Fundos multimercados que investem no exterior e em debêntures se salvam em setembro
Com o aumento do risco fiscal que derrubou a bolsa e fez o dólar disparar, apenas 55 de uma amostra de 435 fundos multimercados conseguiram superar o CDI, indicador de referência, no mês passado

Quando as perdas nos ativos financeiros chegam até mesmo ao porto seguro do Tesouro Selic, não era mesmo de se esperar um desempenho muito vigoroso dos fundos multimercados. Em setembro, apenas 55 fundos conseguiram render mais que os 0,16% do CDI, indicador de referência.
Os dados fazem parte de uma amostra de 435 multimercados com mais de R$ 50 milhões em patrimônio e pelo menos 500 cotistas e histórico de 12 meses que a consultoria Quantum Axis levantou a meu pedido.
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Eu exclui os produtos das categorias de capital protegido e que operam com uma estratégia específica, como investir em ouro, para avaliar apenas os fundos que contam com um esforço ativo de gestão.
Em tese, os multimercados são a única classe de fundos que podem ganhar tanto em momentos de alta como de queda dos ativos.
Mas como a maioria dos gestores mantém (ou pelo menos mantinha) uma visão mais otimista, os fundos sofreram no mês passado com os temores de um descontrole das contas públicas com o impasse sobre como financiar o programa de renda que deve substituir o Bolsa Família.
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Até mesmo fundos que conseguiram escapar do banho de sangue nos mercados em março, como SPX, Adam e Ibiúna, ficaram no vermelho em setembro.
É claro que o desempenho em apenas um mês, ainda mais um tão complicado como setembro, não deve ser tomado como referência de avaliação do trabalho de um gestor.
Quando alargamos o horizonte de tempo para o acumulado dos nove meses de 2020, temos 179 fundos multimercados com retorno acima do CDI. Em 12 meses, esse número aumenta para 236, segundo os dados da Quantum.
O que deu certo: investimento no exterior
Mas, afinal, o que fizeram os poucos fundos que conseguiram bater o CDI no tenebroso mês de setembro? Dos dez mais rentáveis, nada menos que sete adotam a classificação "investimento no exterior" e são restritos a investidores qualificados — que na definição da CVM são aqueles que possuem pelo menos R$ 1 milhão em recursos.
A simples exposição ao dólar, que subiu 3% no mês passado, impulsionou a rentabilidade dos fundos campeões.
Foi o caso do primeiro colocado da lista, o Itaú Financial Bonds. Com um retorno de 2,76%, o fundo é classificado como multimercado, mas tem como principal estratégia investir em títulos de dívida (bônus) emitidos por instituições financeiras brasileiras no exterior.
A segunda posição entre os fundos mais rentáveis do mês é um multimercado mais “clássico”, mas também ganhou com a exposição cambial.
O Dolar Global Macro Opportunities, do J.P. Morgan, rendeu 2,68% em setembro, com uma estratégia de investir em diferentes mercados e regiões no exterior. No mês passado, 45% da carteira estava aplicada nos Estados Unidos e 60% em ações.
O terceiro fundo mais rentável de setembro foi o Pimco Income Dólar, com um retorno de 2,51%, segundo a Quantum. Trata-se da versão com exposição cambial do fundo da gestora americana, uma das primeiras a oferecer seus produtos aos investidores brasileiros. Eu fiz uma matéria detalhada sobre o fundo da Pimco na Lupa dos Fundos, um conteúdo exclusivo do Seu Dinheiro Premium.
O bom desempenho dos fundos que investem lá fora reforça a importância da diversificação da carteira, não só entre classes de ativos como também geográfica.
O problema é que a oferta desses produtos é bem restrita para o público em geral graças a uma restrição da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Atualmente, os fundos destinados ao público em geral podem ter no máximo 20% do patrimônio no exterior.
A expectativa, porém, é que a CVM flexibilize esses limites e inclusive já há um pedido formal nesse sentido, segundo Carlos André, vice-presidente da Anbima, associação que representa as instituições que atuam no mercado de capitais.
O que também deu certo: debêntures
Quem também teve um resultado surpreendentemente positivo no mês passado foram os fundos multimercados que investem uma parte dos recursos em títulos de crédito privado, como debêntures.
O Idex, índice criado pela gestora JGP que reúne uma cesta com as debêntures mais negociadas no mercado, subiu 0,70% em setembro, bem acima do CDI.
O retorno é emblemático porque as debêntures foram uma das classes de ativos que mais sofreram no auge da crise do coronavírus. A ponto de o Banco Central ganhar autorização para atuar no mercado dentro da PEC do Orçamento de Guerra.
Com o bom desempenho dos papéis no mês, vários fundos que têm a denominação de crédito privado aparecem entre os que bateram o CDI. É o caso do JGP Crédito Advisory, Itaú Active Fix Plus e XP Crédito Estruturado 360.
O que deu errado: long bias
Quando viramos a lista de multimercados de ponta-cabeça para ver os que mais sofreram em setembro, um padrão se repete: os fundos long bias (ou long biased). A estratégia consiste em manter uma tendência ou viés (bias) de compra (long) no mercado de ações.
Essa tendência não significa uma obrigação, como acontece nos fundos de ações tradicionais, que precisam manter pelo menos 67% da carteira comprada em bolsa.
Mesmo com a possibilidade de manterem posições vendidas, a queda das ações no mês passado pesou sobre esses fundos. O Versa Long Biased liderou as perdas em setembro, com 19,66%.
Mas os investidores do fundo estão acostumados às fortes oscilações das cotas. Até porque o saldo até aqui tem sido positivo. Mesmo com a queda de setembro, a rentabilidade acumulada nos últimos 12 meses ainda é de 93,77%. Além do Versa, os fundos long biased da XP, Itaú, Safari e Moat estão entre os que amargaram perdas no mês passado.
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