa ter renovação dos seus quadros. O partido é baseado em princípios, ideias e valores, e não necessariamente em uma única figura. Minha decisão causou surpresa porque não é uma conduta tradicional nos partidos políticos. Vou continuar ajudando o partido. Vou manter uma participação na vida política do Brasil.

Está no horizonte disputar à Presidência da República em 2022?

Não estou pensando ainda em candidatura. Não parei para pensar sobre isso. Um dos problemas do Brasil hoje é que vários atores importantes do mundo político estão fazendo planos pensando muito na eleição de 2022. O próprio presidente da República. Aí ficam procurando soluções de curto prazo. Vou pensar bastante. No fim da história não podemos esquecer que será também uma definição do partido.

A decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, de conceder um robusto aumento para a Polícia Militar foi desautorizada pela sigla. O Novo também suspendeu o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Falta sintonia entre o discurso do partido e seus quadros mais proeminentes?

O ministro do Meio Ambiente era um filiado do Novo que foi escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro. Eu não diria que ele é uma figura proeminente do Novo. Já o governador Romeu Zema e nossos deputados federais são. Alguns filiados entraram contra o Salles no comitê de ética do partido. O comitê de ética julgou oportuno suspender a filiação dele. O Zema é um caso bem diferente. O partido separa muito a gestão a atuação partidária e a gestão pública. Mas o entendimento do Novo, que tem uma preocupação muito grande com responsabilidade fiscal, é que houve um erro que foi depois exacerbado com os aumentos das outras áreas. Apesar de ele estar fazendo um bom governo, houve um erro do Zema ali.

O que deveria ser feito diante da pressão da polícia?

Uma negociação que não tivesse aumento ou que tivesse aumento muito pequeno. Com as contas como estavam, não faria sentido dar aumento.

Quando Salles foi suspenso, disse que os que não rezam a cartilha do Amôedo no Novo são boicotados. Como recebeu essa crítica?

Ignorei. É tão longe da verdade... Ele queria fazer polêmica em cima da suspensão dele.

O Novo terá 35 candidatos a prefeito em 2020. Por que tão pouco?

É uma quantidade grande de candidatos. O partido não usa dinheiro público. Sabemos que as pessoas estão refratárias a ter participação política. O Novo não pega políticos tradicionais. São pessoas que saem da iniciativa privada. Em 2016 tivemos apenas um candidato a prefeito.

O sr. vai à manifestação de 15 de março? O que achou da convocação contra o que chamam de "parlamentarismo branco"?

Não irei. Não gosto de manifestações que são contra as instituições. Prefiro manifestações que são a favor de alguma coisa.

Achou graves a declaração do general Heleno e a convocação do Bolsonaro?

A pessoa, quando está no cargo de presidente, tem que ter muito cuidado com o que fala e posta. Esse posicionamento do presidente está muito em linha com outras coisas que eles têm feito que têm dificultado a aprovação das reformas. Bolsonaro fala mais da carteira da UNE do que da reforma administrativa, trata a imprensa sem profissionalismo, cria polêmicas, traz o entorno dos filhos para participar de decisões importantes. Tudo isso mostra um certo desprezo pela instituição do cargo. No fundo, ele está mantendo o grupo que o apoiará para estar no segundo turno em 2022. Eu, no lugar dele, mudaria esse roteiro. Trocaria o ministro da Educação.

O sr. votou nele no 2° turno em 2018?

Votei contra o PT. Não me arrependi porque não tinha opção. Achava pior votar nulo ou no PT. Não me surpreende a falta de capacidade administrativa dele, dado o histórico de 28 anos no
Congresso.

O PIB teve um crescimento pífio. Como avalia o desempenho da equipe econômica?

A qualidade da equipe é muito boa. Temos no Novo uma identidade muito grande com o que eles pregam: responsabilidade fiscal, maior abertura da economia, reformas e privatização. Mas na prática nós sabemos que muitas dessas reformas mexem com interesses e exigem um trabalho no Congresso. Na medida em que o presidente não faz esse trabalho e puxa para a polêmica, ele acaba influenciando seus ministros. Essas derrapadas do Paulo Guedes vêm nessa esteira do clima que se cria. O que falta é velocidade na apresentação das propostas na área econômica. Nada foi apresentado na reforma tributária. O ministro Paulo Guedes fala que tem 15 semanas, mas já queimaram muitas.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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