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#SomosTodosDesqualificados

Quer diversificar sua carteira com um fundo que investe 100% no exterior? E que tal um veículo que compra empresas que não são listadas em Bolsa, os fundos de private equity? Essas duas categorias não estarão disponíveis para o Neivaldo, que tem menos de R$ 1 milhão investidos.

Bruno Merola
18 de setembro de 2020
14:06 - atualizado às 13:23
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Imagem: Shutterstock

Quando comecei na série Os Melhores Fundos de Investimento , em 2016, li o depoimento de um assinante que me marcou pela fúria. O remetente era o Neivaldo, que iniciava sua jornada de investidor. “Para mim isso não faz sentido, não tem lógica. Na hora de aplicar no fundo, o cliente recebe o nome de ‘desqualificado’”, relatou em seu e-mail. Por “desqualificado”, Neivaldo se referia à classificação estabelecida pela CVM para delimitar o acesso aos fundos de investimento.

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Aos olhos do regulador, na verdade, ele não era um “desqualificado”, mas um investidor que fazia parte do chamado Público Geral (denominação original da Instrução CVM 539). Para tornar-se um Investidor Qualificado, Neivaldo precisaria ter a partir de R$ 1 milhão em investimentos financeiros ou ser aprovado em um dos exames de certificação reconhecidos pela CVM. Mais adiante estão os Investidores Profissionais, aqueles que dispõem de mais de R$ 10 milhões ou são analistas e/ou consultores reconhecidos pelo regulador.

Vou dar um exemplo de como essa classificação funciona. Quer diversificar sua carteira com um fundo que investe 100% no exterior? E que tal um veículo que compra empresas que não são listadas em Bolsa, os fundos de private equity? Essas duas categorias não estarão disponíveis para o Neivaldo, que tem menos de R$ 1 milhão investidos. 

O nosso assinante está coberto de razão em ficar furioso. Na prática, um milionário que não entende nada de investimentos pode ter acesso a produtos considerados mais arriscados, enquanto um estudioso do mercado ficará de fora de boas oportunidades por ainda não ter alcançado seu primeiro milhão. Salvo raras exceções, todo milionário começou “desqualificado”.

A regra atual foi definida em 2014, quando a CVM fez uma audiência pública para ouvir entidades do mercado a respeito da regulamentação da categoria de investidores qualificados e profissionais. Na época, não havia grande disseminação de informações sobre investimento; era grande a assimetria. A fonte primária do brasileiro era o gerente do banco. 

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Mas hoje, os tempos definitivamente são outros — posso constatar isso inclusive pela complexidade das perguntas dos nossos milhares de assinantes que chegam aqui no e-mail da série Os Melhores Fundos de Investimento. De 2016, quando a série começou, para 2020, houve um salto de conhecimento visível, com o qual me orgulho de ter colaborado. Temos visto de forma mais ampla uma revolução no mundo dos investimentos.  

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A própria CVM reconhece que mudanças precisam ser feitas. E a boa notícia nesse sentido é que o regulador está consultando as pessoas físicas a respeito de uma flexibilização do acesso aos chamados investimentos alternativos. 

Nessa categoria estão dois mercados: o primeiro é o de securitização, composto basicamente de crédito estruturado. É o caso dos CRIs, CRAs e FIDCs. O segundo se refere aos Fundos de Investimento em Participações (FIPs), ou seja, produtos de private equity e venture capital que compram participação em empresas não listadas em Bolsa. Ambos não podem ser acessados pelo público geral (ou os “desqualificados”, como diria o Neivaldo).

Especificamente sobre os FIPs, sempre me intrigou a restrição do acesso ao investidor de varejo.

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Talvez o motivo da limitação deva-se ao fato de serem ilíquidos... Isso porque, nesses instrumentos, o investidor não pode resgatar seu capital ao longo de 7 a 12 anos (prazo que condiz com o tempo de maturação dos investimentos em empresas). Mas acho que não, já que, no caso dos COEs, instrumentos amplamente oferecidos para o varejo, o investidor já tem de se comprometer com prazos longos para resgate. 

Talvez sejam os riscos... Mas também não faz sentido, afinal, o pequeno investidor tem acesso individualmente a alternativas muito mais arriscadas, como se alavancar no mercado futuro ou vender opções a descoberto. 

Talvez seja pelo baixo retorno... Não, com certeza não é por isso. Os FIPs têm se mostrado um excelente investimento. Os fundos da classe tiveram uma taxa interna de retorno média de 22% ao ano em dólar entre 1982 e 2010, de acordo com este artigo,  fruto de uma parceria entre o Insper, a Spectra Investimentos e a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). O primeiro quartil de performance ficou entre 31% e 159% ao ano em dólar. Sendo este último um caso extremo, pois significa uma multiplicação de capital de “apenas” 24 vezes. 

Só me resta uma alternativa em mente: a assimetria de informação. Mas considerando o quanto o mercado de fundos mudou nos últimos seis anos, não vejo motivo para que o mercado de alternativos não se adapte também. Melhorar comunicação, fazer cartas, vídeos, lives e materiais explicativos das estratégias... Enfim, as possibilidades são infinitas.

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O fato é que pelo menos uma coisa podemos afirmar: a pessoa física não deveria ser excluída desse tipo de oportunidade. Enquanto o investidor de altíssimo patrimônio, por já possuir um razoável capital acumulado, tende a buscar preservação de capital e manutenção do poder de compra, o pequeno investidor deseja multiplicação de capital — ele quer chegar ao primeiro milhão.

Nem que o público geral seja limitado a 10% de seu patrimônio nos FIPs (até por serem um investimento pouco líquido). Melhor ainda, pode ser 1/12 (8,33%) de tudo que o investidor guarda no ano. Se você consegue juntar R$ 1 mil por mês, basta separar um mês do ano e colocar esse dinheiro em um FIP disponível.

Vamos supor que todos os FIPs em que você entrar e todos os reinvestimentos que fizer da devolução do capital investido vão render em torno de 20% ao ano em reais — o estudo dava uma média de 22% em dólar, portanto estamos sendo mais conservadores. Ao longo de 20 anos, você teria acumulado R$ 224 mil aplicando apenas R$ 1 mil por ano. Se decidir fazer uma reserva de capital para quando seu filho ou filha recém-nascido(a) alcançar os 25 anos, ele(a) poderia começar a vida adulta com R$ 566 mil em investimentos.

Aqui na série Os Melhores Fundos de Investimento acreditamos na educação financeira aliada à análise de qualidade, em vez da política de “se é complexo, só deixo quem tem dinheiro acessar”. Defendemos que pequenos e grandes investidores tenham acesso às mesmas boas oportunidades. A nossa parte estamos fazendo, desbravando de antemão o mercado de FIPs para trazer boas oportunidades aos nossos assinantes.

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